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Italo Moriconi fala da obra de Mario Quintana, reeditada sob sua coordenação

Produção do autor gaúcho foi marcada pela versatilidade e uso original de formas clássicas, diz

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo,

10 Agosto 2012 | 20h00

Sua obra era heterogênea mas marcada por uma precisa unidade; sua opção maior era pelo saudosismo, mas não abria mão da experimentação estética; e o humor, embora infantil, era demolidor - o poeta Mario Quintana (1906-1994) parecia envolto em contradições. Na verdade, trata-se de um jogo que, de tão bem articulado, transforma Quintana em um dos mais originais escritores brasileiros.

Depois de anos publicada pela editora Globo, sua obra volta agora às livrarias sob a chancela da Alfaguara e com a curadoria de Italo Moriconi. A primeira fornada traz três volumes - Canções, que inclui também A Rua dos Cataventos e Sapato Florido, além de dois títulos que consolidaram a popularidade de Quintana: Apontamentos de História Sobrenatural, obra considerada crucial em sua carreira, e A Vaca e o Hipogrifo, em que o poeta exerce a função de cronista.

Até o final do ano, sairão mais quatro títulos e, em 2014, será finalizada a reedição de 17 obras, incluindo duas antologias inéditas: Quintana Essencial, organizada por Moriconi, e Poemas Para Ler na Escola, com seleção de Regina Zilberman.

"A poesia de Quintana desempenha um papel eminentemente formativo no cânone literário brasileiro moderno", afirma Moriconi, na introdução da obra. "Esses são os poetas por quem primeiro nos apaixonamos, quando começamos a nos tornar membros da tribo de leitores aficionados de poesia literária."

Com uma poética renovadora e definitivamente marcada pelo humor jovem, Quintana nunca se incluiu em rótulos, ainda que seus versos tragam qualidades básicas do modernismo - além do humor, a brevidade e o coloquialismo. Sobre essa diversidade, Moriconi respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Mario Quintana usou soneto em seu livro de estreia, depois se valeu de elementos menos convencionais (como haicai) e, em seguida, desrespeitou essas e outras formas. Como avaliar sua poética, tão cheia de surpresas?

A poética de Quintana supõe o uso e o conhecimento de formas fixas, convencionais (como o soneto) ou importadas (como o haicai), mas seu sentido de ritmo é eminentemente modernista, ou seja, liberdade total dentro modelo básico do poema lírico curto ou médio (uma página ou menos).

A realidade normalmente é vista sob uma nostálgica ironia, com viés crítico. Como você avalia o humor em Quintana que, embora não agressivo, é demolidor?

O humor de Mario Quintana manifesta-se sobretudo na prosa dos aforismos e das crônicas. Quintana não chegou a praticar o poema piada ou anedota como seus predecessores modernistas dos anos 20. Nele, o poema flagra aspectos do cotidiano para expressar sentimentos e sabedorias. Sua crítica é muito mais uma crítica da vida do que crítica histórica. Nos poemas, Mario Quintana não se quer intelectual nem conceitual, muito pelo contrário. Já na prosa, descobrimos esse Quintana mais crítico e intelectualizado que você menciona. Todo humor tem algo de demolidor, mas eu não sei se consideraria "agressivo" um adjetivo adequado para caracterizar a persona ou a personagem Quintana.

Como você avalia a importância da oralidade na poesia de Quintana?

Ela é absolutamente fundamental e nisso Quintana já se insere na linguagem poética canônica do século 20 brasileiro.

Alguns críticos avaliaram como alienada a obra de Quintana em relação a eventos históricos da realidade brasileira. Como você observa isso?

Não sei o que dizer sobre isso. É um tema que não me interessa muito. A alienação, a loucura, a extravagância, podem ser excelentes elementos de poetização, de romantização, de dramatização. Quintana foi um poeta completamente do seu tempo, e isso basta. Ele teria escrito poemas ironizando o "politicamente correto", assim como escreveu poemas ironizando o "social".

Como você vê a aparente contradição na obra de Quintana que, se por um lado é nostálgica, saudosista, por outro é fruto de constante experimentação estética?

Eu enfatizaria a versatilidade, no lugar do que você chama de "constante experimentação estética". Quintana não inventa formas no domínio do verso, embora seja bastante inventivo no domínio da prosa. O que Quintana faz com mestria é combinar e explorar diferentes possibilidades do verso lírico modernista.

A opção por uma poesia intimista, individualista, se confundiria com um projeto de vida? Ou seria um consequência desse projeto?

Não resta dúvida. Toda a poesia de Mario Quintana, conforme ele próprio declara em vários poemas, é o solilóquio de um homem (poeta) sozinho, acossado pela hipersensibilidade perante sonhos, imagens, natureza, paisagem urbana, sentimentos humanos, enfim, tudo que constitui a matéria de seus poemas.

Em linhas gerais, como diferenciar Quintana de poetas mais próximos mas, ao mesmo tempo, distantes, como Bandeira e Cecília Meireles?

Considero que esses três (Bandeira, Cecília, Quintana) são os maiores líricos puros da poesia brasileira do século 20. Os três são poetas elegíacos, começam com obras atravessadas de melancolia e de certa "morbeza romântica" (como diria Waly Salomão). Cecília, além de lírica, produziu uma espécie de épico cético em Romanceiro da Inconfidência. Bandeira começou pós-romântico e se tornou modernista de vanguarda. Cecília sempre teve algo de classicizante no seu romantismo e naquilo que na poesia dela foi moderno (como o já mencionado Romanceiro). Bandeira quando virou modernista virou lírico realista, o que não deixa de ser uma maneira de ironia. Já Quintana foi modernista desde sempre, mesmo no seu primeiro livro, de sonetos. Essa obra, lançada em 1940, prenunciava a virada que a geração modernista faria rumo ao resgate do soneto. Mas a volta ao soneto no livro de estreia de Quintana não significava uma volta a poéticas convencionais, pois o seu conteúdo era eminentemente modernista: um lirismo querendo cantar o cotidiano.

 
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