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História a contar: Ronnie Von completa 70 anos

Júlio Maria - O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2014 | 02h 11

Vítima do radicalismo da MPB, cantor e apresentador Von revê o passado

Ele seria o avô da Tropicália, pai do psicodelismo, um revolucionário a dar dimensão e profundidade ao rock sessentista seguindo as lições do experimentalismo beatleniano dos anos 60 não fosse um detalhe: ninguém entendeu absolutamente nada. E pior: Ronnie Von não soube se explicar.

Uma das carreiras mais incompreendidas da música nacional, que sofreu com o desprezo de sua própria classe artística, volta a ganhar luz este ano. Ao fazer 70 anos em 17 de julho, Ronaldo Lindenberg Von Schilgen Cintra Nogueira, Ronnie Von, deve ganhar de presente uma biografia, a sua biografia, que está sendo feita pelo jornalista Luiz Pimentel. Um documentário de TV, exibido pelo canal Bis e idealizado por Ricardo Alexandre, já havia recolocado alguns pingos nos is ao retratar Ronnie com a força que o tempo imprime aos homens das sombras. "Acho que ele foi tão importante quanto Roberto Carlos. Ele nos apresentou outra coisa, nos permitiu sermos quem éramos", disse no especial Rita Lee, ao lembrar do único programa da TV Record dos anos 60 em que tudo era possível, O Pequeno Mundo de Ronnie Von.

O que Ronnie não queria ser era Roberto Carlos. Nada contra o rei, mas cantar baladas ingênuas em troca de uma exposição de sucesso estava fora de seus planos. A partir de 1968, ele lançou três discos considerados psicodélicos, que só começaram a ganhar seu verdadeiro valor a partir dos anos 2000, quando os sebos colocaram seus preços nas alturas.

Ao ouvir os Beatles cantando Eleanor Rigby, Ronnie teve a visão mais nítida do que queria para sua vida. Foi para o estúdio e imprimiu as mesmas ideias de rock sinfônico em Espelhos Quebrados, do parceiro Arnaldo Saccomani, um dos poucos que estiveram a seu lado mesmo em momentos que pareciam os mais insanos. Afinal, moreno, olhos verdes, educado nas altas esferas da sociedade carioca, Ronnie tinha tudo para querer o trono de Roberto se não fosse um porém: seu cérebro tinha vida própria.

A angústia de Ronnie Von começou no dia em que ele decidiu ser músico e só terminou no dia em que ele decidiu parar de cantar. "Agora, eu me sinto em paz", diz, em sua casa no bairro do Morumbi, em São Paulo. Às vésperas de completar 70 anos, prestes a ter sua vida retratada em uma biografia escrita pelo jornalista Luiz Cesar Pimentel, recém-saído de um estúdio onde regravou músicas de sua fase psicodélica para o documentário Quando Éramos Príncipes, de Ricardo Alexandre, o homem que se satisfaz plenamente apresentando um programa de TV nunca foi príncipe. Ou, se foi, esqueceram de lhe dar um reino.

Assim que sua voz soou na Rádio Tamoio cantando Meu Bem, em 1966, sua família o alvejou no peito: "Quem você pensa que é para jogar nosso nome no lixo?". Os críticos foram na jugular: "Esse calcinha de veludo está tirando o lugar de quem necessita". A MPB de Elis Regina e Geraldo Vandré o destroçou: "Como um homem de família faz uma música alienada dessas?". E a Jovem Guarda, da qual Ronnie jamais fez parte justamente por querer ir além de baladas românticas, o isolou. Artista que pisasse em seu programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von estaria automaticamente eliminado do todo-poderoso Programa Jovem Guarda, apresentado por Roberto, Erasmo e Wanderléa. Há pouco tempo, seu filho, Leonardo Von, comunicou ao pai que estava decidido a ser músico. Ronnie respirou fundo e deu uma resposta que fez o primeiro capítulo da história quase se repetir. Os outros episódios, no entanto, podem ser bem diferentes.

