Bob Sousa/Divulgação
Bob Sousa/Divulgação

Laura Cardoso é homenageada em uma exposição em São Paulo

A atriz que faz uma vilã na novela 'Sol Nascente', tem mais de sete décadas de carreira, iniciada no rádio, no início dos anos 1940

Amilton Pinheiro, O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2017 | 04h00

Laura Cardoso, 89, sente-se radiante ao falar de sua personagem, dona Sinhá, a vilã da novela das seis, Sol Nascente, da Globo. “Ela é uma delícia de fazer. Eu estava sentindo muita falta dela, porque fiquei afastada por problemas de saúde. Quando voltei, foi com tudo. A novela realmente precisava do meu personagem”, revela a atriz, por telefone, com exclusividade ao Estado, com a segurança conquistada depois de mais de sete décadas de profissão.

As cortinas que se abriram em 1943, quando ela começou aos 15 anos, na rádio Cosmos (atual rádio América), na rua da Consolação, em São Paulo, estão presentes na entrada da Ocupação Laura Cardoso, dedicada à sua vida e carreira, que abre nesta quarta, 22, para convidados, no Itaú Cultural, na Avenida Paulista, e, a partir da amanhã para o público.

O espectador é convidado a entrar na Ocupação por meio de três portas com grandes cortinas vermelhas que levam aos espaços que se interligam como os cômodos de uma casa. Neles, está o material (fotos, textos, vídeos, trechos de filmes, depoimentos de colegas, discos, etc.) que vai contar um pouco de sua trajetória extraordinária. “Eu sempre acho que é demais para mim. Quando soube da exposição disse: ‘Aí meu Deus, não mereço’”, confessa, sem falsa modéstia. 

Laura – que nasceu no bairro da Bela Vista, filha de imigrantes portugueses –, ainda menina, gostava de subir em um caixote para recitar poesia para a avó. Em sua biografia Laura Cardoso: Contadora de História, de Julia Laks, lançada pela Coleção Aplauso da Imprensa Oficial de São Paulo, ela indaga se foi naquele momento que nasceu a sua vontade em ser atriz.

Foram muitos papéis marcantes em mais de sete décadas de profissão, desde radionovelas, teleteatro, apresentações em circo, até o momento em que foi trabalhar na pioneira Tupi, cumprindo uma importante passagem pelo teatro até chegar ao cinema. 

Um dos seus melhores trabalhos foi no filme Através da Janela, de Tata Amaral, em 2000, quando interpretou Selma, mãe que vivia uma relação dúbia com o filho único. Quando a diretora a convidou para o papel, Laura não ficou nenhum um pouco intimidada com a personagem que tinha uma relação quase incestuosa com o filho.

“É uma mãe que ama o filho de forma absoluta. Há um momento um pouco pesado, porque ela sente uma atração por ele. Isso é mostrado numa cena rápida, mas o espectador consegue identificar aquele sentimento. Ela ama tanto aquele filho, que acha tão lindo, tão bom, que tem uma atração”, explica.

Outra mulher marcante que interpretou foi Isaura, da novela Mulheres de Areia, remake que a Globo realizou em 1993. A personagem era mãe das gêmeas Ruth e Raquel, vividas pela atriz Glória Pires. “Eu sempre defendi Isaura, que parecia não gostar da filha boa, a Ruth, e só tinha atenção e carinho pela outra, Raquel, que era má. Ela amava as duas, mas queria ajudar desesperadamente aquela que mais necessitava dos seus cuidados. É o lado psicológico que toda mãe tem, de querer proteger o filho desajustado, sem rumo”, diz a atriz, mãe de duas filhas, duas netas e um bisneto.

O encenador Antunes Filho, que a dirigiu na peça Vereda da Salvação, de Jorge Andrade, em montagem de 1992, garante ter ficado impressionado com a capacidade de compreensão que Laura tinha da personagem Dolor. Foi ela, confessaria, que transformou aquele seu trabalho numa das coisas mais lindas que realizou. 

Laura jamais recusou fazer algum personagem, mas se lamenta de não ter feito uma homossexual, papel que foi parar nas mãos de Vida Alves. “O que me fascina é assumir outras personalidades”, disse em relação à profissão que escolheu.

OCUPAÇÃO LAURA CARDOSO

Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, 2168-1776. 3ª à 6ª, 9h/ 20h; sáb. e dom., 11h/ 20h. Grátis. Até 30/4. Abertura hoje para convidados

Três décadas 

de incentivos às artes

Entidade festeja a data com outras quatro 

homenagens a mulheres que ajudaram a moldar 

a cultura naciona

Ainda em 2017, o Itaú Cultural abrirá o seu espaço expositivo (Ocupação) a cinco mulheres que se dedicaram às artes e à cultural brasileira, começando com a da atriz Laura Cardoso. Depois virão, sem ordem cronológica, a psiquiatra Nise da Silveira, a escritora e ensaísta, Conceição Evaristo, a cantora e apresentadora Inezita Barroso e a crítica de arte Aracy Amaral. “São grandes mulheres que ajudaram a construir o repertório da cultura e da arte brasileira”, explica Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

A instituição completa nesta quinta, 23, três décadas de existência, incentivando a cultura por meio de renúncia fiscal e parte sem uso de incentivos. Segundo Saron, é certamente uma das empresas que mais investem sem recorrer a Lei Rouanet. “No ano passado, investimos 200 milhões de reais, dos quais 100 milhões não foram incentivados”, revela.

Para comemorar os 30 anos da instituição, será realizada uma série de atividades que vai pontuar o sentido de perenidade do legado do Itaú Cultural, explica Saron. “Vamos lançar um livro contando o que fizemos nestes anos e o lançamento do novo edital Rumos, que sairá em setembro e que queremos que atinja outras regiões, fora do eixo Rio-São Paulo, ampliação das nossas parcerias.” / A.P.

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