Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Kika, ex-mulher de Raul Seixas, adverte biógrafo do cantor

Jornalista do 'Estado' que prepara biografia há 5 anos recebe telegrama: se publicar, Justiça entra em ação!

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

20 Setembro 2009 | 04h00

Falando a uma plateia na Bienal do Livro do Rio, há uma semana, o escritor Ruy Castro afirmou que, no Brasil, "o biografado ideal tem que ser órfão, solteirão, filho único, estéril e brocha". A piada do autor não é só uma jogada de efeito para impressionar caçadores de autógrafos: Ruy Castro comeu o pão que o diabo amassou para ver publicado o best-seller Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha, encurralado na Justiça pelas filhas do jogador.

 

Mas o fogo cerrado contra as biografias intensificou-se após 2007, quando foi ordenada pela Justiça o recolhimento de Roberto Carlos em Detalhes, inventário da vida do cantor capixaba pelo autor baiano Paulo César Araújo. Esta semana, mais um caso vem somar-se à lista de biografias ameaçadas de extinção: Kika Seixas, quarta das cinco ex-mulheres de Raul Seixas, enviou duro telegrama ao jornalista Edmundo Oliveira Leite Júnior, que escreve há cinco anos um livro sobre a vida do "maluco beleza" do rock nacional.

 

"Caso o senhor insista na realização irregular de tal biografia, serão tomadas as medidas judiciais cabíveis", adverte o telegrama. A mensagem explícita foi o ponto culminante de uma série de pequenas advertências de Kika Seixas ao biógrafo. No dia 26, Kika deu entrevista a uma coluna social de um jornal carioca alertando que, no Brasil, escrever biografias sem autorização seria "suicídio".

 

"Estranhei porque mantenho contato com ela desde 2004, sendo uma das primeiras pessoas que procurei para comunicar o projeto do livro", diz o biógrafo. Edmundo Leite questiona a legitimidade da condição de Kika Seixas como mantenedora do patrimônio de Raul Seixas. Kika é mãe da terceira e última filha do artista, que morreu sozinho num apartamento na Rua Frei Caneca em São Paulo, cerca de um ano após se separar de sua última esposa: Lena Coutinho.

 

"Fiz duas longas entrevistas com Kika, que deu informações fundamentais e não se negou a responder sobre qualquer assunto, além de fazer uma declaração pública sobre o fato de que ainda falta uma biografia de qualidade do ex-marido", ponderou o autor.

 

Contatada pela reportagem, Kika Seixas designou a filha, Vivian, para explicar a ação contra Edmundo Leite. "Fui eu quem notificou o Edmundo Leite porque durante as quatro horas de entrevista que ele fez na casa da minha mãe, Kika, ele só perguntou sobre drogas e foi assim com outras pessoas que ele entrevistou", afirmou Vivian, por e-mail, que disse sua atitude não é de censura, mas de foro íntimo - e também disse que a primeira filha de Raul, Simone, concorda consigo. "Há 28 anos que só ouço falar que meu pai era drogado, toxicômano e alcoólatra e isto cria um enorme constrangimento para mim que moro no Brasil e tenho que conviver com todos os tipos de insinuações e preconceitos".

 

A novidade no affair Kika Seixas é que, nesse caso específico, a censura às biografias está começando agora antes mesmo de sua realização efetiva, ou de sua publicação. Edmundo Leite Jr., que trabalha como editor assistente no portal estadao.com.br, está perplexo. Ele diz que, quando procurou Kika e Vivian Seixas, tinha em mente tornar sua pesquisa mais ampla e transparente possível. "Mas eu não as procurei para pedir autorização, e sim por respeito. E também porque são fonte importante".

 

No debate na Bienal do Rio, Ruy Castro mostrou que vê com ironia a situação atual do biógrafo. "É muito melhor biografar morto do que vivo. Porque o biografado vivo vai mentir para você, e ainda vai atrás de outras pessoas para fazerem elas mentirem para você também. Os mortos não mentem, você só tem que lidar com os herdeiros dele."

 

De fato, embasada por decisões judiciais, a censura parece estar se reinstalando no cotidiano da vida cultural brasileira. Especialmente no ramo das biografias, que está se tornando insalubre para os escritores. Paulo César Araújo, o autor da biografia proibida Roberto Carlos em Detalhes (Editora Planeta) considera que o precedente aberto pela Justiça em seu caso complica a vida dos biógrafos no Brasil.

 

"A Constituição brasileira garante o direito à liberdade de expressão, e meu livro é um fato histórico. A obra de Roberto é pessoal, biográfica. Todas as suas canções se referem a fatos de sua vida. É impossível falar de sua obra sem falar de sua vida pessoal", disse. Quando o livro foi recolhido, em maio de 2007, Paulo César advertiu: "Eu vou atravessar o resto dos meus dias falando sobre a obra de Roberto Carlos." É exatamente o que ele faz. Já debateu o livro até no Exterior, e os fatos que narra viraram referência e são frequentemente citados.

