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Gramado promove mescla entre longas de fácil comunicação com o público e 'filmes cabeça'

Estratégia da nova curadoria do festival ficou clara durante a exibição de 'O Que se Move'

LUIZ ZANIN ORICCHIO - O Estado de S.Paulo,

17 Agosto 2012 | 03h08

GRAMADO - Durante a apresentação de O Que se Move, de Caetano Gotardo, ficou clara a estratégia da nova curadoria do festival: mesclar filmes de comunicação mais fácil com o público a outros que lhe exigem toda a paciência e atenção. É bem o caso desta talentosa estreia no longa-metragem do diretor paulista. A própria produtora, Sarah Silveira, já havia advertido, na apresentação do concorrente, que seria preciso atenção para com o "tempo do cinema", e paciência para poder aproveitar a proposta do filme.

São três histórias de perdas e separações, entre mães e filhos, mas o tema, ou melhor, o enredo, aqui é o que menos importa e sim a maneira alusiva e porosa de contá-lo. O Que se Move é uma obra de sensações, de sutilezas, de palavras não ditas. Ou de palavras fundamentais que se escondem nas entrelinhas de outras palavras. Exige do espectador uma imersão dedicada e uma sensibilidade antenada muito mais naquilo que está implícito do que na superfície do filme. Nesse sentido, foi um erro passá-lo no último horário de uma sessão massacrante, com um longa latino antes, dois curtas e várias homenagens e discursos cansativos. É como obrigar o público a disputar os 400 m com barreiras depois de correr uma maratona. Não dá. É filme a ser observado, e fruído depois, em condições mais humanas.

O longa latino da noite, o cubano Vinci, de Eduardo Del Llano Rodríguez, não chega a ser uma decepção, mas se poderia esperar coisa melhor do cinema cubano. É um trabalho de locação única, uma masmorra infecta em Florença, onde Leonardo da Vinci é jogado, acusado de sodomia. Vê-se em companhia de dois presos, um ladrão e um assassino, que se entusiasmam com a chegada do colega moço, boa-pinta e bem vestido. Leonardo só tem a sua arte a ajudá-lo em sua sobrevivência e, do seu convívio com dois seres brutos, surgirão diálogos interessantes e revelações inusitadas.

Claro, até pela proposta, Vinci é teatro filmado. Em cena, Leonardo, os dois condenados e apenas mais um personagem, o carcereiro. E, bem, alguns ratos. O melhor são alguns dos diálogos inteligentes, uma discussão sobre a utilidade (ou não) da arte. Sobretudo em condições árduas como as descritas. Será preciso dizer que, apesar de não vivermos em calabouços medievais, esta questão está sempre presente? Um gosto pelo grotesco e a interpretação estereotipada de um dos presos diminui o interesse pelo filme.

Entre os curtas: Funeral à Cigana, de Fernando Honesko, começa muito bem, com a ambientação entre a comunidade cigana interpretando a si mesma. A história é a de um funeral on the road, pois o defunto havia expressado o desejo de ser enterrado no local onde nasceu. Mas o filme carece de uma estruturação melhor e, tal qual uma caravana perdida, parece não saber para onde ir.

A Mão Que Afaga, de Gabriela Amaral Almeida, é uma das melhores surpresas do festival. Põe em cena uma operadora de telemarketing e sua necessidade de fazer uma festa de aniversário para o filho. Há poucos convidados e ela providencia um desses atores vestidos de ursinho para animar a festa. Melancolia brutal.

Até aqui, com o festival chegando próximo ao fim (hoje passam os últimos concorrentes, amanhã será a entrega dos Kikitos), Super Nada, de Rubens Rewald, é o melhor longa brasileiro. Artigas - La Redota, de Cesar Charlone, o melhor estrangeiro. A seleção de longas-metragens brasileiros é muito boa, a de curtas, excelente, e a de longas latinos continua a dever.

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