História da arte ao alcance de todos

ANTONIO GONÇALVES FILHO

O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2012 | 03h11

A história da arte tem poucos nomes capazes de rivalizar com o dele. A razão é simples: o austríaco Ernst Hans Josef Gombrich, ou simplesmente E.H. Gombrich (1909-2001), não escrevia exclusivamente para especialistas, mas para ser lido e entendido por todos. Gombrich, que ganhou a cidadania britânica em 1947, tornou-se conhecido por dois livros fundamentais no ensino da disciplina: A História da Arte, de 1950 (LTC, 688 págs., R$ 125), publicado em mais de 30 países e já na 16.ª edição aqui, e Arte e Ilusão, de 1960 (WMF/Martins Fontes, 386 págs., R$ 89,60). Somam-se a esses mais três títulos publicados agora pela Bookman Editora - Gombrich Essencial, Os Usos das Imagens e O Sentido de Ordem - e mais o relançamento de Uma Breve História do Mundo, de 1936, primeiro livro publicado pelo autor, que nunca deixou de figurar no catálogo da Editora Martins/Martins Fontes.

Gombrich Essencial é traduzido pela primeira vez no Brasil e traz uma seleção de textos e entrevistas do historiador feita pelo professor Richard Woodfield, da Universidade de Birmingham. Eles se conheceram em 1970, quando Woodfield pesquisava a arte do século 18 no Instituto Warburg. Em 1986, Woodfield reencontrou-o quando o historiador trabalhava no livro Reflexões Sobre a História da Arte. Oito anos depois, ele e o amigo começaram a preparar Gombrich Essencial. Sobre o livro e os outros lançamentos, o professor Woodfield, hoje responsável pelo Gombrich Archive, conversou com o Sabático.

O "essencial" de Gombrich está no livro, garante Woodfield, mas ele lamenta não ter incluído um ensaio sobre Aby Warburg (1866-1929), historiador de arte alemão célebre por seus ensaios sobre Botticelli. Pioneiro no estudo do ressurgimento do paganismo no Renascimento Italiano, Warburg, seguidor da tradição de Jakob Burkhardt, tinha uma biblioteca de referência (mais de 60 mil volumes) em Hamburgo, base do Instituto Warburg, quando decidiu se instalar em Londres. Gombrich tornou-se seu funcionário por pouco tempo, mas foi influenciado por suas ideias. Após a morte de Warburg e com a ascensão de Hitler, a biblioteca do instituto, por segurança, foi transferida para uma mansão rural.

Ao contrário de Warburg, que tinha projetos ambiciosos, como o Bilderatlas Menmosyne - atlas com ligações temporais de características visuais -, Gombrich nem mesmo acreditava ser possível definir arte. Ele, aliás, começa seu História da Arte afirmando que não existe "isso que chamam de arte". O que existe, dizia, são artistas. Sua inovação, ao contar essa história, foi justamente não supervalorizar o papel de movimentos artísticos, mas do indivíduo como criador. Leia a seguir, a entrevista com Richard Woodfield.

Entre os livros de Gombrich lançados no Brasil está Gombrich Essencial, cujos textos foram selecionados pelo senhor. Como escolheu esses escritos entre centenas de outros importantes produzidos por ele?

Ernst lamentava o fato de a maioria de seus leitores estar apenas familiarizada com dois títulos seus, História da Arte e Arte e Ilusão, pensando nele só como um historiador de arte. Assim, me pareceu importante apresentar a esses leitores seu livro sobre o ornamento, O Sentido da Ordem, que poucos leram. Também era importante familiarizá-los com seu trabalho acadêmico como historiador de arte do Renascimento italiano. Em retrospecto, penso que deveria ter incluído seu ensaio sobre Aby Warburg que está em Tributos. Esse é outro grande livro que coloca seu trabalho sobre a história da cultura numa outra perspectiva. Ele não teve tempo de concluir seu estudo maior, The Preference for the Primitive, publicado postumamente, mas incluí no livro suas palestras na BBC sobre primitivismo. Quando discutimos o título Gombrich Essencial, ele não ficou muito satisfeito, pois não queria que as pessoas vissem o restante de sua obra como não essencial, mas, naturalmente, tínhamos de fazer uma seleção.

Uma ideia predominante por trás de História da Arte, de acordo com um artigo escrito pelo senhor, é que, em diferentes épocas da história e da cultura, a produção de imagens desempenhou papéis distintos. Como o senhor acha que Gombrich, se estivesse vivo, definiria a cultura inglesa hoje em termos dos produtos que ela produz, como as obras de Damien Hirst?

O melhor a fazer em relação ao assunto é ler o que ele tinha a dizer sobre os grandes fatores que mudaram a posição da arte e dos artistas em nossa sociedade - e que transformaram a arte em um fenômeno da moda, muito mais do que no passado. Ele fez uma lista de nove desses fatores, dos quais o terceiro é o mais importante nesse contexto: "A arte parece ser o único paraíso onde o capricho e as manias pessoais ainda são permitidos e mesmo valorizados". O jogo de chocar a burguesia virou um dos preferidos da própria burguesia. O que poderia ser mais chocante do que retalhar uma vaca ou fazer uma caveira cravejada de diamantes (como o faz Damien Hirst)? Gastar somas absurdas de dinheiro em tais coisas tem mais a ver com esnobismo do que arte. É o que Pierre Bourdieu classificou de "distinction". Por meio de uma operação que envolve comerciantes de arte, galerias e museus, a obra de arte virou uma mercadoria para milionários. Zola já descrevia a emergência desse fenômeno em L'Oeuvre (sobre sua amizade com Cézanne).

Gombrich foi o alvo preferencial de alguns críticos que o rotularam de conservador por defender a necessidade de reconhecer o que a tradição significa em nossas vidas. O senhor acha que sua obra é lida hoje com menos preconceito pela nova geração de historiadores e críticos?

