Lauryn Hill dá canseira, mas também delicia o público

Em noite coalhada de VIPs, como Ivete Sangalo e Lulu Santos, e dançando como uma pomba-gira, ela imprimiu um tom marcadamente reggae ao seu concerto

Agencia Estado

15 Junho 2007 | 14h19

Lauryn Hill é mala? Bem, é. Um pouquinho. É um animal musical? Bem, é. De fato, é uma fera, uma possuída. Foi o que se viu em sua estréia em São Paulo, no Tom Brasil Nações Unidas, anteontem à noite, para um público coalhado de VIPs: Ivete Sangalo, Lulu Santos, Andreas Kisser, Carol Castro, Luciana Melo, o ex-jogador Vladimir e seu filho Gabriel. Do hip-hop, tava todo mundo lá: Marcelo D2, Rappin’ Hood, Negra Li. Lauryn não tem hora para começar o show (entrou em cena com uma hora e meia de atraso), assim como também não tem hora para terminar. A música funciona para ela como funcionava para Tim Maia: uma canção termina quando ela quiser que termine. Uma improvisação tem sua própria dinâmica interna, e não vai cessar enquanto não tiver de cessar. Isso pode ser bom, dependendo do acerto, e pode ser terrível, quando começa a chatear. Ela se mexe como um Diabo da Tasmânia no palco. Um furacão em forma de mulher, exortando a uma revolução ruidosa, com o punho para o alto, ou dançando com a mão na cintura, como uma pomba-gira. Vestida com um raincoat, boné e toalha na mão para enxugar o suor, nunca estancou o ritmo. Foi agressiva e dura. Foi precisa e delicada. Como disse o poeta Mário Faustino, tanta violência, mas tanta ternura. Foi reflexiva e política, como quando cantou Zimbabwe, de Bob Marley, a capela ("Dividir e ordenar/Só pode nos despedaçar/No peito de cada homem bate um coração/Então, breve nós descobriremos/Quem é o revolucionário de verdade/E eu não quero que meu povo/Seja esfolado por mercenários"). No fim, os hits Sua banda é excepcional, começando pelas três vocalistas de apoio (reedição funky das Três Passarinhas de Marley) e pelo DJ, que brincava com efeitos de dub ao vivo, dobrando o contrabaixo e a voz da cantora. Uma notável big band de 13 músicos à qual, hoje em dia, a bandleader dá uma orientação notadamente reggae - cada vez mais reggae, embora Lauryn seja francamente do hip-hop. O repertório alternava canções dos Fugees (a banda que integrou antes da carreira-solo, ao lado de Wyclef Jean), como Zealots, outras da carreira-solo, como To Zion, e muitas músicas novas que soavam ainda estranhas à platéia, como Lose Myself. O timing de Lauryn é sempre o de desafiar os músicos à improvisação, em músicas como Doo Wop (That Thing), como se desse empenho dependesse o resultado final de seu concerto. O som estava muito alto, mais adequado para uma casa com o dobro do tamanho da Tom Brasil. Às vezes, agredia os ouvidos. Houve alguma microfonia, mas nada que Lauryn não tirasse de letra. Muita gente que foi só para ouvir Ready or Not ou Killing me Softly, os hits absolutos da carreira dela, tiveram de ter uma saúde de ferro para agüentar até o final. Ela não decepcionou ninguém, mas é muito mais interessante quando desafia todas as expectativas de que quando as preenche.

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