Hipocondria com e sem remédio

Ao morrer, ele talvez se lamente: tanto remédio ainda por saborear

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2018 | 02h00

Não chego a ser aquele camarada que não pode ver farmácia sem nela entrar para conferir se há novidades do seu laboratório preferido. Mas confesso que não estou muito longe disso. Para ser franco, já o admiti por escrito, covardemente disfarçado nos traços patéticos de um pateta que descrevi como sendo “um hipocondríaco sem remédio”. A diferença, nos anos que desde então passaram, é que agora o sou com remédio. E sem laboratório preferido.

A rigor, talvez não seja tão hipocondríaco assim. Pelo menos não no grau de um colega com quem trabalhei numa clínica de envelhecimento precoce, ou seja, uma entre as várias redações de jornais e revistas onde esfarinhei a minha juventude.

Lembro de estar afundado na montanha de despachos de agências de notícias (sim, papéis, usava-se isso naquela Idade Média), e de, mais de uma vez, levantando os olhos, dar com o companheiro ali ao lado, silencioso, à espera de uma brecha para exibir algum lançamento da Bayer, cuja caixinha sacudia ante meus olhos, com o ar jubiloso de quem dá um furo jornalístico.

Bem mais do que eu, esse querido amigo (que, espero, ainda estará entre nós) amava as embalagens, as bulas - quanto mais assustadoras, melhor - e os nomes dos medicamentos. Não só as intermináveis designações científicas, maiores às vezes que os males que se propõem combater, como também as marcas de fantasia, num tempo anterior à invenção dos genéricos. Impossível esquecer a cara de felicidade quando se deu conta de que um best-seller farmacológico contra gases é identificado por palavra cujas primeiras letras - luffff... - reproduzem o fruto sonoro de tripas em rebuliço.

Em matéria de barulhos corporais, aliás, o esquálido repórter parecia ter especial fascinação pelos borborigmos; a palavra, sustentava ele, era uma joia verbal. Mais de uma vez, estando eu a 1 metro de distância, quis saber se chegara a mim a manifestação acústica de suas entranhas em convulsão. Insistia para que eu espalmasse a mão em sua barriga, de modo a acompanhar o bruaá visceral, como sismógrafo que da superfície busca detectar abalos em camadas profundas. Não cheguei a tanto.

Em anos de convívio, fracassei nas tentativas de lhe apresentar um só remédio que, ao menos de vista, ele já não conhecesse, platonicamente ou não. Foi nele que pensei na hora em que o cardiologista receitou um anti-hipertensivo que em meus ouvidos soa como nome de zagueiro: Diovan.

Saudade daquele camarada. Onde andará? No que dependesse da farmacopeia que abarrotava sua pasta, cujo ventre tinha ele um gosto quase sexual em exibir, imagino que terá atravessado incólume todos os males do corpo, e mais alguns.

Não é impossível que tenha conhecido sua futura mulher nalgum balcão de drogaria. Estou em condições de afirmar que aquele casamento tinha tudo a ver. Talvez ela não fosse tão chegada em bulas, mas com certeza compartilhavam um território, além daqueles do amor e do sexo; a moça, quando ele a conheceu, preparava dissertação de mestrado sobre morgues - e não quaisquer: funerárias gourmet que buscam dar no defunto um trato especial, visando a devolver-lhe um aspecto tão natural que no velório os circunstantes, enquanto abordam a bancada dos acepipes para mastigar um bem-velado, possam ter a impressão de que o falecido deu apenas uma morridinha e volta já.

Foi essa moça, aliás, que me aplicou O Ente Querido, delicioso romance de Evelyn Waugh cujo personagem principal, se bem me lembro (ando precisado de uma pílula para a memória), empregado numa funerária de bicho em Hollywood, se apaixona pela moça que, degraus acima no mercado mortuário, trabalha numa funerária de gente, encarregada, exatamente, de ambientar os defuntos de tal modo que pareçam vivos, ainda que seja preciso acomodá-los, não em caixões, mas na poltrona predileta, não lhes faltando o cachimbo na boca que há pouco exalou o último suspiro.

Impossível esquecer a ênfase com que a mulher de meu amigo defendia a cremação, novidade que então mal começava a fumegar no Brasil; desbravadora, administrava em forno brando a ideia de um livro sobre as diversas vantagens da incineração dos corpos, cujo título, anunciou, seria “Choro sem chorume”. Ainda não vi nas livrarias.

Poderia ter sido num velório, mas foi em casa deles, na comemoração do grau de mestre, que a moça me apresentou a um profissional cujos conhecimentos de muita utilidade haviam sido na feitura da dissertação.

Bastara um papo de corpo presente para se tornarem amigos. Era ele, como a personagem de Evelyn Waugh, um calejado ajeitador de cadáver, ou que outro nome tenha. Fomos por ele informados de que “fazia” três ou quatro pessoas por dia, das mais variadas idades e classes sociais, sendo as gordas as que mais trabalho lhe davam, já não me lembro por quê; e que, mesmo no caso de fregueses esqueléticos, a vedação de narinas demanda quantidade inimaginável de algodão. Nesse ponto achei melhor cair fora, mas não pude evitar que o especialista me estendesse um cartão, o qual por via das dúvidas esqueci no táxi. Só espero não chegar à reta final com excesso de peso.

Faço votos de que meu colega de redação não apenas esteja vivo como alcance, além da terceira, uma quarta idade, quem sabe uma quinta, o que no mínimo lhe proporcionaria a chance de ampliar ainda mais a sua fruição de medicamentos em geral. Não posso deixar de imaginar o trato póstumo que lhe dará a esposa, se a ele sobreviver. Por certo não deixará faltar junto ao cadáver, já rumo ao forno, a pasta atulhada de remédios, alguns dos quais, lamentavelmente, o falecido não terá tido tempo de saborear.

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