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Guardiães da intimidade

Acertados os detalhes do aluguel, comecei a gastar por conta, em São Paulo ainda, a felicidade que aquela temporada em Paris iria me proporcionar – e já me despedia quando a proprietária me reteve com uma derradeira instrução: nada de chamar o zelador de concierge, como sempre se usou dizer na França. 

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Humberto Werneck,
O Estado de S. Paulo

12 Janeiro 2016 | 02h00

– Virou coisa pejorativa, ele pode não gostar – explicou a senhoria. – Agora se diz gardien.

Por que a praga do eufemismo e do politicamente correto não haveria de vicejar numa cultura de língua afiada como a francesa? Também lá, na impossibilidade ou preguiça de melhorar a realidade, há quem busque edulcorá-la por meio de palavreado lustroso. Talvez até com excessos risíveis, como uns tantos que registrei aqui. Chamar funcionário de “colaborador” e empregada doméstica de “secretária do lar”, remunerando com retórica quem prefere aumento de salário. “Melhor idade” quando salta aos olhos que a pessoa concernida quase sempre está penando no oposto disso.

Espiche o ouvido em torno e capte formosuras como “força de trabalho” em vez de mão de obra. Dentistas e oculistas promovidos a odontólogos e oftalmologistas. Açougue que agora se pretende “casa de carnes”, assim como salões de manicure que, retocando também a linguagem, exigem tratamento de “esmalteria”. Outro dia, indo almoçar no Circolo Italiano, vi por ali um profissional da navalha que se anuncia como “arquiteto capilar”. Placas oferecem massagem nos pés como “reflexologia podal”. Chegaremos a chamar chulé de “fetidez podal”?

Por via das dúvidas, decidi não rebaixar a concierge o camarada que me recebeu no edifício em Paris. Atarracado, tinha de fato mais o physique du rôle de gardien, beirando o leão de chácara. Nem por isso diferia muito dos concierges de ambos os sexos com quem me tocou tratar nos anos em que vivi na cidade. Décadas depois, o perfil da categoria não mudou grandemente. Como em qualquer parte do mundo, zelador e zeladora têm que ser, até por imposição do ofício, implacáveis observadores da fauna habitante e circulante. Daí para a fofoca é um passo. Se bem entendi, gardien seria um concierge sem bisbilhotice e leva-e-traz. Existe isso?

Num velho edifício do boulevard Montparnasse, não logrei convencer a concierge de que eu era, sim, casado, no papel e tudo. “Votre camarade est là”, costumava ela anunciar à minha mulher, sem ser solicitada, com sobrecarga de malícia na segunda palavra. A julgar pelo que dela ouvi a respeito de outros moradores, imagino o que a criatura não terá espalhado sobre os brasileiros amasiados do 6.º andar. Esqueci o nome da víbora, mas não as brigas diárias que entretinha com mademoiselle Rakov, minha vizinha de porta, a propósito de invariáveis ninharias. Provocadora, fazia a velha búlgara esganiçar, limitando-se a ciciar, sorridente, a mesma devastadora palavrinha: “Ordure!”, lixo. 

No endereço seguinte, na rue Georges Pitard, estivemos sob o controle de monsieur e madame Dagois, ela empertigada e altiva, dona de pontiaguda finura, ele balofo e baixo – baixo em mais de um sentido, pois já no primeiro dia, tendo nos conduzido ao 22.º andar, deu um jeito de me levar à janela e, com sussurrante lascívia, mapear os apartamentos do edifício em frente em que, a horas tais e tais, havia garantia de mulher pelada. “Terceiro andar de cima para baixo, quinta janela da esquerda para a direita, pelas 6 da tarde”, ia ele despejando com voz roufenha de fumante antigo e bafo de vinho vagabundo. 

Eu não chamaria de gardien um bebum lúbrico como M. Dagois – de quem vim a encontrar um similar nacional quando me instalei no predinho paulistano onde vivo há 23 anos. Miúdo e seco, pernas arqueadas de alicate, raros dentes na boca que expelia bafo de pinga comparável ao vinho de seu colega francês, o simpático Antônio não precisou de mais de meia hora para pôr-me a par da intimidade pessoal, familiar, financeira e até sexual dos demais moradores do Condomínio Cosme e Damião. 

Entre eles, o Antônio tinha seu ídolo, um garotão discreto que praticamente não repetia moça, e que de cada uma sabia extrair, noite adentro, inequívocas manifestações de júbilo carnal, audíveis em todo o condomínio. “O senhor também ouviu?”, vinha o Antônio cochichar, olhinhos brilhantes e polegar empinado, como se fosse dele o desempenho do fauno do 3.º andar. Sem prejuízo disso, era impecável como zelador. Difícil imaginar factótum mais solícito e competente. Razão pela qual, minha cara senhoria parisiense, proponho deixar assim: tem concierge que é gardien, e vice-versa. 

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