Edmundo Leite ressalta que sua proposta sempre foi fazer uma biografia de Raul Seixas imparcial, de qualidade. Desde 2004, já entrevistou mais de 100 pessoas, algumas nunca ouvidas, como as duas primeiras mulheres do cantor (Edith e Gloria), ambas americanas e que vivem nos Estados Unidos. Também falou com as três ex-mulheres brasileiras (Tânia, Kika e Lena)

 

Também entrevistou, nos Estados Unidos, Suíça, Argentina e Alemanha, gente como o maestro Miguel Cidras, arranjador da maior parte das músicas de Raul, e amigos de diversas fases de seus 44 anos de vida (produtores, empresários, executivos de gravadoras, parentes, ex-namoradas, empregados, desafetos, artistas). "Ano passado passei três dias em Genebra com o Paulo Coelho, que além de me dar entrevistas permitiu acesso ao seu arquivo particular.

 

"Desde o início não foram poucos os que me perguntavam ‘É autorizada?’, ao que eu respondia: não é autorizada e tampouco não autorizada. É independente", afirma. "E creio que essa independência, o fato de não estar diretamente ligado a ninguém que conviveu com Raul Seixas, é fundamental para a qualidade desse livro. Não me agradaria nem um pouco que o meu livro fosse chamado de ‘biografia não autorizada’, termo que ganhou contornos marqueteiros e que infelizmente está na cabeça das pessoas. Mas também não me agradaria se fosse uma biografia autorizada. Como disse, é independente."

 

Mesmo com a ameaça, Edmundo diz que não pretende parar o trabalho e vai lutar para lançar o livro no próximo ano, quando Raul completaria 65 anos. "Além da convicção, respaldada pela Constituição, de que não preciso de autorização para escrever sobre uma personalidade pública, espero que o livro faça valer as palavras do próprio Raul: ‘Todo homem tem direito de pensar o que ele quiser, de escrever o que quiser. De desenhar, de pintar, de cantar, de compor o que quiser...’"

 

Projeto de lei muda código civil para contornar situação

 

O deputado federal Antonio Palocci Filho apresentou, no ano passado, um projeto de lei para modificar o artigo 20 do Código Civil, que embasa as decisões recentes de censura a livros. O texto do projeto estabelece em parágrafo único que "é livre a divulgação da imagem e de informações biográficas sobre pessoas de notoriedade pública ou cuja trajetória pessoal ou profissional tenha dimensão pública (...)". Ao Estado, o deputado disse ontem que o projeto foi fruto de um debate no blog Observatório do Livro e da Leitura. "A grande preocupação é com o risco que o gênero e a sociedade correm de ver histórias fundamentais simplesmente se perderem", disse. Segundo Palocci, o projeto tem parecer favorável do relator e tramita em regime conclusivo. Ou seja, não precisará ir a plenário. "Se aprovado, irá ao Senado e, sendo aprovado lá na Comissão similar, segue imediatamente para a sanção do presidente. Há boas chances de ser aprovado nas duas casas, em prazo razoável."

Outros censurados

Estrela Solitária: Em 1996, o livro Garrincha, de Ruy Castro (Companhia das Letras), é recolhido das livrarias por ordem judicial, após ação movida pelas filhas do ex-jogador, que diziam defender a "integridade moral" do pai (mas pediam indenização).

Na Toca dos Leões: Em outubro de 2005, o Tribunal de Justiça de Goiás cassou liminar que impedia venda do livro Na Toca dos Leões, de Fernando Morais. O livro fora apreendido por ordem do juiz Jeová Sardinha, da 7.ª Vara Cível de Goiânia.

Sinfonia: Em 2008, a filha de Guimarães Rosa, Vilma, conseguiu na 24.ª Vara Civel do Rio o recolhimento de Sinfonia Minas Gerais: a Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa (LGE, 2008), de Alaor Barbosa, alegando "plágio, lesão de direitos" e falta de autorização.

Vinil: André Midani, autor de Música, Ídolos e Poder - Do Vinil ao Download (Nova Fronteira), sua autobiografia, foi notificado pela família do nonagenário Enrique Lebendiger, ex-dono da RGE. Midani o descreve, no livro, como "figura exótica que não tinha capacidade nem seriedade profissional" para acompanhar Chico Buarque.

Em Detalhes: O caso mais rumoroso de censura recente foi o do livro Roberto Carlos em Detalhes (Planeta, 2006), de Paulo César Araújo - Roberto viu invasão de privacidade no livro.

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