Leia, na íntegra, o texto de Carlos Reichenbach

Sai coleção que reúne os oito longas de ficção dirigidos pelo italiano Zurlini

Agencia Estado

07 Junho 2012 | 03h37

Acaba de sair coleção que reúne os oito longas de ficção dirigidos pelo cineasta italiano Valério Zurlini entre 1955 e 1976. Leia a versão integral do texto de Carlos Reichenbach sobre o lançamento. Um cinema que aspira à síntese A obra de Zurlini foi avaliada de maneiras mais díspares. Definido como "poeta da melancolia", "sumista da esperança e dos sentimentos" ou enxergado como herdeiro maior da tradição dos "cineastas da paisagem". Todos os epítetos se justificam, especialmente o que se refere ao uso do cenário como elemento integrante da obra, nunca como um ponto de partida puramente estético. A paisagem para Zurlini deve sempre refletir a natureza do drama e a psicologia dos personagens. Os cenários, mesmo aqueles que se assemelham a transparências ou que se estendem à distancia dos protagonistas, surgem sempre "à frente" dos personagens e precisam representar "estados da alma". Mas não é só às artes plásticas que aspira o cinema de Valério Zurlini. Cinema e literatura Em seu romance-testamento inconcluso, L´estate Indiana (cujo terceiro tomo serviu de inspiração para o roteiro de A Primeira Noite da Tranqüilidade), Valério Zurlini recorda sua experiência no Corpo Italiano da Liberação, que marcou a ruptura definitiva com o projeto de vida burguês imaginado pelo pai e a severa educação nos colégios católicos. Durante este período ele mergulhou fundo nos livros que não conhecia: o Manifesto de Marx e Engels, O Capital, a História da Inglaterra, de Chesterton, O Outono da Idade Média, de Uizinga, de Faux-Monnayeurs, de Andre Gide, mas também, sobretudo e de maneira caótica em Flaubert, Zuccoli, Mann, a Estética de Croce, Descartes, Edgar Wallace, Stendhal, Dumas, Santo Agostinho, Manzoni, Pittigrilli, Pascal, as aventuras de Arsene Lupin, Phantomas, Alessandro de Stefani e Leon Tolstoi, sua maior influência. Como ele bem explica em seu livro, foram nos livros que conseguiu emprestado das sacolas de seus companheiros, das casas de paisanos e das bibliotecas das pequenas vilas que Zurlini empreendeu uma "ruptura metodológica" com as referências culturais do pai, em especial Chateaubriand. De sua amizade pessoal com o escritor Vasco Pratolini, de quem adaptou para o cinema Le Ragazze di San Frediano e Cronaca Familiare, às próprias experiências literárias (Il Tempo de Morandi, Uma Sera Romana con Balthus. Gli Anni delle Immagini Perdute, ao já referido L´estate Indiana), se insere na tradição de Manzoni, Fitzgerald e Brancati e reivindica ao artesanato do roteiro a dignidade literária. Embora atribuísse uma autonomia fílmico ao texto literário, Zurlini se impunha o valor correspondente. A respeito de seus roteiros originais, como State Violenta, por exemplo, Zurlini invocava os preceitos de Tolstoi: "Uma história particular é enriquecida enorme e necessariamente, quando tem como pano de fundo um grande acontecimento histórico.". Não são poucos os críticos italianos que apontam Zurlini como um dos raros cineastas que conseguem traduzir em cinema a sua paixão pela literatura. Cinema e pintura Um dos aspectos mais marcantes da obra de Zurlini é a sua assumida influência pictórica. Zurlini investia tudo que ganhava em cinema nos quadros dos pintores italianos que admirava: Giorgio Morandi (1890 - 1964), Carlo Carrá (1881 - 1966), Ottoni Rosai (1895 - 1957), entre outros. Seu fascínio por Rosai, cujas paisagens influenciaram os matizes e as perspectivas de Cronaca Familiare (Dois Destinos), não deixa de ter algo de contraditório; o pintor, magnificamente biografado por seu amigo Piero Santi em Retrato di Rosai, havia sido um convicto "esquadrista" do fascismo. Homossexual e pedófilo, Rosai só não foi deportado pelo passado fascista. Mesmo assim, chegou a ser execrado tanto pela esquerda quanto pela direita, por causa de seus famosos nus masculinos, cujos modelos eram buscados entre os jovens proletários na estrada de Florença. Mas para Zurlini importavam as cores de Florença captadas por Rosai; assim como os tons marítimos de Carrá presentes em A Primeira da Tranqüilidade. Mas foi em Morandi, e nas paisagens enxergadas "como estados da alma", que o cineasta mais se aproximou de Yasujiro Ozu graças aos constantes "planos de respiro" que pontuam seus filmes. Cinema e música Pode-se discorrer longamente a respeito da cumplicidade artística entre Zurlini e o grande compositor Mario Nascimbene, mas é na utilização pontual de canções e melodias populares e mesmo de peças clássicas que a poesia melancólica de seus filmes é refinada. É comum nos filmes do diretor o comportamento dos personagens ser revelado ou definido através do singelo gesto da dança. São momentos de encantamento onde Zurlini se permite