Geisel apoiou mortes na repressão militar, revela livro

A história dos cinco livros do jornalista Elio Gaspari sobre o regime militar começa com um tríptico cujo primeiro volume acaba de chegar às livrarias, O Sacerdote e o Feiticeiro - A Ditadura Derrotada (Companhia das Letras, 544 págs., R$ 49,50). Conforme narrou anteriormente, em agosto de 1984 o autor terminara o prazo de uma bolsa que recebera do Wilson Center for International Scholars para escrever um ensaio que teria cerca de cem páginas. Desistiu do ensaio e decidiu escrever um livro, que se desdobrou em três (os outros dois volumes de O Sacerdote e o Feiticeiro ainda virão) e mais dois livros "introdutórios", que receberam o nome comum de As Ilusões Armadas. O novo volume, que foi distribuído apenas ontem para os jornalistas, narra o processo de "eleição" (com um único voto, do presidente Emilio Garrastazú Medici, em 1971) de Geisel (na foto ao lado, em destaque) para a Presidência, a montagem da equipe e os primeiros meses do governo, tendo a última parte (são quatro, divididas em vários capítulos) dedicada à vitória do partido de oposição, o MDB, nas eleições de 1974. "Em dois outros livros (A Ditadura Envergonhada e A Ditadura Escancarada) procurei contar a história do consulado militar desde a deposição do presidente João Goulart, em 1964, até a caçada dos guerrilheiros do Partido Comunista do Brasil, nas matas do Araguaia, em 74. Neste, vão narradas as vidas de Geisel e Golbery, a articulação que os levou ao Planalto, a formação do governo e seu caminho até a eleição de 1974, na qual a ampla e inesperada vitória da oposição alterou o curso da ditadura", escreve Gaspari na introdução à obra. As vidas de Geisel e Golbery, e principalmente, a trajetória de ambos dentro do Exército, abrem a obra. Entre os fatos pessoais da vida do presidente (em 1957, ainda coronel), um deles trata da morte de seu filho, Orlando, apanhado por uma composição quando atravessava uma linha de trem. "A morte do filho alterou a noção que Ernesto Geisel tinha da própria existência. Trouxe-lhe um sofrimento que nenhum sucesso haveria de eliminar", escreve Gaspari. Um dos momentos mais interessantes do livro é o da mudança de um discurso que oficializou a candidatura de Geisel - com o candidato evitando alguns "excessos" de Golbery em fazer referências à tortura. Entre todos os relatos contidos nos documentos e gravações feitas à época por Heitor Ferreira (222 horas), secretário particular de Geisel, uma ganha uma capítulo especial no livro. Trata-se da "mais demorada e reveladora" conversa que Geisel teve com um de seus futuros ministros, Dale Coutinho (Exército). Nela, Geisel e Coutinho discutem políticas de repressão, terminando com o futuro presidente recomendando a unificação. Em determinado ponto, Geisel afirma: "Porque antigamente você prendia o sujeito e o sujeito ia lá para fora. (...) Ó Coutinho, esse troço de matar é uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser." E Coutinho responde: "Eu fui obrigado a tratar esse problema lá e tive que matar. Tive que matar. Outro dia ainda tive uma satisfação que, no último relatório do CIE, a origem, o fio, o início da meada dessa guerrilha lá em Xambioá começou num estouro que nós fizemos em 72 lá em Fortaleza. Foi dali que um falou que tinha guerrilheiros no norte de Goiás, não sei o quê" (ele refere-se à guerrilha do Araguaia, tema do último capítulo de A Ditadura Escancarada). A censura é outro assunto fundamental do novo livro, uma vez que a própria escolha do sucessor de Medici tornou-se assunto proibido para a imprensa. Gaspari revela conversa de Golbery com Julio de Mesquita Neto, do Estado, em 1973, em que o general "insinuava o fim da censura e pedia que se evitassem turbulências até a posse de Geisel". "Duas semanas depois Geisel receberia um aviso: o Dops gravara a conversa de um encontro com Golbery com os irmãos Julio e Ruy Mesquita, em São Paulo. Golbery pediu a gravação e soube que não era a conversa que havia sido gravada, mas um telefonema de Julio para o irmão, Ruy. De acordo com o relato de Heitor Ferreira, Geisel, ao receber o texto da gravação, teria reagido afirmando: "O primarismo dessa gente é o seguinte, Heitor: eles são contra O Estado de S.Paulo. Querem massacrar O Estado de S.Paulo, mas não têm coragem de chegar e liquidar o jornal." Entre os casos de censura narrados, um, em junho de 1974, é quase paradoxal: foi proibida a divulgação da declaração de um deputado que estivera com Golbery e que ouvira dele que a censura acabaria.

Agencia Estado,

05 Novembro 2003 | 11h39

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