Homens de jornal

Antes de 'The Post', recomendo ver o documentário de John Maggio 'A Vida de Ben Bradlee'

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2018 | 02h00

Quero crer que jornalistas egressos, como eu, da era analógica vibram mais com filmes como Todos os Homens do Presidente, Spotlight - Segredos Revelados e o ainda em cartaz The Post - A Guerra Secreta. Temos com eles uma empatia natural, por certo reforçada pela nostalgia, pelas ternas lembranças que guardamos da azáfama nas redações e da juventude em que, com maior vigor, a vivemos. Clichês visuais de cinedramas jornalísticos, como prensas rotativas em movimento e repartes de jornais fresquinhos da gráfica atirados sobre uma calçada clareada pela aurora, nunca deixam de me emocionar.

Sou portanto suspeito para comentar com rigor crítico os três filmes citados. Catárticos todos eles, dois dos quais - Todos os Homens do Presidente (doravante, THP) e The Post - interligados por eventos coetâneos e personagens comuns. A saga de THP começava no ponto em que a de The Post termina; até as tomadas do prédio Watergate sendo invadido pelos espiões da Casa Branca parecem ter sido cedidas a Steven Spielberg pelos produtores de THP. Os vilões são os mesmos (Nixon e sua camarilha) e o mais destacado mocinho também: o editor executivo do Washington Post, Benjamin C. Bradlee.

A quem ainda não viu The Post recomendo esperar mais um pouco. Segunda-feira, o canal a cabo HBO exibirá, às 22h, o ótimo documentário de John Maggio, O Homem do Jornal: A Vida de Ben Bradlee. Visto antes do filme enriquece-o tremendamente. 

Outro proveitoso aperitivo é o documentário O Homem Mais Perigoso da América: Daniel Ellsberg e os Documentos do Pentágono, de graça no YouTube. Para encarnar Ellsberg, “o Edward Snowden da era Nixon”, em The Post, Spielberg escalou Matthew Rhys, consagrado no papel de um espião comunista na telessérie The Americans. Escolha maliciosa, talvez motivada pela determinação do cineasta de embaraçar ao máximo o atual mandante na Casa Branca, o Nixon do novo milênio, de quem, aliás, Trump plagiou o bordão “a imprensa é o maior inimigo do povo americano”.

Fissurado nos dois escândalos, que acompanhei intensamente nos tempos do Pasquim (estava em Berkeley quando a renúncia de Nixon, em agosto de 1974, me atraiu a uma passeata na Avenida Telegraph, enfeitada até com bandeiras vietnamitas), fiz o serviço completo: além de ver The Post, rever THP e os dois documentários, reli um ensaio de Ben H. Bagdikian sobre as lições deixadas pela liberação (vazamento é pejorativo) dos documentos do Pentágono e sua difusão pelos principais jornais da América e do mundo.

Bagdikian foi o jornalista que fez a ponte de Ellsberg com o Washington Post. Interpretado no filme por Bob Odenkirk, seu ensaio saiu na Columbia Journalism Review (setembro-outubro de 1971) e foi compilado no livro The Effete Conspiracy - And Other Crimes of the Press, editado no ano seguinte pela Harper & Row. Para ele, os danos causados pela revelação de documentos secretos são mínimos se comparados aos causados pelo ocultamento de informações praticado por governos corruptos. Na mosca.

A dobradinha Ellsberg-Bagdikian não agiu sozinha. Bagdikian, diga-se, só entrou na trama depois que Neil Sheehan, autor do furo no New York Times, ficou judicialmente impedido de continuar desovando os documentos, com base numa lei antiespionagem. De 1917! 

Esta semana, na página da revista The New Yorker na internet, outra figura ligada à desova saiu das sombras: Gar Alperovitz. 

Historiador e economista político, especializado em assuntos nucleares (seu livro mais conhecido, Diplomacia Atômica, o único de sua autoria que li, foi traduzido pela Biblioteca do Exército), com vasta experiência nas entranhas da política externa americana, Alperovitz ajudou Ellsberg a distribuir 7.000 páginas de papelório sigiloso sobre o fiasco americano no Sudeste Asiático (de Truman a Lyndon Johnson) a vários jornais, com a colaboração de diversos estudantes de Harvard. 

Oculto pelo codinome “Mr. Boston”, comandou a operação, cujos próprios executantes apelidaram de “The Lavender Hill Mob”, em homenagem a uma velha comédia britânica estrelada por Alec Guinness, entre nós conhecida como O Mistério da Torre. Alperovitz, hoje com 81 anos, não aparece em The Post. Katharine Graham, a destemida dona do jornal, misteriosamente ausente de THP, só não reina absoluta desta vez porque teve de dividir o protagonismo com seu editor executivo, o mercurial Benjamin C. Bradlee. 

Bradlee, morto em outubro de 2014, passou 26 dos seus 93 anos de vida no Post, depois de uma experiência como correspondente da Newsweek, do mesmo grupo, na glamourosa Paris de seis décadas atrás. Membro do patriciado bostoniano, lutou na 2.ª Guerra entre os fuzileiros navais, conviveu com a elite de Washington e Nova York, e tornou-se amigo e confidente do presidente Kennedy. Mais que um editor brilhante e audaz, foi uma celebridade, um paladino da liberdade de imprensa e o mais incômodo inimigo de Nixon. 

Que outro editor de jornal logrou ser encarnado por quatro diferentes atores no cinema? Tom Hanks imita bem seu jeito de falar, mas me pareceu meio cheinho para o papel. Jason Robards, fisicamente mais adequado, não só ganhou um merecido Oscar por sua performance em THP como inventou um hurra gestual (peteleco na mesa seguido de um bater de mãos) que Bradlee adotou depois de ver o filme. Essa é uma das muitas curiosidades que nos revela o documentário O Homem do Jornal, cuja maior virtude é ser narrado pelo próprio protagonista. Sorte de Maggio ter tido acesso às memórias gravadas por Bradlee para o livro A Good Life, já no título tão sincero quanto o seu autor. 

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