Ideias fora do lugar

‘Romeu e Julieta’ é um hino ao amor ou poderia ser lida como uma crítica à paixão?

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

16 Julho 2017 | 02h00

Um historiador pode cometer pecados veniais e mortais. Dos gravíssimos, um dos mais destacados é o anacronismo. O erro consiste em atribuir a um processo ou a um personagem históricos valores que são caros ao momento em que se escreve. Em outras palavras, forçar o presente no passado. 

Estamos imersos nos nossos valores e somos formados por eles. É claro que minhas indagações sobre o passado partem de questões e valores atuais. Questões de gênero, sobre trabalhadores, cotidiano, entre tantas outras, só passaram a ser investigadas como objetos históricos quando o presente assim o demandou. O esforço maior da pesquisa histórica, contudo, é a compreensão de outros pressupostos, das formas de existência distintas das nossas. O anacronismo faz com que eu projete meu universo no pretérito e busque algo que, no fundo, explica mais a mim e ao meu momento do que ao foco da minha busca.

Quando explicamos aos alunos um grande exemplo de anacronismo, costumamos evocar a obra do historiador inglês Edward Gibbon (1737-1794): A História do Declínio e Queda do Império Romano, editada em 6 volumes. O momento era muito específico: o primeiro tomo coincide com o momento da independência das 13 colônias (1776) e o último saiu às vésperas da Revolução Francesa. Acima de tudo, a elaboração do esforço monumental de Gibbon foi o momento da reestruturação do Império Britânico. Era mais ou menos óbvio que, tratando do governo de Roma, o inglês fizesse uma reflexão que serve muito para o gosto do século 18 e que continua até hoje: história como guia para a ação no presente. Vemos mais o Tâmisa do que o Tibre na pena do autor. 

O anacronismo é uma regra em pintura histórica. Ele anda de mãos dadas com outros conceitos e preconceitos, como representar Maria como uma mulher loira e de olhos azuis em plena Palestina romana. Na famosa Anunciação de Leonardo da Vinci, ela está à frente de um palácio toscano renascentista. A mesa diante da qual o mesmo Leonardo dispôs o afresco da Última Ceia era inexistente no mundo antigo como forma de refeição. Mesmo as representações de Jesus no Calvário, com frequência, mostram cruzes de marcenaria elaborada, com cravos na palma da mão e não nos pulsos como era o costume e, por fim, com um suporte para os pés, refinamento pouco usual para um suplício aplicado a escravos e pessoas sem cidadania romana. 

Somos homens contemporâneos lendo o passado. Gosto de citar o exemplo da peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Aparentemente é um hino ao amor, quando, na verdade, poderia ser lida como uma crítica à paixão. Romeu começa apaixonado por Rosalina, prima de Julieta. Ao encontrar Julieta, Romeu esquece por completo do antigo amor. O encontro foi domingo à noite, a promessa do balcão, na madrugada de segunda, o casamento e a única relação sexual deles ocorreu pouco após e, na quinta-feira, os dois estão mortos. O amor mais emblemático do Ocidente desenvolveu-se em 4 dias úteis e teve uma única noite de paixão. A mensagem da peça está clara e é transmitida nas falas do príncipe Éscalus: a ordem social e política é o valor maior (Shakespeare ama o poder centralizado e ordenador). Se Romeu e Julieta tivessem escutado os pais, estariam casados com quem deveriam e não cultuando uma paixão passageira que os arrastou, além de outros, à morte. Desmerecendo ainda mais a paixão, frei Lourenço diz que o amor dos jovens não está no coração, porém nos olhos. É uma crítica ao amor visual que marcou o encontro dos pombinhos. A peça é lida, a partir do fim do século 18, como o maior texto teatral sobre a beleza do amor. Talvez seja o mais poderoso ataque à ideia de paixão e seus desastres e um louvor à sabedoria dos conselhos familiares. Nossa leitura é romântica, com letra maiúscula e minúscula e, como tal, anacrônica. 

Ocorre o mesmo quando o público contemporâneo pensa no Édipo Rei, de Sófocles. Aristóteles a elogiava com densidade como a tragédia-símbolo. O problema é que a lemos após a apropriação freudiana do termo complexo de Édipo e após o surgimento da figura materna e do tabu do incesto. Assim, Édipo ter se casado com Jocasta é fundamental para nós, o filho tendo filhos com a mãe. Para os gregos, esse era um detalhe menor. A grande questão era a procura política de Édipo rei (em melhor tradução do grego, Édipo Tirano). É uma busca jurídica e política por poder, como a descreveu Michel de Foucault (livro A Verdade e as Formas Jurídicas). Para o francês, a questão está no tema inquérito e testemunho e nas possibilidades de o poder e de a verdade coexistirem. A leitura política é dominante no texto. Para nós, cresceu a mãe e diminuiu o Estado, e Édipo é mais incestuoso do que regicida. É um anacronismo. 

Talvez a grande construção histórica seja sempre o desafio de desfazer anacronismos. Tornar Espártaco (século 1.º a.C.) e sua rebelião uma luta de consciência contra a escravidão é um anacronismo quase absoluto. Buscar em Joana D’Arc uma luta feminista no século 15 é outro anacronismo. Considerar Tupac Amaru II como um precursor da independência do Peru com sua rebelião do século 18 é forçar os olhos em direção a raízes forçadas. Assim, vamos construindo relações dadas pelo futuro, como chamar o movimento russo de 1905 como Ensaio Geral (preparatório à Revolução de 1917). 

Quase nada escapa da tendência. O genial Sergei Eisenstein filma, em 1938, Alexander Nevsky. A história do príncipe do século 13 é vista como a luta de todas as eras da Rússia contra os alemães. A música de Prokofiev ajuda a construir um clima revolucionário mais bolchevique do que medieval. Claro que a liberdade artística, em casos assim, está acima do anacronismo. Em casos geniais como esse, o anacronismo é proposital para construir um exemplum.

Georges Duby analisou a batalha de Bouvines (O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214) como exemplo de um fato que vai sendo relido ao longo da história de acordo com a necessidade de cada momento. A vitória de Filipe Augusto sobre o Sacro Império foi sendo relida até virar resistência francesa contra as invasões germânicas. 

Objetividade é um ideal em história, nunca uma realidade absoluta. Analisar anacronismos é parte da tarefa do historiador. A inserção de fatos e ideias em seus contextos sem excessivos reflexos dos meus dilemas contemporâneos ajuda a sair da obsessão narcísica e etnocêntrica do meu mundo. O passado não é eterno, como nós também não somos. História não é moral, mas deveria ajudar em certa humildade perspectiva. Bom domingo para todos vocês! 

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