Lembrando Cony

Nem sempre vale a pena conhecer o autor de livros que apreciamos. Não era esse o caso de Cony

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2018 | 02h00

O Ventre me fez a cabeça, parecia estar anunciando aquele camarada, no dia em que chegou ao colégio com o romance de um tal de Carlos Heitor Cony. O ano? Ali por 1960, 61. Nenhum de nós tinha ouvido falar do autor, mas só o título do livro já nos pôs em polvorosa, não exatamente literária.

Farejamos lubricidade impressa, algo então bem difícil de encontrar; estávamos numa altura da história e da vida em que as leituras eram estritamente vigiadas pelos pais e pela Santa Madre Igreja, sob pena de suspensão de saída e de se tornarem pretas nossas almas. Não espanta que toda a roda, instantaneamente ouriçada, tenha se candidatado a ler O Ventre, que o privilegiado possuidor consentiu em emprestar, com a condição de que fosse devolvido sem tardança nem nódoas.

Como fosse enorme a fila dos pretendentes, e curta a mesada para o maço diário de Luiz XV, foi por outro livro, A Verdade de Cada Dia, que fiz a minha entrada na prosa de Cony. Escrito em 9 dias, o romance, magrinho, não me tomou mais que duas horas de leitura, e até por isso não deixou em mim qualquer lembrança. Em pouca gente terá deixado, aliás. O próprio autor parece ter deletado o romance, que sumiu das livrarias depois de uma ou duas reedições.

Já de O Ventre, lido em seguida, foi forte e duradoura a impressão que me ficou. Muito mais do que lubricidade, afinal rala, experimentei ali o choque de uma literatura desabusada, de maus modos, novidade para quem até então só conferia status literário a prosas que, no fundo e na forma, fossem bem-comportadas.

Fisgado, não perdi um só dos romances que Carlos Heitor Cony ia mandando para as livrarias. Tijolo de Segurança, Informação ao Crucificado, Matéria de Memória. Da Informação, diário de um seminarista que perde a fé, me lembro, entre outras, da passagem em que um religioso com a batina molhada é descrito como um guarda-chuva fechado.

Já com fumaças literárias, devorei também Antes, o Verão, para depois me dar conta de que um canhestro conto meu, escrito aos 19 anos e premiado num concurso, denunciava a leitura do sexto romance de Cony.

Gostava também de suas crônicas, publicadas no Correio da Manhã e em 1963 selecionadas para Da Arte de Falar Mal, a que ainda hoje gosto de voltar - bem menos biodegradáveis que as de O Ato e o Fato, escritas a partir dos primeiros momentos do golpe de 64. Desassombradas, não raro desaforadas, as crônicas políticas de Carlos Heitor Cony não pouparam milicos do mais alto coturno, como o próprio ministro da Guerra, Costa e Silva, que o processou. Além de encrenca, o cronista ganhou notoriedade nacional. Lembro-me da recepção de herói que estudantes de BH armaram para ele em 1965.

Pessoalmente, fui conhecer Cony em 1976, em Estocolmo, na cobertura do casamento do rei Carlos Gustavo XVI com a teuto-brasileira Silvia Sommerlath, ele pela revista Manchete, eu pelo Jornal da Tarde. Descobri no colega veterano uma irreverência pouco encontradiça entre senhores já cinquentenários. Fazia três anos que ele, ao publicar um livro chocante até para seus padrões, o romance Pilatos - história de um homem que vaga pelo Rio de Janeiro com um frasco de formol em que boia seu pênis decepado -, decidira pendurar suas chuteiras literárias. Ao olhos de muitos, entre os quais por um tempo me incluí, Cony passara a ser um traidor não só da literatura como da causa do combate à ditadura, para acomodar-se no jornalismo insosso da Manchete e demais publicações da Bloch.

Voltaria com fragor à cena literária em 1995, ao publicar Quase Memória, “quase romance” inspirado em seu pai. Foi talvez o livro de Carlos Heitor Cony mais bem recebido pela crítica e pelo público. Ainda era best-seller quando, em janeiro de 1996, o autor foi entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura. Na bancada dos entrevistadores, perguntei a ele o que levara um autor conhecido pela contundência a escrever um livro doce como Quase Memória. Cony não escondeu o desconforto que o adjetivo açucarado lhe causou. No final do programa, veio a mim e disse, veemente, que de doce sua prosa nada tinha. Como argumento adicional, enviou-me um exemplar de Pilatos, que ele, até o fim da vida, dizia ser o seu melhor romance.

Voltamos a nos encontrar meses mais tarde, no Rio, para uma entrevista na Playboy. Deliciosa conversa, uma vez mais, primeiro no prédio já aflitivamente deserto da agonizante Bloch, na praia do Russell, depois em seu apartamento, na Lagoa.

Entre muitas lembranças, ficou a de um telefonema que por um momento interrompeu a entrevista. Pelas breves intervenções de Cony, com a fala mascada de quem não disse palavra até os 4 anos, e que, curado da mudez, só na adolescência deu cabo de uma gagueira, foi possível perceber que ele estava recebendo uma notícia - na verdade, uma esplêndida notícia: por Quase Memória, acabara de ganhar um prêmio cujo valor equivalia a quase 50.000 dólares.

Foi o que ele me contou, sem um traço de júbilo, para em seguida retomar o papo: “Onde a gente estava?”. Ao escrever o texto introdutório da entrevista, fechei com essa historinha - e acrescentei que nunca tinha visto alguém ganhar quase 50.000 dólares sem comemorar. Cony achou graça na observação, e a ela voltava sempre que me via, antes mesmo de apertar a mão. “Você me deu sorte”, ria ele, “você me deu sorte!”.

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