Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura » Histórias não escritas

Cultura

Histórias não escritas

Você pode achar que é fetichismo, senão coisa pior, a demandar urgente terapia e-book, mas gosto de remexer nas lembranças que, como fungos benignos, impregnam certos livros que conservo em casa. Aquilo que faz a mão hesitar, sentimental em cada um dos dedos, na hora de botar fora romance ruim presenteado por gente boa.

0

Humberto Werneck

23 Fevereiro 2016 | 02h00

No ponto a que chegou o transbordante caos da minha biblioteca, esparramada para cada canto da casa, sou forçado às vezes a desativar o sentimentalismo, mas é sempre com pesar que descarto relíquias de afetos, estejam eles vigentes ou meio desbotados. Fazer o que, se nessa aluvião livresca não há mais onde acolher forasteiros que não param de chegar? Estou vivendo a situação do amigo que, na partilha das sobras de tudo que chamam lar, ficou sem metade de seus livros – e que agora, ante a sub-reptícia metástase que devolveu a sua biblioteca o tamanho pré-separação, lamenta já não ter de quem se separar.

Sepultado em algum ponto do cafarnaum de meus livros, jaz aquele, como é mesmo o título?, em que uma pesquisadora, depois de muito buquinar nos sebos, fala dos achados entre as páginas do que pescou nas prateleiras. Cartas, bilhetes, notas fiscais, listas de compras, bilhetes de loteria que antes de amarelecerem deram branco, folhas e flores alusivas a amores que também secaram.

Sou fascinado por esse tipo de relíquias concretas, mas igualmente por aquelas outras, imateriais, que só ao dono de um livro dizem respeito – aquilo que faz, por exemplo, com que seu exemplar de Dom Casmurro, ainda que da mesmíssima edição, seja diferente do meu, e não só pelas passagens que nossos lápis destacaram nas margens e entrelinhas. Um e outro têm uma história que não está contada por Machado de Assis, mas indelevelmente sublinhada na memória e coração de seu possuidor. (Nada contra o e-book, mas notou a diferença?)

Penso nisso ao apanhar na estante, meio ao acaso, meu exemplar de O Conde e o Passarinho, de Rubem Braga, presente da mãe de uma namorada num remoto dia de Páscoa, e dele ver saltarem lembranças não necessariamente literárias do que foi o fogaréu dos meus 18 anos, no qual epifanias literárias crepitavam tanto quanto meus hormônios. Poderia ser também, da mesma época, Seis Contos da Era do Jazz, que um colega de colégio, o Glauco, me deu no Natal de 1963, com dedicatória indignada – que meu ano de 1964 fosse “farto em capim” –, pois eu lhe confessara nunca ter ouvido falar no tal de Scott Fitzgerald. Bendito capim aquele, pois no rastro dos contos veio vitalícia admiração literária.

Certos livros, insisto, acabam escrevendo para seu dono uma história particular – nem sempre exaltante, você sabe. No mesmo colégio, um professor me incentivou a comprar o Eça de Queirós, o que fiz em papel-bíblia e a prestações, pondo a sangrar por meses meus caraminguás de auxiliar de escritório. Pouco adiante, sem ter lido inteiro, troquei o Eça num sebo pelas obras completas de, valha-me Deus, Humberto de Campos. Na certa achei bacana ter xará com obra encadernada. Quando tentei desfazer a troca, os mais de 20 volumes do escritor maranhense não valiam um só de seu colega português.

Apegar-se a livro chinfrim, ou mesmo escancaradamente ruim – não venha me dizer que não acontece com você também. Durante décadas fui incapaz de descartar a história edificante da beata Elizabeth Leseur – presente de uma tia querida, por certo esperançosa de que com o sobrinho incréu se desse o mesmo que ocorreu com o viúvo da santinha, convertido à fé cristã ao ler a prosa pia da falecida. Guardei o livro apenas pela tia, é claro, pois em momento algum cogitei renunciar às lambanças do pecado. Quando finalmente desovei num sebo aquele repositório de virtudes, passei pela provação de ali topar com um de minha autoria – uma coletânea de contos da primeira juventude publicada na idade madura, meio à sorrelfa, numa edição quase confidencial, para repartir entre leitores que escolhi.

E agora lá estava meu livrinho, um enjeitado entre milhares, à espera de seduzir alguém, não para a virtude, como o de Elizabeth Leseur, mas para os fantasmas literários de um ex-moço. Não quis ver a dedicatória, mas bem que folheei o livro, atrás de uma carta, um bilhete, uma nota fiscal, uma lista de compras, um bilhete gorado de loteria, uma flor ou folha seca que fosse. Nem isso.

 

Mais conteúdo sobre:

publicidade

Comentários