Graciliano Ramos não sofreu com a transposição de livros para o cinema

Adaptações dos romances e memórias para o cinema estão à altura das obras

ANTONIO GONÇALVES FILHO,

19 Outubro 2012 | 19h00

Ao contrário de Guimarães Rosa, que não deu muito sorte com as adaptações de seus livros para o cinema, Graciliano Ramos não sofreu com a transposição de suas obras-primas, duas delas dirigidas por Nelson Pereira dos Santos, um dos nomes que ajudaram a consolidar a estética do Cinema Novo nos anos 1960. Vidas Secas, realizado por ele em 1963, foi o único filme brasileiro indicado pelo British Film Institute como essencial numa cinemateca de 360 obras de autor (selecionados em 1998). Indicado à Palma de Ouro em Cannes (1964), Vidas Secas conserva a mesma austeridade do romance que lhe deu origem, ao narrar a vida de retirantes da seca em luta pela sobrevivência num meio hostil. A trajetória da família de Fabiano é filmada em preto e branco (mais realista que o filme em cores), destacando-se os amplos espaços por onde circulam essas figuras miseráveis acompanhadas pela cadela Baleia.

A segunda adaptação de Graciliano para o cinema, São Bernardo, dirigida por Leon Hirszman em 1972, é igualmente um filme rigoroso, contido, seco, em que a transformação do personagem Paulo Honório - de guia de cego em latifundiário - associa sutilmente seu enriquecimento material à deformação moral. O ator Othon Bastos domina a tela até a primeira metade do filme, quando surge outra personagem forte, a da mulher com quem se casa (Isabel Ribeiro, numa performance inesquecível).

Finalmente, Memórias do Cárcere (1984) não é apenas o drama biográfico sobre o escritor, preso em 1936 sob a acusação de colaborar com a Aliança Nacional Libertadora. Mais uma vez, Nelson Pereira dos Santos se entrega à difícil tarefa de adaptar Graciliano para o cinema, contando com Carlos Vereza no papel do escritor. O diretor usa a cadeia como metáfora, onde Graça luta contra seus preconceitos, interagindo com ladrões e outros marginais, construindo um retrato do Brasil aprisionado ao passado. O diretor Sylvio Back pretende filmar Angústia, mas o projeto ainda não saiu do papel. 

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