Jazz pelo olhar do marxista

Livro sobre o gênero musical é estudo sério sobre períodos críticos dos EUA

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2012 | 03h11

Entediado e isolado quando sua família se instalou em Londres, afastando-se da escalada nazista em Berlim, Hobsbawm tinha 16 anos quando começou a frequentar uma biblioteca perto de sua escola. Entre leituras de poesia inglesa e do Manifesto Comunista, o historiador descobriu o jazz, antes de se filiar ao PC quando estudava no King's College, Cambridge, entre 1936 e 1939. Digamos, então, que sua primeira paixão foi o jazz, antes do marxismo. Por anos (de 1958 a 1965), ele assinou uma coluna de jazz na revista esquerdista New Statement, usando o pseudônimo Francis Newton em homenagem a um trompetista hoje esquecido, Frankie Newton (1906-1954). Também comunista como o historiador, Newton tocou nos últimos discos da cantora Bessie Smith (1894-1937). E foi com esse sobrenome que Hobsbawm assinou um de seus melhores livros, A História Social do Jazz (The Jazz Scene) em 1959, republicado depois com o nome verdadeiro do autor.

No Brasil, a última edição saiu em 2008 pela editora Paz e Terra com prefácio de Luis Fernando Verissimo, cronista do Caderno 2. Nele, Verissimo lembra que a mencionada Bessie Smith, cantora preferida de Hobsbawm, morreu porque lhe negaram socorro num hospital só para brancos (Edward Albee escreveu uma peça sobre a morte da cantora, assunto polêmico, pois há quem afirme que ela foi atendida). Seja como for, o tema por si já justificaria a abordagem política de Hobsbawm, ao falar de um gênero musical umbilicalmente associado ao sofrimento dos descendentes de povos africanos. Assim é que, para Hobsbawm, o blues "não é um estilo ou uma fase do jazz", mas seu núcleo - nem tanto por ter nascido dos spirituals, mas por estar associado a canções de protesto das comunidades escravas.

Hobsbawm concede imensa importância a esse processo embrionário do jazz. Em primeiro lugar, interessava a ele examinar o jazz a partir de um ponto de vista histórico, rastreando suas raízes sociais. O historiador foi pioneiro nessa abordagem, ao considerar a estrutura econômica que provocou o advento das big bands, a expansão do gênero durante a Depressão americana e a rebelião dos músicos do bebop nos anos 1950, época em que foi escrito o livro. Foi essa geração de rebeldes que levou à criação do free jazz, liberto das imposições comerciais de gravadoras e donos de clubes.

O jazz sempre foi interesse da minoria, reconhece Hobsbawm no livro. Nos anos 1950, época de seu lançamento, a prosperidade americana fez o mercado de discos crescer, transformando jovens em consumidores de um novo gênero, o rock. O jazz, ao contrário, não embalou a riqueza, mas a Depressão americana. Em tempos de fermentação política, observa o historiador, ele foi sempre o veículo adequado dos que protestam, não só por ser "mais democrático", como a expressão clara dos "destituídos de poder".

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