O que foi pior para você no final daqueles anos 60? A ditadura ou a patrulha da MPB de esquerda, que já havia feito até passeata contra a guitarra elétrica?

Seguramente, a patrulha comportamental da MPB. Se você não escrevesse seguindo a cartilha deles, meu Deus, alienado era elogio. Você era um reacionário, um fascista. Eu achei que poderia fazer parte daquele movimento, na tentativa de consertar a problemática humana através de um viés esquerdizante, e de repente fui alijado disso tudo, simplesmente porque usava instrumentos elétricos como guitarra, baixo e teclados, poxa. Nunca vi uma bobagem maior.

Mas a ditadura também trouxe problemas a você?

Sim, quando descobriram que eu tinha formação acadêmica, vieram em cima. Eu tive disco lançado que foi censurado depois de lançado. Mas eu quero abrir um parêntese aqui para um assunto subterrâneo, mas que hoje, do alto de meus quase 70 anos, posso falar, estou pouco me importando. Quantas vezes eu vi estratégias mercadológicas com relação à censura? Diziam: "Censuraram o disco de fulano". Tudo papo-furado. Não tinha nada censurado. Faziam isso para as pessoas ficarem naquela agonia, ávidas por comprar o disco. Quando anunciavam que o material estava liberado, era uma loucura.

Havia uma guerra declarada entre a MPB de Chico Buarque, Edu Lobo, Elis, Jair Rodrigues, Gilberto Gil e Vandré, chamados em um programa de Frente Única da MPB, e os artistas que participavam da Jovem Guarda. Mas você sugeria uma terceira via, uma música experimental que rompia com o iê-iê-iê que antecedeu a própria Tropicália. Ninguém entendeu isso?Eu apanhei muito pesado. Não do pessoal da Jovem Guarda, que não entendia o que eu queria dizer, mas da chamada MPB. Quebraram meus discos publicamente em televisão, me chamaram de alienado mental. O ato de coragem nesta história veio por parte do Gilberto Gil, quando fez uma das coisas mais impecáveis que a música desse país já viu, que é o Domingo no Parque. Gil também apanhou por usar guitarra elétrica, mas quando mostrou o resultado, todo mundo teve que se calar, inclusive Elis Regina.

A Tropicália não foi fruto de uma semente que você havia plantado?

Eu havia feito algumas coisas bastante tempo antes, mas não a vi como sendo de minha paternidade. Pensei: os caras estão fazendo aquilo que eu estava pensando em fazer, mas que não tive apoio de absolutamente ninguém. Eu também não sabia dizer o que eu queria. Depois de Gil, parou tudo, ninguém mais falou contra a guitarra elétrica porque o baluarte da MPB, Gil, e Caetano, dois pilares, usaram guitarra, baixo, teclado. Aí a coisa se acalmou.

Você tentou se aproximar dos outros grupos?

Eu tentei uma aproximação com os radicais, mas não era aceito. Eu não consegui diálogo nem com a Jovem Guarda nem com a MPB.

O que diziam a você?

A assessoria do Roberto Carlos me dava coice, para dizer o mínimo, não me deixava nem chegar perto dele. E o pessoal da MPB, o grupo ortodoxo e radical, não me aceitava porque me julgava da Jovem Guarda. Foi uma coisa tão penosa... Hoje eu me sinto tão em paz em não cantar mais... Olha, agora eu estou em paz.

Ser de família rica foi um problema?

Vou contar coisas estarrecedoras. Na época em que comecei, era de muito bom tom ter uma origem miserável para chegar a algum sucesso. Só assim você tinha um suporte maior, autêntico. Os grandes homens precisam sair de uma favela. Isso é algo fascinante para nós humanos, comungamos desse pensamento. Eu tinha de esconder minha origem, esconder que minha família tinha recursos. Quando descobriram de onde eu tinha vindo, sofri o preconceito às avessas. Diziam que meu pai bancava meus gastos. Como? Minha família só faltou me expulsar de casa quando descobriu que eu era músico. As pessoas mais antigas e conservadoras do Rio de Janeiro, ao contrário do que todo mundo pensa aqui em São Paulo, vivem até hoje na corte. A cabeça delas está no século 19. Eu então ouvi barbaridades de algumas tias. "Onde foi que nós erramos?" "Esse menino vai jogar o nome da família na lama." "Criamos uma cobra." Isso me deixava deprimido. Meu Deus, a escolha era minha. Fui morar na Praça Julio de Mesquita, no centro de São Paulo, sem dinheiro, louco para atravessar a São João e ir comer no Filé do Moraes. Eu mesmo ouvi no rádio alguém dizer: "Esse filhinho de papai está ocupando o lugar de quem precisa". Me chamavam de calcinha de veludo.

