Jussara acha o céu no chão

Montar repertório é missão a que poucos intérpretes brasileiros se dedicam com tanta precisão quanto Jussara Silveira. Em seu novo CD, Ame Ou Se Mande (Joia Moderna), ela confirma que é nesse âmbito que se dá seu trabalho de compositora, além de cantar com uma delicadeza celestial.

O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2011 | 03h07

No centro da questão está a pessoa, em conflito com o mundo real, buscando entendimento na contemplação do cosmo. Há até um poema de Fernando Pessoa (Tenho Dó das Estrelas) musicado por Zé Miguel Wisnik. De Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown Jussara canta divinamente Contato Imediato, ligada a Marcianita, dos primórdios do rock. Madre Deus (Caetano Veloso) também tem uma "conversa com o céu": "Frente ao infindo/ Costas contra o planeta".

O Dia Que Passou (Luís Ariston/Toni Costa) cita Here Comes the Sun (George Harrison) e, em Babylon, Zeca Baleiro diz que "o céu é aqui". É assim que Jussara sai do chão e volta para se ver por dentro, localizada nessas canções de amor cósmico e lugares abstratos. Começa por A Voz do Coração (Celso Fonseca/Ronaldo Bastos) e encerra a jornada com Dê Um Rolê (Moraes Moreira/Galvão), afirmando que é "amor da cabeça aos pés" e "que a vida é boa".

"A ideia do CD surgiu com o tema pessoa, onde se localiza a pessoa nos tempos de hoje, em que a comunicação muito instantânea, o capitalismo e o consumo tomaram conta", diz a cantora. O poeta Pessoa está aí não pelo sobrenome, mas porque "ele também fala disso, da pessoa de corpo e alma".

Nessa falta de ponto de apoio, dos "sem-lugar", "a pessoa se localiza na escolha do que quer se seja, de amar, de ficar ou de se mandar, ou de querer mesmo o consumo (como Zeca fala em Babylon), ou de buscar o amor para além da Terra". Para ela é algo muito simples pensar sobre isso, sem pretensões filosóficas. "Apesar dessa conversa com o infinito, com a possibilidade de eternidade, o que quero dizer é que a vida é aqui e agora."

A versão de Ariston para Love Me or Leave Me (Walter Donaldson/Gus Kahn), que dá título ao álbum, não foi liberada por questões autorais, mas está no show, em que Jussara canta acompanhada por Marcelo Costa (percussão) e Sacha Amback (teclados), que produziram o CD no mesmo formato. O encontro do trio deu tão certo que eles foram convidados a gravar outro álbum, só de canções angolanas, previsto para sair em 2012. / L.L.G.

Milton Hatoum. Excepcionalmente, não publicamos sua coluna

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