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Guerrilla Girls, artistas e ativistas feministas de NY

Grupo criado em Nova York ,em 1985, faz passagem pelo Brasil com suas performances

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

11 Novembro 2010 | 06h00

Elas só se apresentam em público com máscaras de gorila e usam pseudônimos para homenagear grandes mulheres - pintoras, fotógrafas, escritoras, artistas de diversas épocas, nacionalidades - mas mortas, como Paula Modersohn-Becker, Rosalba Carriera, Georgia O’Keeffe, Anais Nin, Meta Fuller, Tina Modotti, Diane Arbus; outras mais. Completando, ainda bradam um slogan: "Reinventando a palavra com ‘F’ - feminismo!"

 

O Guerrilla Girls, coletivo criado em Nova York em 1985, vem fazendo há tempos seu barulho no cenário das artes com sua atitude heterodoxa, panfletária e aos moldes do espetáculo. Chega agora ao Brasil para trazer sua mensagem ao público brasileiro em apresentações e workshops, no Rio e em São Paulo.

 

O grupo vem representado por duas de suas integrantes "originais", Frida Kahlo e Käthe Kollwitz. Hoje, às 19h30, as guerrilheiras feministas fazem apresentação no teatro do Oi Futuro Flamengo, no Rio (Rua Dois de Dezembro, 63, tel. 21- 3131-3060) como parte do evento Performance Presente Futuro vol. III, com curadoria de Daniela Labra. Os cariocas ainda poderão participar, no sábado, de dois workshops com as artistas, respectivamente, às 12h e às 14h. Depois, na terça-feira, às 16 h, elas estarão no terreiro O Outro, O Mesmo na 29.ª Bienal de São Paulo (www.29bienal.org.br). Ainda, no dia 19, o grupo faz palestra/performance às 19h30 no Sesc Pinheiros (Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400) como um dos destaques da programação da Mostra Sesc de Artes 2010.

 

"Somos um grupo de artistas mulheres que usa fatos, humor e visual chocante para expor sexismo, racismo e corrupção - no mundo da arte, na política e na cultura pop. Nós revelamos as entrelinhas, o subtexto, o que se faz vista grossa, o injusto", diz ao Estado a guerrilheira que se apresenta como Käthe Kollwitz, numa referência à artista alemã expressionista que deu voz ao sofrimento dos menos favorecidos. "Tentamos retorcer um assunto e apresentá-lo de uma maneira que não foi feita antes, com a esperança de mudar a cabeça de algumas pessoas", afirma ainda a Käthe contemporânea. Por exemplo, as Guerrilla Girls gostam de trabalhar com estatísticas, como a relacionada ao Metropolitan Museum, de Nova York - na coleção da instituição, elas dizem, menos de 5% dos artistas representados são mulheres na seção de arte moderna, mas 85% dos nus do acervo são femininos.

 

Quiz show. "Não é a performance no sentido comum, é um trabalho que tem a pretensão de ser didático mesmo ao levar questões sobre o feminismo relacionadas ao lugar em que se apresentam e ao estereótipo da arte", diz Daniela Labra. "Suas apresentações são como quiz show, no modelo americano, com textos que elas declamam e com perguntas feitas para o público", conta a curadora, completando que o grupo tem a favor a verve divertida e o uso de uma linguagem ligada à "mass media", muito contemporânea apesar do caráter panfletário.

 

Veneza. Em 2005, um dos marcos da trajetória do Guerrilla Girls foi a participação na 51.ª Bienal de Veneza, com curadoria das espanholas Maria de Corral e Rosa Martinez. Vestidas com suas roupas de guerrilheiras e de máscara de gorila, elas instalaram na cidade italiana grandes banners com suas mensagens e pesquisas. Mas as ações do grupo não se encerram apenas nas performances/apresentações. Elas escrevem livros, criam projetos para museus e objetos como pôsteres, camisetas, adesivos que podem ser comprados através do site do grupo (www.guerrillagirls.com) a preços na faixa dos US$ 20. Mais ainda, desde 2001 o grupo se dividiu em três ramos separados: há as ações ativistas do Guerrilla Girls (com apenas cinco integrantes); existe o chamado Guerrilla Girls On Tour, coletivo de teatro; e o GuerrillaGirlsBroadband, com ações na internet.

 

Como conta Käthe, do original Guerrilla Girls, nas atividades do grupo no Rio e por São Paulo elas usarão como base trechos de seu novo livro (ainda não publicado), The Guerrilla Girls’ Hysterical Herstory of Hysteria and How it Was Cured, from Ancient times Until Now. "Se de certo modo pode ser datada a questão do gênero e da bandeira gay, percebemos também que as estatísticas que elas mostram não mudaram e que a mulher ainda tem espaço a conquistar", diz Daniela Labra.

 

Para vir ao Brasil, as integrantes do coletivo Guerrilla Girls fazem uma pausa em seus novos projetos, como o filme feminista no qual elas visitarão escritórios de diretores de museus e de membros de seus conselhos "para lhes dizer uma coisa ou outra", como conta a guerrilheira Käthe Kollwitz.

 

Vocês acreditam que haja um espaço real para discutir hoje o feminismo? Poderia comparar o ativismo feminista hoje e mais de duas décadas atrás, quando foi criado o grupo Guerrilla Girls?

Essa é uma ótima questão. Vamos nos lembrar que o conceito de direito das mulheres tem apenas 150 anos. Sempre foi dois passos para frente e um para trás, mas o feminismo está mudando a vida das mulheres no mundo - muito, muito devagar na maioria dos lugares e, significantemente, em outros. O feminismo está também mudando no campo dos estudos, com pesquisas que englobam toda a sociedade. A propósito, consideramos ridículo que muitas pessoas que acreditam nas doutrinas feministas (pagamento equalitário para o trabalho, liberdade sexual, direitos humanos para as mulheres em todo o mundo, incluindo o direito à educação) têm sofrido uma lavagem cerebral por causa de estereótipos negativos na mídia e na sociedade e se recusam a se chamar, eles mesmos, de feministas. E homens, isso significa vocês também. É hora de intensificar, seja você mulher ou homem, trans, etc., e falar pelas mulheres. Os direitos femininos, os direitos civis, os direitos dos gays são os maiores direitos humanos, o movimento de nosso tempo.

 

Vocês consideram o Guerrilla Girls um grupo underground ou já do estrelato? Radical ou não? Como pode analisar a participação que fizeram na Bienal de Veneza de 2005, a mostra mais tradicional do mundo?

Recentemente, nós - as agitadoras outsiders - acabamos dentro dos museus que criticamos, como o MoMA de Nova York, a Tate Modern, em Londres. Mas continuamos fazendo projetos de rua ao redor do mundo, como em Roterdã, Cidade do México, Belfast, Bilbao, Istambul, Atenas, Xangai e Montreal, onde colocamos nossos pôsteres sobre os discursos agressivos contra mulheres de todas as idades. Nós decidimos participar de exposições e apresentações em museus porque queremos que nossa mensagem chegue ao público mais amplo possível e acreditamos que é ótimo criticar uma instituição em suas próprias paredes. Na Bienal de Veneza, exibimos seis grandes banners sobre a histórica discriminação da própria Bienal e dos museus de Veneza. Mais de 1 milhão de pessoas visitaram a nossa exposição atual no Centre Pompidou, em Paris. Sempre que nosso trabalho aparece em uma instituição como essa, recebemos toneladas de e-mails de pessoas falando que nosso trabalho lhes mostrou algo que elas nunca souberam sobre arte e cultura, e que nós as inspiramos a realizar o seu próprio, louco e criativo ativismo.

 

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