o devaneio e a ruptura narrativa; um "vôo livre", alçado plenamente graças à intervenção da música familiarizada. Alguns dos filmes são lembrados de imediato exatamente por conta deste "divagação". Estate Violenta vem à memória quando lembramos do casal envolto ao som de Temptation, de Nacio Herb Brown e Arthur Freed. As cenas inicias de La Prima notte di quiete, além do visual marítimo de Rimini, cujos matizes foram "emprestados" de Carrá, foram eternizadas pelo agônico solo de trompa de Maynard Ferguson para uma canção de Nascimbene. No mesmo filme, o maduro Daniele Dominici (Delon) se descobre perdidamente apaixonado pela jovem Vanina (Petrova) quando a vê dançando solitária em uma boite. Mas é em A Moça com a Valise que Zurlini alcança a perfeita simbiose entre erudito e popular, transformando a música em personagem integrante do enredo, especialmente nos excertos da canção Celeste Aida, da ópera Aida, de G. Verdi (na antológica cena da descida de Cardinale, de roupão, pelas escadarias da mansão Feinardi), e dos solos de trompete do "standard" Fausto Papetti (na magistral seqüência do terraço do hotel). A inserção de inúmeras canções populares dos anos 60 confere ao filme um proposital e contraditório efeito atemporal. A Parma provincial ganha contornos míticos peninsulares ao som de Peppino di Capri, Mina, Nico Fidenco. Gino Paoli, Adriano Celentano e, sobretudo, da canção Il Nostro Concerto, de/com Umberto Bindi. Autoria e assinatura Apesar de suas assumidas influencias literárias e pictóricas, os filmes de Valério Zurlini possuem características indeléveis: a) relações afetivas entre personagens de gerações diferentes; b) personagens como objeto de desejo e repulsão; c) estações de trem e plataformas marítimas como signos da ausência; d) o "pessimismo histórico" e agonia existencial; e) a angústia da religiosidade sublimada e a fé no inexorável; f) a transitoriedade dos protagonistas. Questionado a respeito de sua contraditória e assumida crença nas doutrinas cristã e marxista, Zurlini reafirmou a sua natureza tolstoiana: "Tolstoi foi um homem que tentou e sonhou escrever um evangelho sem milagres, resolver a questão da vinda de Cristo não como a volta de um messias, mas de um grande homem não necessariamente ligado à origem divina...". O cineasta definiu sua postura como similar a de Pasolini, mais explicitamente como um "evangélico-comunista". Como bem observou o crítico Ruy Gardnier, em seu texto no site CONTRACAMPO: " ... todos os problemas chegam a seu nível de irresolução, mas o grande diferencial de seu cinema é que essa psicologia é divina, é repleta de uma moralidade que parece emanar de Deus... O homem pode até estar abandonado, mas é preciso mesmo assim uma moral - seu cinema mostra quanto o existencialismo está próximo da religião.". Outra característica pessoalíssima dos filmes do diretor é obsessiva ausência de personagens descartáveis ou mesmo de figurantes nos planos gerais. Seu ex-assistente, o também diretor Florestano Vancini, revelou nos extras do DVD americano de "State Violenta", que toda a crucial seqüência do bombardeamento do trem, que levou onze dias para ser rodada, foi dirigida por ele, já que Zurlini ficava profundamente incomodado com muita gente na frente da câmera. Zurlini, assim como Ozu, gostava de deter sua atenção nos protagonistas e ter um controle absoluto sobre o cenário (influencia óbvia da pintura) e o enquadramento. Para filmar o bombardeamento a equipe usou quatro câmeras simultaneamente, o que deixava o diretor angustiado. Por ter sido inspirado em texto literário escrito de próprio punho, é possível afirmar que A Primeira Noite da Tranqüilidade é o mais pessoal dos filmes de Valério Zurlini. Assim como o protagonista Daniele Dominici, Zurlini foi um ser humano atormentado pela melancolia (o que lhe custou a pecha de "diretor difícil" para os alguns produtores italianos); lecionou direção cinematográfica, como professor-substituto no Centro Experimentale Di Cinematografía de Cinecittà, em Roma, tendo como aluno o futuro diretor Luis Sérgio Person; foi apaixonado por uma mulher mais jovem, a bela atriz Jacqueline Sassard (por sinal, muito parecida com a atriz Sonia Petrova, que personifica Vanina Abati) e não é difícil duvidar que fosse também um jogador compulsivo. A angústia foi seu grande manancial de criação. Não é exagero dizer que Zurlini foi o cineasta que melhor soube filmar os sentimentos mais triviais (nobres ou aviltantes) do homem moderno e cuja obra é uma perfeita simbiose do essencial do cinema da Península: a crise dos sentimentos e as dificuldades de comunicação da sociedade burguesa no cinema Antonioni, o rigor e o humanismo de Visconti, a angústia e o ascetismo cristão de Rosselini e a convicção marxista e a ênfase poética de Pasolini.

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