Graças da linguagem figurada

"Sou estéril e pratico em ti a arte de dar à luz." A frase de Sócrates é dirigida ao jovem Teeteto, com quem troca ideias. Foi retirada do diálogo platônico (157c) que leva o nome do discípulo. Nele discute-se o que é o saber (episteme). Apesar de cada elemento forte da frase chegar ao leitor enobrecido por alta taxa metafórica, ela não é de difícil entendimento.

SILVIANO SANTIAGO,

13 Outubro 2012 | 03h55

 

De maneira inesperada, o mestre afirma ao discípulo que os deuses o tinham privado da força de gerar um pensamento vivo. Se ele se autodefine como estéril, também é do seu agrado confessar a própria ignorância. Em outra passagem, Sócrates reanima os dois traços e soma a eles, de modo paradoxal, a eficiência no parto das ideias: "O deus que me obriga a dar à luz impediu-me de produzir. Não sou, portanto, de modo nenhum sábio, nem tenho descoberta que venha de mim, nascida da minha alma; mas alguns moços, da minha convivência, parecem incapazes de aprender a princípio, mas, à medida que o convívio avança, espanto-me com quanto produzem aqueles a quem o deus permite". Acrescenta: "Fique claro: nunca aprenderam nada de mim; descobriram por conta própria e deram à luz muitas e belas coisas".

 

Ao atar a ponta da esterilidade com a da improdutividade, o mestre aviva a necessidade de expressar com autenticidade o que se aprende (e como ele aprendeu!) na leitura dos filósofos. Por não querer desviar ou canalizar a recapitulação das ideias alheias em favor do próprio trabalho, o saber que Sócrates transmite ao discípulo é sempre respeitoso da palavra dos sábios antigos e circunscrito a ela. Há uma identidade prática entre a busca do saber pelo discípulo e a sabedoria (sophia) que vem do mestre. Continua ele: "Dou-te a provar cada uma das teses dos sábios, até conseguir trazer a tua opinião para a luz".

 

O ensinamento de Sócrates não se volta para ele mesmo. Dirige-se à mente do moço que, pela força dos deuses, é fecunda. A alguém que, graças ao trabalho de parteira que o sujeito estéril e ignorante pratica, dá à luz o saber filosófico vivo e novo.

 

O mestre é mensageiro. Se a letra dos sábios antigos for transportada por ele aos ouvidos do discípulo, ela os engravida, inseminando ideias verdadeiras e falsas. O caudal da palavra filosófica deságua indiretamente na fertilidade do pensamento do jovem Teeteto que, se e quando prenhe de saber, irá requerer a presença do mestre como parteira. Por ser "incapaz de produzir saberes", Sócrates como que ausculta as dores de parto por que passa o discípulo. Diz: "Faço perguntas aos outros, enquanto eu próprio não presto declarações sobre nada, porque nada tenho de sábio".

 

A incapacidade de procriar poderia ter impedido o mestre de ser parturiente. Protetora dos nascimentos, Artêmis não deu à mulher estéril a arte de dar à luz "por a natureza humana ser mais fraca para adquirir uma arte na qual não tem experiência". Parteiro contra a lei divina, Sócrates pede ao discípulo para não denunciá-lo à comunidade, "pois é segredo que possuo essa arte". Corre por aí "que sou muito esquisito e causo espanto aos homens". Ainda no seu dizer, a boa parteira é a que mais facilmente reconhece as mulheres que estão grávidas.

 

Por ser mensageiro, Sócrates tem pacto amoroso com o "go between", dramatizado por Joseph Losey em filme. É a mais hábil casamenteira. Aliás, uma parteira tem mais orgulho em encontrar a mulher ideal para cada tipo de homem do que em cortar o cordão umbilical (149d). A excelência da cria advém do bom e frutífero entrosamento entre genitores. Que corrente filosófica privilegiar numa discussão? Aos discípulos que parecem não de todo prenhes - esclarece ele a Teeteto -, "faço-me de casamenteiro e, com muito boa vontade e a ajuda do deus, adivinho bastante bem de que companheiro se beneficiaria. Alguns companheiros eu ofereci a Pródico e outros a muitos homens sábios e inspirados".

 

Mas Sócrates tem de se precaver. Por a casamenteira ser associada ao lenocínio, muitas parteiras evitam se desdobrar: por uma atividade podem ser acusadas da outra. A prática de vida de Sócrates, sua arte de ensinar se assenta, pois, num duplo segredo que partilha com o discípulo eleito.

 

Confessa Sócrates: "Os que se associam a mim sofrem algo idêntico às mulheres que estão a dar à luz; de fato, têm dores de parto e durante noites e dias ficam cheios de dificuldades, e com muito mais dores que elas; mas a minha arte tem o poder de provocar a dor de parto e de fazê-la parar". Não para aí o trabalho da parturiente: "nossa arte está em poder verificar completamente se o pensamento do jovem pariu uma fantasia ou uma mentira, ou se foi capaz de gerar também uma verdade autêntica".

 

Aprender é tornar-se mais sábio acerca do que se aprende (145d). Ordena Sócrates a Teeteto, em quem entrevê as dores do parto: "Entrega-te, então, a mim e àquilo que eu te perguntar e empenha-te a responder como fores capaz". O parto se dará por realizado quando Teeteto tiver conseguido apreender todos os saberes numa única definição de saber.

 

Antes, Sócrates dera início à apresentação dos pretendentes ao jovem. A amostragem dos discursos filosóficos contraditórios dos antigos tem seus encantos e uma finalidade: o diálogo revelará que "o saber não é apenas percepção", como acredita inicialmente Teeteto, seguindo o caminho aberto por Protágoras e complementado por Heráclito (percepção é fluxo). O saber não está, pois, no fluxo associado à percepção, mas no raciocínio sobre o ensinamento de Protágoras e de Heráclito, que visa a apreender a verdade (186d). O saber é opinião verdadeira.

 

No entanto, a dificuldade maior é "a daquele que, tendo a posse do saber, ignora o que sabe não devido à sua ignorância, mas em razão do seu próprio saber" (199d). Graças do texto filosófico.

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