Harry Potter é herói de esquerda, diz jornal francês

Segundo o 'Libération', Harry é uma máquina de guerra contra o mundo thatcheriano e o 'American way of life'

James Mackenzie, da Reuters,

26 Outubro 2007 | 16h15

Harry Potter, herói da aristocracia intelectual esquerdista que se opõe à classe média materialista? Isso mesmo, diz o jornal francês Libération. Para acompanhar a publicação na França do derradeiro volume das aventuras do menino mago de J.K. Rowling, o maior jornal diário de esquerda da França dedicou a capa e mais duas páginas de sua edição desta sexta-feira, 26, a explicar "porque Harry Potter é de esquerda".   O jornal - que, como outros órgãos da imprensa nacional francesa, aparentemente nunca tem medo de parecer intelectualmente aristocrático - convidou o filósofo Jean-Claude Milner a somar suas reflexões às milhões de palavras de análise de Harry Potter já escritas em todo o mundo por estudantes, críticos e entusiastas.   Milner identificou uma reação à revolução de livre mercado instigada no Reino Unido pelos governos de Margaret Thatcher. "Lendo Harry Potter, temos a sensação de que, como muitos ingleses cultos, J.K. Rowling sente que houve uma revolução thatcheriana real e catastrófica e que a única chance que resta agora à cultura é sobreviver como ciência oculta", ele escreveu.   Milner identificou os "trouxas" - habitantes do mundo normal, não mágico - como a burguesia inculta que se beneficiou materialmente dos anos Thatcher e, depois, sob o governo de Tony Blair. "No mundo descrito por J.K. Rowling, havia os Trouxas, que representam a classe média thatcheriana-blairiana (abrangendo desde a baixa até a alta classe média), e os outros: o povo, as pessoas cultas e a aristocracia sem dinheiro - pessoas que se pode esperar encontrar nas escolas particulares de prestígio e na Universidade de Cambridge", disse o filósofo.   Milner disse que o mundo da cultura desinteressada defendido por Harry Potter e seus amigos na Escola de Bruxaria de Hogwarts, de elite, representa uma forma de oposição aos valores da economia de mercado, que só busca o lucro. "Como tal, Harry Potter é uma máquina de guerra contra o mundo thatcheriano-blairiano e o 'American way of life'."   A versão francesa do último volume da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte, começou a ser vendida à meia-noite.

Mais conteúdo sobre:
Harry Potter

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.