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Jogo secreto

Alguém já disse que “rúgbi” é o futebol americano pra homem. Os dois são esportes violentos, mas os jogadores de “rúgbi” não usam nenhum tipo de proteção, enquanto os do “football” se protegem dos capacetes de astronauta aos pés. A piada é um pouco injusta. Apesar da proteção, jogadores de futebol americano se machucam com mais frequência do que os de “rúgbi”, e são tantas as consequências dos choques constantes durante uma partida, e as sequelas neurológicas que perseguem ex-jogadores, que já se cogitou até de proibir o esporte.

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Luis Fernando Verissimo

11 Fevereiro 2016 | 02h00

O “Super Bowl” do último domingo foi um jogo feio, truncado, que ainda teve que competir, como espetáculo, com o show do intervalo e as coxas da Beyonce. Mas foi uma boa amostra da violência do esporte, tanto que sua melhor figura foi o defensor dos “Broncos” que conseguir chegar mais vezes ao “quarterback” dos “Panthers” e, literalmente, o patolar. O “quarterback” é quem determina, por sua conta ou obedecendo a instruções do técnico, que tipo de jogada será tentada, se ele fará um passe ou dará a bola para um subalterno carregar através das linhas inimigas. É o intelectual do time e, como qualquer intelectual, precisa de tempo e tranquilidade para pensar no que fazer. Os armários alinhados na sua frente estão ali para lhe garantir o tempo e a tranquilidade, que no domingo, para o “quarterback” dos “Panthers”, nunca vieram.

Os armários encarregados de proteger o “quarterback” e fazer o trabalho pesado do time são, geralmente, afrodescendentes. Até há pouco tempo, nenhum “quarterback” num time de futebol americano era afrodescendente. Era uma tradição nunca claramente explicitada, mistura de estereotipagem racial e pura discriminação, consciente ou inconsciente. Hoje, ainda é raro ver-se um negro na posição. E uma dessas raridades é Can Newton, não apenas o “quarterback” dos “Panthers”, mas a sua principal estrela, com comportamento de estrela. No Super Bowl de domingo aconteceu outro jogo, secreto, implícito. De um lado Peyton Manning, um “quarterback” branco clássico, em fim de carreira. No outro o brilhante Can Newton, negro, segundo muitos um modelo para um novo tipo de “quarterback”. A tradição conta os novos tempos. Ganhou a tradição.

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