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Historiador fez grande sucesso na estreia da Flip em 2003

Eric Hobsbawm ganhou a alcunha de 'intelectual superstar' pela historiadora Lília Schwarcz

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo,

01 Outubro 2012 | 16h13

Ao final da primeira edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, em 2003, Eric Hobsbawm ganhou a alcunha de "intelectual superstar", conferida pela historiadora Lília Schwarcz. Não foi exagero - o mais velho entre os participantes, o historiador desbancou, em popularidade, autores como Don DeLillo, Hanif Kureishi, Julian Barnes, entre os estrangeiros.

Bastava passear pelo calçamento irregular de Paraty para constatar: com tênis, meias até o joelho, shorts exageradamente largos e camiseta, Hobsbawm não conseguia andar mais que alguns metros sem ser parado por alguém (na maioria, jovens). Sem se incomodar, ele dedicava extrema atenção ao que lhe era perguntado (mesmo quando o inglês do interlocutor era claudicante) e respondia, às vezes, em longos minutos.

Também posava para fotos e, quando apresentado para o amigo do fã, dizia simplesmente "Oi, sou o Hobs", assimilando a informalidade brasileira. Na época, Hobsbawm lançava no Brasil sua autobiografia, Tempos Interessantes (Companhia das Letras), que revê o século 20 a partir de sua trajetória pessoal ao mesmo tempo em que reflete sobre os acontecimentos mundiais: as crises financeiras e políticas dos anos 1920, a ascensão de Hitler e os acontecimentos da 2.ª Guerra Mundial, até chegar à Guerra Fria e ao fim do império soviético.

A palestra do historiador, realizada na noite do primeiro dia da Flip, foi a mais disputada e terminou com uma piada contada por ele: três milionários estão sentados em um bar; depois de beber algumas cachaças, começam a se empolgar e cantam a música mais marcante de sua juventude: a Internacional Comunista.

No dia seguinte, Hobsbawm conversou com o Estado, revelando sua preocupação em destacar a importância de se pensar a História não apenas em termos nacionais, mas a partir da preocupação em inserir contextos particulares na história do mundo.

"Hoje há uma enorme demanda por história, principalmente por meio de programas de televisão", disse ele. O que acontece é que a história é utilizada para as pessoas identificarem suas raízes no passado, sejam pessoais ou nacionais. O detalhe é que o avanço tecnológico, que é mais acentuado nas sociedades desenvolvidas, não se interessa pelo passado, mas em resolver problemas. Aí está a essência da questão: resolver os problemas sem referências do passado. Isso influencia a sociedade de consumo, que se interessa apenas pelo que pode comprar agora e no futuro."

REPERCUSSÃO

Todd Gitlin

Sociólogo, professor da Columbia University

Era um historiador extremamente talentoso, lúcido, que nunca se furtou de lidar com as questões mais difíceis. Eu o conheci em Cuba, no final de 1967, e me lembro de uma figura independente e extremamente instrutiva. Mesmo que não concordasse sempre com ele, reconheço que foi um dos gigantes.

Demétrio Magnoli

Sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP

Podemos dividir Hobsbawm em dois: um que fala do período que não viveu, que é também o período que não está marcado pela ideologia que ele assumiu, e outro que fala do período que viveu. Concordando-se ou não com a linha histórica que ele representa, ele é um grande historiador quando trata do período que não viveu e um historiador menor ou, pior, um ideólogo da História ao tratar do século 20. Ele permaneceu fiel à União Soviética apesar de suas críticas. Com sua morte, encerra-se um ciclo de escrita da História. Nunca mais teremos um historiador importante, no sentido de qualidade e ser bastante lido, que faça o mesmo caminho de Hobsbawm.

José Arthur Giannotti

Professor emérito de filosofia da USP, pesquisador do Cebrap

Depois dos anos 50, a teoria marxista rapidamente degenerou numa escolástica principalmente porque procurava manter a unidade de um sistema cujas fundações começavam a ser abaladas. Em vez de retornar ao exame das primeiras noções, como aquela da forma de valor, ela procurou sustentar a todo o custo a unidade do sistema. Os historiadores foram a gloriosa exceção dessa mania. Eric Hobsbawm foi o maior deles, acompanhando as novas formas das crises revolucionárias até mostrar como o ciclo das revoluções chegava a seu fim. Exemplo de intelectual engajado que não se aferra à unidade abstrata do sistema.

Renato Janine Ribeiro

Professor de ética e filosofia política da USP

Foi um grande historiador e um escritor de primeira qualidade, capaz de fazer sínteses muito ricas e escrever obras deliciosas. Viveu 95 anos, pode realizar muitas coisas. A única questão que não foi bem resolvida foi o balanço de suas relações com o Partido Comunista, mas esse é um ponto pequeno no conjunto de sua obra.

Liz Calder

Editora inglesa e idealizadora da Festa Literária Internacional de Paraty

Ninguém que tenha participado da primeira Flip, em 2003, vai se esquecer da visão de Eric Hobsbawn sendo perseguido por fãs pelas ruas de Paraty e depois dizendo que aquela tinha sido a primeira vez em que fora tratado como um popstar e que tinha gostado. E nem vai se esquecer dele pulando de um barco de pescador para a praia... com seus 80 anos.

Luis Fernando Verissimo

Escritor e cronista do C2

Hobsbawn foi notável pela coerência, sempre. Foi um crítico do comunismo e nunca deixou de ser comunista. Eu me identificava muito com ele porque gostávamos de jazz. É uma morte lamentável. Ele foi ativo até o fim, pensando, o cérebro funcionando até o último momento.

 

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