Kodama critica Bioy e escritores protestam

A relação entre Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, que cultivaram uma amizade e inusual sociedade literária, desperta paixões na Argentina, onde quase um quarto de século depois da morte do criador de O Aleph continua a polêmica sobre o que este realmente pensava do seu colega. Os desencontros entre María Kodama, viúva de Borges (1899 -1996), e os defensores de Bioy Casares (1914-1999) chegaram a tal ponto que, na quarta-feira, uma centena de escritores indignados realizou em Buenos Aires um "ato de desagravo" à figura e obra do autor de A Invenção de Morel.

NATALIA KIDD , BUENOS AIRES / EFE, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2012 | 03h13

O estopim foi Kodama ter dito ao La Nación que seu marido considerava Bioy Casares "um covarde". Ela também o chamou de "dejeto humano" e "Salieri de Borges", em alusão ao compositor Antonio Salieri, que, graças ao escritor russo Alexander Pushkin, se tornou, no imaginário popular, o malévolo rival de Mozart. Além disso, bradou contra o livro Borges, que reúne apontamentos dos diários pessoais de Bioy e que foi publicado em 2006, um anedotário que considera "traição" à amizade com Borges.

"Nosso objetivo não é atacar Kodama, mas defender um escritor consagrado", disse Nélida Pessagno, vice-presidente da Sociedade Argentina de Escritores. Para ela, Kodama não "faz parte do mundo literário", "só tem a vantagem de ter sido por dois meses a mulher de Borges" e "se apropriou da memória de um autor que, na realidade, pertence ao acervo cultural da humanidade".

O livro póstumo de memórias sobre Borges escrito por Bioy reúne "diferenças e discussões" entre eles e serve como "registro íntimo" de um vínculo de quase meio século. Dois dos melhores escritores argentinos, eles se conheceram em 1932 e escreveram juntos várias obras com os pseudônimos Honorio Bustos Domecq e Benito Suárez Lynch, entre 1942 e 1977.

"Boa parte da obra de Borges foi feita pelos dois. Borges até o chamou, dois dias antes de morrer, para se despedir", afirmou no ato de desagravo o escritor Roberto Alifano. Secretário de Borges de 1974 a 1985, recordou que o criador de Ficções dizia que Bioy Casares era um "maestro".

"Havia amizade, mas também uma relação literária forte e concepções literárias semelhantes", informou Susana Cella, investigadora do Instituto de Literatura Hispanoamericana da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires. Ela destacou que entre Bioy e Borges houve "coincidência quanto a concepções literárias, gosto pela literatura fantástica e por certos autores", mas isso não impediu que cada um tivesse "estilo e identidade diferentes".

Segundo a especialista, além da polêmica causada por Kodama, esta relação pessoal e literária desperta tanto interesse porque Borges e Bioy "alcançaram a dimensão de clássicos". "E um clássico pode dialogar com distintas épocas e gerações", conclui a investigadora. / TRADUÇÃO DE MÔNICA REOLOM

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