É difícil responder a essa questão porque a obra de Ernst é internacionalmente conhecida e recebida de diferentes maneiras em várias culturas. Imagino que os americanos sintam de maneira diversa dos europeus, dos indianos e japoneses porque não vivem num ambiente físico formatado por séculos ou milênios de tradição. O lugar onde moro está rodeado por duas catedrais góticas e inúmeras casas de campo antigas que conservam sua arquitetura original. Sente-se, então, a presença da tradição como uma força vital. A América é muito jovem e a maioria dos imigrantes possivelmente gostaria de voltar para essas casas antigas, mas estão tão envolvidos com a arquitetura contemporânea que acabam estudando temas como esse, encontrando neles algo mais importante que a tradição ou a ideologia.

Gombrich observa, em Os Usos das Imagens, que a ideia do progresso na Europa se tornou estreitamente ligada às imagens artísticas criadas no continente no passado, sendo visto como eurocêntrico. Numa Europa como a de hoje, dominada por certa indiferenciação cultural, ainda é possível identificar a diversidade que Gombrich viu ao escrever o livro? Qual seria o papel da tradição dentro da cultura contemporânea europeia?

Se considerarmos a ideia do progresso em relação à construção da imagem ilusionista, é possível continuar essa história por meio da fotografia, do cinema, da TV e da realidade virtual. As três primeiras são invenções europeias. A etnicidade não é importante para a descoberta tecnológica, que supera a barreira cultural. Na cultura europeia, a marca distintiva das cidades pode chocar, mas somos também tocados pela ligação que existe entre elas. O desenvolvimento da União Europeia e seu programa educacional de trocas incentiva um sentimento de unidade cultural. O interior da Inglaterra, por exemplo, tem um enorme débito com a arquitetura italiana e a pintura francesa, mas essas são apenas duas das ligações que existem entre as culturas europeias. Além disso, o imperialismo deixou suas marcas em muitas das manifestações de nossa cultura, o que pode ser comprovado pelo número de mesquitas e templos Sikh, que, por exemplo, influenciaram a arquitetura do Pavilhão Brighton (construído no século 19). Os grandes portos comerciais ainda conservam as marcas das antigas ondas de imigração. Então, acredito que a educação escolar tenha de ser elevada a um patamar em que professores e alunos possam se tornar mais sensíveis às maneiras como a tradição tem sido enriquecida pela diversidade. A peculiaridade dessas culturas sobreviverá, ainda que tome novas formas.

Outro livro de Gombrich agora lançado é O Sentido de Ordem. Há algumas semelhanças entre esse livro e outro mais conhecido do historiador, Arte e Ilusão, no qual ele afirma sua crença num sentido de ordem reinante no mundo. Seria possível que ele acreditasse numa ordem ditada de cima por uma entidade superior?

Não há evidência na obra de Ernst que permita dizer que ele acreditasse num deus criador. Ele estava ciente da falácia que é a teoria do design celestial ligada a Deus. Ele não é necessário num universo regulado por leis físicas. Num nível pessoal, talvez ele acreditasse, como seu amigo Karl Popper, que Deus fosse mais uma questão de fé do que um tema para discussão.

Gombrich começou escrevendo para crianças, publicando seu primeiro livro pensando nelas, o Breve História do Mundo, relançado agora no Brasil. Esse livro foi escrito em alemão e Gombrich estava trabalhando na versão inglesa quando morreu. O senhor teve acesso a essa revisão? Como classificaria o livro dentro da obra de Gombrich?

Li a tradução inglesa e a lerei para meu netinho quando ele crescer um pouco mais. É uma introdução maravilhosa, que convida o leitor a pensar em termos de um engajamento pessoal com fatos e situações. Contudo, como sua neta Leonie observou, se ele tivesse vivido para completar a tradução, teria acrescentado capítulos sobre Shakespeare e o começo da democracia parlamentar. O livro, de fato, trata a história de uma perspectiva europeia, embora inclua capítulos sobre a Índia, China e a expansão do mundo árabe, até mesmo porque todas essas culturas causaram impacto na civilização europeia. Se Ernst tivesse vivido no Rio de Janeiro, imagino que ele contaria uma história diferente, que incluiria as grandes civilizações da América e o impacto da imigração no continente. Teria sido fascinante ouvir tal história.

Gombrich não gostava muito de arte moderna e era profundamente hostil ao marxismo, que considerava uma falsa ideologia. Ele foi discriminado na academia por aqueles que não dividiam seu credo?

Lembre-se que ele disse não existir tal coisa que chamam de arte, apenas artistas. Houve alguns artistas modernos dos quais ele gostou, mas ficava entediado com a inclinação deles e também dos críticos de teorizar sobre as obras. Embora fosse, sim, profundamente hostil ao marxismo, assim como às explicações cosmogônicas da arte, ele também argumentou que não é preciso ser um marxista para reconhecer a função social da pintura. Além do mais, classes têm uma função limitada na explicação social: no século 17, a patronagem dos cardeais era mais uma questão de filiação regional. Até onde sei, nenhum dos contemporâneos de Gombrich o discriminou por não ser marxista. Contudo, outros acadêmicos, mais tarde, o segregaram por sua obra se preocupar insuficientemente de assuntos como classe, gênero e grupos étnicos. Sua resposta às feministas era sempre a mesma: para ele, não importava se Michelangelo era homem ou mulher. "Historiadores devem aceitar as coisas como são ou como eram." Quanto à etnicidade, ele via as explicações que adotavam o parâmetro étnico como racistas, inaceitáveis.

Movimentos artísticos

não têm relevância em sua abordagem, que sempre se pautou pela produção individual

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.