Leninismo de direita

O fim de semana que passou abriu um rombo no casco da arca da diversidade do país

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

30 Janeiro 2017 | 02h00

“Eu sou um leninista. Lenin queria destruir o estado e é também a minha meta. Quero demolir tudo e destruir todo o establishment de hoje.” (Steve Bannon, estrategista chefe da Casa Branca e novo membro do Conselho de Segurança Nacional, em novembro de 2012)

Foi um fim de semana de caos, em que ficou claro: alguém está trabalhando para destruir muito. Vamos, por um momento, deixar de lado a questão moral, o impulso autodestrutivo de provocar um choque de civilizações e o fato de que o número de norte-americanos mortos nos EUA por atentados cometidos por cidadãos dos sete países banidos é zero.

“A bandeira no Vale do Silício está a meio mastro,” disse uma empresária e fellow da Universidade de Stanford ao Financial Times logo após a eleição em novembro passado. A indústria de tecnologia na Costa Oeste está entre as que mais contratam profissionais estrangeiros no país. Em meio à perplexidade com a detenção de portadores de Green Cards, o cartão de residência, Sundar Pichai, o CEO indiano do Google – cerca de 4 mil funcionários estrangeiros – chamou de volta pelo menos cem empregados atingidos pela ordem executiva de sexta-feira, que ele considera um obstáculo à contratação de talentos para a empresa.

Uma das soluções atualmente consideradas por corporações do Vale do Silício é abrir filiais, ó ironia, no México e na China, os dois sacos de pancada nacionalista do novo presidente.

Menos de dez por cento das 330 maiores regiões metropolitanas dos Estados Unidos atraem trabalhadores com curso universitário, alerta Richard Florida, o autor e guru da importância da classe criativa. O instituto fundado por Florida na Universidade de Toronto identifica o tripé do desenvolvimento econômico no século 21 por 3 T’s: Tecnologia, Talento e Tolerância. Sim, tolerância. Um terço dos profissionais em funções high tech no Vale do Silício nasceu em outro país.

O refugiado que escapa do Boko Haram na África ou das armas químicas em Alepo terá pouca escolha de destino, sua prioridade é sobreviver. Mas um profissional altamente especializado pode escolher entre uma sociedade tolerante, onde seus filhos de aparência diferente não vão sofrer bullying na escola e outra, em que estranhos são estimulados por líderes políticos a berrar, no metrô, volte para seu país!

Um motivo pelo qual os 3.3 milhões de muçulmanos vivendo nos EUA até hoje não produzem desajuste e radicalismo como os 7.7 milhões que vivem na França é a integração nesta sociedade onde os turistas querem tirar foto com alguém fantasiado de Estátua da Liberdade em Times Square.

O fim de semana que passou abriu um rombo no casco da arca da diversidade do país. Tribunais são o novo território onde será travada a disputa entre constitucionalistas e os que pregam o leninismo de direita. Mas o chamado soft power norte-americano, que sofreu grande desgaste com a tragédia do Iraque, dificilmente sai intacto deste momento. Cultura e valores são integrais ao exercício do poder sem usar força, como ensina Joseph Nye, o professor de Harvard que cunhou o termo soft power. 

Ninguém teria ouvido falar em Suha Abushamma, médica residente da prestigiada Clínica de Cleveland, para onde correm líderes estrangeiros enfartados. Agora, a Dra. Abushamma é uma peça de propaganda anti-americana. Ela teve o infortúnio de desembarcar no país sábado e foi despachada de volta para a Arábia Saudita, onde se formou, sete minutos antes da decisão da juíza federal do Brooklyn que sustou as deportações. A médica é portadora de um passaporte do Sudão, país incluído no banimento. Se tivesse um passaporte da Arábia Saudita, país de origem de 15 dos 19 dos autores do atentado do 11 de setembro, estaria hoje de jaleco branco em Cleveland.

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