Infalíveis, porém mortais

O caso mais controverso é o do papa Pio XII e sua ambígua negociação com o nazismo

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2018 | 03h30

Há coisas que passam rápido e outras geram tantos outros fatos que ficamos com a impressão de que ocorreram há mais tempo. Há exatos cinco anos, o papa Bento XVI anunciou que, no dia 28 de fevereiro de 2013, às 20h, o trono de São Pedro ficaria vacante. Fato raríssimo na bimilenar Igreja Católica, o papa renunciava ao título. Era 11 de fevereiro de 2013, dia de Nossa Senhora de Lourdes. Existe uma reprodução da gruta francesa nos jardins do Vaticano e o papa Bento XVI passava algum tempo diante dela. Teria segredado à Virgem seus planos? 

O papa bávaro estava com 85 anos na data da histórica abdicação. Ele é um ano mais novo do que outra chefe de Estado e Igreja, Elizabeth II. O texto do dia 11 de fevereiro de 2013 anunciava fadiga, idade, sobrecarga. Naturalmente, os conspiracionistas de plantão preencheram o vazio de informações com muitas versões. 

No ano de 2018, o papa emérito completará 91 anos, em um silêncio quase absoluto e invisível para a imprensa. Seu sucessor afastou ainda mais os holofotes do alemão. O carismático Francisco completou com ações e sorrisos a obra de sepultamento em vida do ex-cardeal Ratzinger. Dos três papas não italianos em séculos, Bento XVI teve o azar de estar espremido entre uma potência midiática polonesa e um argentino surpreendente. Não teve chance! Desapareceu nas brumas dos jardins do menor Estado do mundo.

Para os vendedores de lembranças religiosas perto da Basílica de São Pedro, Bento XVI sempre será o “papa que não vende”. As medalhas e terços com seu rosto acumulavam pó nas prateleiras. Teólogo de imensa erudição, Ratzinger teve menos apelo comercial do que o esperado. Na curiosa série The Young Pope (dir. Paolo Sorrentino, 2016), advertem ao jovem papa Pio XIII (Jude Law) que sua recusa em ser visto estaria danificando o lucro do comércio de objetos sacros. 

O papado vai muito bem no mundo contemporâneo. Há papas mais carismáticos como João XXIII, João Paulo II ou o atual Francisco. Há papas que encarnam mais a ideia da autoridade monumental do trono mais antigo do Ocidente, como Pio XII. Há aqueles, como João Paulo I, que nada fizeram, apenas sorriram, e sorridentes entraram na vida eterna rapidamente. Sobre nenhum pesa o tipo de escândalo moral-sexual que marcou a existência de Alexandre VI, Júlio II ou Leão X, todos do Renascimento. Do ponto de vista da qualidade humana e retidão de comportamento público, os papas dos últimos séculos são notáveis em uma lista longa. 

As mazelas políticas ficaram mais raras. Nada de uma Guarda Suíça dando a vida por um papa que corria de invasores, como no episódio de 1527 (saque de Roma durante o governo de Clemente VII). Nada de um papa quase prisioneiro de Napoleão, coroando à força o corso, como o beneditino Pio VII. Quando o papa Pio IX decidiu se declarar “prisioneiro do Vaticano” na Unificação Romana de 1870, era um gesto de pressão política. O novo Estado italiano nunca tocaria no papa por uma questão política óbvia. 

Há o caso mais controverso de Pio XII. Em meio ao maior conflito da história, o Vaticano tudo fez para sobreviver. Conseguiu, emergindo com o território e bens ilesos, mas arranhado em ambígua negociação com o nazismo. Há mais de meio século que a calmaria domina o cenário político pontifício e mais de 300 que grandes escândalos sexuais do papado deixaram as fofocas colocadas na boca do “pasquino”, a mais famosa das estátuas-falantes que recebiam denúncias anônimas nas suas bocas e deram origem ao nosso termo pasquim. Talvez hoje o “pasquino” fosse abastecido não pela vida do bispo de Roma, mas por escândalos acobertados sob o sólio pontifício. Parte disso respingou em Francisco na visita ao Chile. 

Difícil dizer se o papado ganhou esta paz por uma elevação moral ou porque perdeu importância. O Cristianismo é minoritário no mundo, mas ainda é a maior religião. Entre os pouco mais de dois bilhões de cristãos que existem hoje, mais da metade é formada de católicos. Nenhum outro líder religioso do nosso conturbado mundo tem tantos seguidores. Sem ter exércitos, as famosas divisões que o realista Stalin teria cobrado do papa como condição do seu poder efetivo, o papado tem inegável influência política e imenso lastro moral. 

Exemplo: a voz de Francisco a favor dos imigrantes é forte e, possivelmente, a mais firme no momento atual. Seu gesto inaugural na ilha de Lampedusa provocou um debate internacional importante. Stalin está morto, o Vaticano continua bem vivo com uma diplomacia experiente e influente.

Há pelo menos duas forças táticas distintas no momento dentro da Igreja que guerreiam pelo controle. Uma que entende que o futuro da nau de Pedro está na modernização, na busca de um crescente aggiornamento que faça o menor Estado do mundo continuar sendo uma referência. Chamaríamos de grupo A. Existe outra tendência oposta que deseja a volta da tradição, enfatizando que é ser diferente do mundo moderno que garante a originalidade e o poder da Santa Madre. Chamemos ao grupo mais antigo de grupo B.

Com João Paulo II e Bento XVI, o grupo B esteve no trono. Com Francisco, há uma tendência ao grupo A. A disputa por duas visões estratégicas está presente desde o encontro de Jerusalém, no qual Paulo tinha uma postura e Pedro e Tiago, outra. Como eram santos basilares e todos estão no Paraíso, entendemos que discordar não é pecado. 

O devir depende de muitas coisas, inclusive da força do único pulmão que Francisco possui. Enquanto o órgão ímpar do argentino continuar suas funções, a voz do grupo A será mais ouvida. Quanto tempo terá Francisco para sua obra? São segredos que talvez só a imagem de Nossa Senhora de Lourdes tenha ouvido. Se ela abrisse a boca... Bom domingo para todos nós. 

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