Grupo Tapa encena 'A Moratória', de Jorge Andrade

Peça retrata a crise da aristocracia cafeeira, que perde bens e poder após a quebra da bolsa de valores de NY

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

20 Fevereiro 2008 | 18h00

Maria Della Costa é convidada de honra na estréia, na sexta-feira, 22, à noite, de A Moratória, espetáculo dirigido por Eduardo Tolentino, com o Grupo Tapa. Afinal, essa atriz, junto com seu marido Sandro Polônio, foi quem trouxe o italiano Gianni Ratto ao Brasil em 1954, o diretor da primeira e memorável montagem dessa peça de Jorge Andrade (1922-1984). "O texto intercalava dois tempos, era genial para a época, tinha assunto brasileiro e veio ao encontro de um desejo da companhia - a valorização da dramaturgia nacional", lembra Maria Della Costa.   Veja também: Confira a preparação da montagem de 'A Moratória' Leia ensaio do crítico Roberto Schwarz   A ação de A Moratória se concentra em três anos, entre 1929 e 1932, e retrata a crise da aristocracia cafeeira, que perde seus bens e poder após a quebra da bolsa de valores de Nova York, num Brasil que vive o início do processo de industrialização. Para tratar esse tema, o autor cria ações simultâneas em dois tempos e espaços: na fazenda, quando essa ainda é propriedade do patriarca Joaquim, interpretado por Zecarlos de Andrade, e na cidade, numa casa modesta, para onde a família mudou-se e vive à custa da filha Lucília (Larissa Prado). Comovente na temática, pela abordagem da História em seu aspecto humano, e moderna na forma, a peça conquistou a crítica.   "Foi um acontecimento absoluto. Saudado como perfeito, o espetáculo unia direção extraordinária de Ratto e dramaturgia de grande força", diz Fernanda Montenegro ao Estado, ao recordar a montagem na qual fazia o papel de Lucília, moça que sustenta a família debruçada sobre a ‘máquina’ de costura. "Bom que o Tapa, grupo de reconhecido rigor artístico, encene novamente esse texto. É o nosso Jardim das Cerejeiras. Tem algo de Chekhov na forma como esse autor olha o ‘demorado adeus’ dessas pessoas sobre um tempo que chega ao fim."   Dois tempos simultâneos? Impossível não pensar em Vestido de Noiva. "É influência assumida. Foi Décio de Almeida Prado quem recomendou a Jorge Andrade que lesse a peça de Nelson Rodrigues como inspiração de solução para os tempos diferentes", diz Tolentino. Curiosamente, o Tapa realizou uma montagem de Vestido de Noiva na qual quebrou os três planos da famosa encenação de Ziembinski. Agora, faz o mesmo com A Moratória. "Qualquer novela hoje tem flash back, ações simultâneas, corte no tempo. A capacidade e velocidade de compreensão do espectador mudou", argumenta Tolentino.   Na montagem de Ratto havia duas salas, a do passado e a do presente. Agora, apenas um ambiente, com detalhes como uma toalha de renda em diagonal que deixa parte da mesa nua, ou seja, mais pobre. O espectador atento perceberá ainda, na cenografia, linhas retas e diagonais separando tempos. "É sutil, talvez nem dê para notar, mas ajuda o olhar", diz Tolentino. Os sinais da ação do tempo, e do diretor, sobre a encenação não se limitam à cenografia. Sérgio Britto, que interpretou Olímpio, o noivo de Lucilia sob direção de Ratto, viu um ensaio e não poupa elogios a Tolentino.   "É uma montagem para os tempos de hoje. O embate entre pai e filho (Augusto Zacchi) ganha uma outra fúria. Era bom na montagem do Ratto, mas agora a relação pai e filho ganha força extraordinária", diz Britto. "O filho é o próprio Jorge Andrade. Ele me contou que o pai dele, ao ver a peça, disse: meu filho, só agora eu entendi", lembra Fernanda Montenegro. Britto chama atenção também para o tratamento dado por Tolentino ao noivo. "Era o pior papel da peça. Eu me sentia apenas um doador de deixas para a Fernanda", relembra Britto. "Isso foi algo que o Ratto não conseguiu resolver. Mas bastou o Tolentino colocar atração sexual entre os noivos e o personagem do Olímpio ganhou vida, humanidade."   Numa das cenas entre Lucília e Olímpio, ela pede que ele a abrace forte. Tolentino criou um beijo entre eles nesse momento. "Teve uma pessoa que viu o ensaio e comentou que esse casal não se beijaria. Ora, namorados se beijam desde Adão e Eva", diz Tolentino. "Claro, talvez não na frente de todo mundo, mas esse é um momento de explosão de sentimentos! O teatro brasileiro da década de 50 era o teatro da palavra, havia um recato no palco, regras de bom tom. Mas o conflito de Lucília, que termina o noivado para se dedicar à família, fica mais forte se ela ama e deseja esse homem."   Como se sabe, o passado muda a cada vez que se olha para ele. Daí a importância de rever clássicos. O que faz da Moratória um deles é a força dessa narrativa que se constrói na interseção entre o público e o privado, e ajuda a compreender o Brasil. "Nesses três anos, estão comprimidas forças econômicas hoje hegemônicas no País. Começa aí o poderio de São Paulo", diz Tolentino.   Ano passado, o Estado acompanhou um ensaio que contou com a presença do crítico Antonio Candido, e rendeu reportagem publicada no Caderno 2, dia 17 de setembro. Criada para um evento em homenagem à ensaísta Gilda de Mello e Souza (1919-2005), em Araraquara, a apresentação foi precedida de palestra do crítico Roberto Schwarz, cujo texto foi publicado no suplemento Cultura, dia 30 de dezembro.   A Moratória. Teatro Sesc Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, telefone 3234-3000. Sexta e sábado, 21 h; domingo, 19 h. 90 min. R$ 20. Estréia sexta

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