História sexual, sexo da história

O tsunami das revelações sobre o alegado estuprador serial e produtor de cinema Harvey Weinstein transbordou para outras indústrias. Na semana passada, o jornalismo ocupou a berlinda e dois importantes formadores de opinião no eixo Washington-Nova York tomaram o elevador expresso para o porão da desonra.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 03h00

Mark Halperin, autor de best-sellers políticos, foi um dos mais influentes editores na cobertura nas últimas quatro eleições presidenciais, com passagens pela ABC, Time, Bloomberg e NBC. Leon Wieseltier foi o editor literário da revista The New Republic por mais de três décadas e, até a semana passada, era editor contribuinte da revista Atlantic Monthly, além de ocupar uma fellowship na Brookings Institution nomeada em homenagem a ninguém menos do que o filósofo Isaiah Berlin.

Não vou entrar em detalhes sobre o que ambos são acusados de fazer com jornalistas e produtoras, mas, apesar de os incidentes variarem em grau de lascívia, o modus operandi de ambos era similar ao do mais violento e sociopata Weinstein: explorar a juventude, insegurança e aspirações de mulheres jovens e contar com o silêncio cúmplice de colegas.

Ao ler a enxurrada de relatos sobre assédio sexual inspirados pelo hashtag  #metoo (eu também), lembrei de uma tarde distante na era Cenozoica quando um homem famoso de meia-idade me perguntou, à queima-roupa: “Não há a menor chance de você transar comigo, certo?” “Certo!”, respondi, mais divertida do que oprimida, um pouco envergonhada por ele. O homem cosmopolita se aproveitara da minha estupidez épica e me convencera a subir ao seu quarto de hotel em Manhattan com alguma desculpa de trabalho que hoje me escapa, algo a ver com um arquivo para uma reportagem. Mas ele era inteligente – ou impaciente – o bastante para abreviar educadamente a situação. É importante notar, a figura não tinha papel na minha trajetória profissional. Mas tinha poder para me prejudicar com quem tomava tais decisões.

A turma da indignação recreativa tenta sapecar no escândalo Weinstein o rótulo de patologia progressista, na aflição de justificar o apoio ao homem que se elegeu depois de ser ouvido numa gravação se gabando de assédio sexual, apoiado com zelo stalinista por uma rede de TV, a Fox News, que perdeu o fundador e dois âncoras acusados de assédio serial. Como sabemos, a intimidação sexual de mulheres ou homens jovens por homens ou mulheres tem muito mais a ver com poder do que com desejo. É importante aproveitar o momento para outras considerações. É bem possível que o resultado da eleição presidencial e seu efeito sobre a psique americana tenham produzido um ambiente favorável ao rompimento do silêncio de décadas em torno de Harvey Weinstein, numa explosão de raiva com a impunidade masculina.

Em profissões mais criativas, como cinema ou jornalismo, o poder de gente como Halperin e Wieseltier é especialmente pérfido. Eles podem traficar subjetivamente sua influência com mais sucesso, promovendo quem diz sim e usando alguma desculpa intelectual para quem diz não.

Além do estrago pessoal de longo prazo que interações com estes homens podem causar, há uma consequência histórica que não será corrigida apenas com manifestações de raiva na rede social. Leon Wieseltier disse ao New York Times, em 2007 que Hillary Clinton era “como alguma dona de casa infernal, que viu algo que quer e não para de lhe azucrinar, até que você diz, OK, pode levar, se torne presidente e me deixe em paz.” Já Mark Halperin disse no ar que as acusações de várias mulheres contra o atual presidente não eram nada demais. Se o jornalismo é o primeiro rascunho da história, a escassez de mulheres com poder na profissão produz uma história com sexo.

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