A música foi um grande drama, do início ao fim?

Só paulada. Paulada da Jovem Guarda, paulada da MPB, paulada da mídia impressa, paulada da família. Pessoas que eu lia e admirava, como Sérgio Porto, dizendo: "Não ouvi e não gostei". Foi uma das pessoas que mais me bateram na cara. Eu tive que aprender a deixar de gostar de pessoas que eu lia, que eram endeusadas por todo mundo, sábios. Puxa vida, poderiam ter a cabeça mais aberta.

Isso tudo acabou enterrando sua carreira antes da hora?

Eu resolvi parar de gravar em 1997, usando como argumento o seguinte: onde já se viu você ter que pagar para executarem uma música sua? Se a contribuição do artista é a cultura, você não tem que pagar para ele chegar às pessoas. Quando vi um amigo meu, apresentador de televisão, levando ao programa dele um músico terrível, filme de terror que não tinha o mínimo sentido em estar lá, fui falar com ele e ele disse: "Bate na sua boca, isso aí é um grande sucesso nacional". Eu disse: "Mas não faz sentido". E ele: "Olha, ele tem R$ 9,5 milhões por trás segurando a onda". Hoje, você tem que ter um investidor, senão você não faz sucesso. O processo é inverso ao meu.

Seu filho é músico, não?

Ele está indo embora do País, cansou de levar porta na cara. Eu fiz de tudo para esse menino não se meter nessa história, porque eu sabia do sofrimento. E eu não conheci ninguém melhor do que meu filho na faixa etária dele. Ele tem um talento absurdo, mas não faz sertanejo nem funk. É porta na cara o dia inteiro. E esse cara luta desde os 11 anos de idade.

E o que está faltando?

Se o cara não tem investidor para pagar um escritório para administrar sua carreira, nada feito. Quanto custa para tocar na rádio tal? R$ 400 mil. Para ele, pediram R$ 5 milhões. Se fosse sertanejo, seria o dobro. Somos reféns hoje dessa raça, que empobrece a música, que não deixa que os talentos apareçam. Eu vi um cara dar uma casa em Miami e dois carros BMW para fazer um artista tocar nas rádios do País. Eu vi, ninguém me contou. O cara está muito famoso até hoje.

Você faria algo diferente do que fez no passado?

Eu faria tudo ao contrário. Teria feito aqueles discos psicodélicos, mas saberia mostrá-los melhor, convencer quem deveria ser convencido. Seria outra coisa. Eu fui induzido a continuar fazendo coisas com um viés romântico, que eu detesto.

Mas você não fez o que queria?

Eu fiz o que queria, mas não soube dizer o que deveria ser dito. Não soube mostrar qual era o caminho das pedras que eu via.

Ao dizer a seu filho que ele não deve ser músico, não está repetindo o que fizeram com você?

A história é irreversível, mas ela se repete. Ao saber que o Leo queria ser músico, eu disse a ele: "Por favor, meu filho, não faça isso com sua família, comigo, com você mesmo. Esse ambiente é sórdido, o mais podre que existe". Ele disse: "Pai, mas você venceu nele. Você é meu ídolo". Aí meu pai, de 93 anos, lúcido, entrou na história: "Desculpe, mas vou me intrometer, eu tenho esse direito. Sou o seu pai e o pai dele duas vezes. Não cometa com o meu neto a imprudência que eu cometi com o senhor. Deixe ele ser exatamente aquilo que ele quer ser".

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