Gordon Welters|New York Times
Gordon Welters|New York Times

Jean-Paul Gaultier elaborou figurinos do espetáculo 'The One', em Berlim

Estilista sonhava criar para o teatro de revista

Charly Wilder, New York Times

06 Outubro 2016 | 20h55

BERLIM - “Quem é o responsável pelas penas?”, gritou Jean-Paul Gaultier, em um dia de julho, enquanto pelo menos 20 pessoas corriam à sua volta no ateliê do teatro Friedrichstadt-Palast. O estilista se postou atrás da dançarina que usava um macacão com tatuagens falsas sob o biquíni bordado com strass, no qual se destacava a prótese de um barrigão de grávida enfeitado de penas multicoloridas.

Assim que a questão foi resolvida, outra dançarina entrou usando apenas sapato de salto alto preto e um macaquinho justíssimo, que lhe deixava com uma silhueta kardashiana. Usava uma prótese de cabeça com cabelo longo, bem negro e tinha no rosto uma expressão que mais parecia a de uma boneca inflável ou vítima do excesso de Botox

As roupas estão entre as mais de 500 fantasias que Gaultier criou para The One, um espetáculo no estilo de Las Vegas com música, dança, efeitos especiais e acrobacias que acaba de estrear no teatro de 97 anos que fica no bairro do Mitte.

Desde que apresentou a primeira coleção, em 1976, o estilista, hoje com 64 anos, se tornou uma das figuras mais influentes e celebradas do mundo da moda, sempre ignorando seus limites. Criou para o cinema, o teatro, a passarela e o varejo; apresentou um programa de TV de sucesso; lançou um álbum dance e perfumes e ajudou a moldar a identidade visual de muitas estrelas do pop – entre elas, destaque para Madonna, para quem criou os famosos sutiã e espartilho de cone usados na turnê Blond Ambition, de 1990.

Mas Gaultier disse que sempre sonhou em criar para o teatro de revista, ou pelo menos desde que assistiu a um show no Folies Bergère, na TV da avó, quando era garotinho. “Tinha aquela coisa de pena na cabeça, meia arrastão, muito cristal Swarovski, muito glitter. Vi aquilo e pensei: ‘Que incrível! Quero fazer alguma coisa assim!”, conta ele depois da sessão de provas no salão do Friedrichstadt-Palast.

Em novembro de 2014, pouco depois de anunciar que estava fechando o negócio de prêt-à-porter para se concentrar na alta-costura e em outros projetos, Gaultier acompanhou uma amiga de longa data, a rainha da disco francesa Amanda Lear, à estreia de The Wyld, espetáculo dirigido pelo colega francês Thierry Mugler.

Gaultier ficou entusiasmado com o show – as roupas, a coreografia, a pirotecnia. A seguir, procurou o diretor-geral do teatro, Berndt Schmidt, e perguntou se poderia criar as fantasias de uma produção futura.

The One mostra uma festa underground que desperta os fantasmas de um antigo teatro berlinense pelas visões extravagantes de um dos convidados. Gaultier achou a premissa ideal para explorar a própria visão estética e o show inclui muitas das marcas registradas que lhe garantiram o título de enfant terrible da moda, como as tatuagens, as pichações, a transformação corporal, a androginia, as roupas fetichistas e o punk.

Os homens usam mordaça e enfeites de cabeça com pena e pedraria; há mulheres siamesas com duas cabeças e três peitos e personagens baseados em ícones andróginos. “Sempre adorei o pessoal underground. Sou fascinado pela diferença, pela beleza alternativa”, admite.

A produção, que custou 11 milhões de euros (US$12,4 milhões), tem mais de cem artistas em um palco considerado o maior do mundo. Gaultier criou as centenas de fantasias de The One com o departamento de figurinos do Friedrichstadt-Palast. Juntos, produziram mais de 50 estampas de tecidos e usaram um verdadeiro arco-íris de tecidos e materiais, incluindo seda, couro, chiffon e quase 150 mil cristais Swarovski.

Para Gaultier, trabalhar em uma escala grandiosa liberta a imaginação. “O que faço na moda, faço aqui também. A diferença é que aqui posso ir um pouco mais além”, conclui.

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