Garimpo sentimental

Algo impossível num e-book: passar a página do livro e topar com uma relíquia

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2017 | 02h00

O termo técnico, eu não sabia, é “apenso” - e aqui está o Houaiss para me esclarecer: “Documento, nota, etc. que se apensa, anexa a uma obra; anexo, suplemento”. Em linguagem de biblioteconomia, é esse o nome que se dá a tudo aquilo que se guarda ou simplesmente se esquece entre as páginas de um livro. 

São, na maioria, irrelevâncias do cotidiano - mas pode ser também alguma coisa cujo encontro ou reencontro, quase sempre casual, tem o poder de nos encantar, divertir, emocionar, às vezes mais que o próprio livro onde foi parar. Fotografias, cartas, bilhetes, cartões-postais, recortes de jornal ou revista, recibos, folhas e flores ressecadas, cartas de amor e desamor, o que caiba, enfim, entre duas folhas de papel. Ainda não fiz por merecer, mas pode ser até algum dinheiro ainda circulante, suficiente para adquirir, ali no sebo, o volume onde a cédula, convertida em pasto de ácaros, chegou a duvidar de seu próprio valor.

Não vá pensar, por favor, que sou apenas um compulsivo garimpeiro de apensos (incorporemos de vez a palavra), dado a sacudir velhos livros em sebos e bibliotecas para ver o que deles pode cair. Só um pouco. Mas não escondo a alegria que me dão certos encontros inesperados, desses que nenhum e-book (nada contra) poderá proporcionar. 

Dia desses, por exemplo, ao folhear A Pesca da Baleia, de João Alphonsus, na barafunda de meus livros, topei com uma folha de papel na qual, aos 17 anos, registrei o que considerava serem os fatos marcantes da minha vida àquela altura - a começar pela incorporação, minutos antes, da primeira máquina de escrever, tão boa que haveria de ser também a última, uma Olivetti Lettera 22 hoje ociosa, mas capaz ainda de operar. 

Volta e meia acontece, e, quando acontece, a descoberta me devolve uma fatia de passado à qual não sou indiferente. No meu exemplar encadernado de O Ex-Mágico, de Murilo Rubião, certa vez achei, recortado de jornal, um convite para a missa de sétimo dia de um camarada chamado Humberto Werneck. Como esse e outros retalhos de papel, agora relíquias, foram parar ali? Desconfio que andei eu mesmo, qual coelhinho da páscoa, engatilhando surpresas para mim mesmo.

Há também as surpresas não premeditadas, aquelas que outra pessoa botou ou esqueceu entre as páginas de um livro. Disso entende mais que eu o Ricardo Lombardi, jornalista que há alguns anos trocou as redações onde brilhava por um sebo dos mais simpáticos, o Desculpe a Poeira, numa ruazinha do bairro de Pinheiros. É como profissional que o Ricardo lida com tais surpresas, para ele cotidianas. 

Mas não só como profissional, acredito eu. Se assim fosse, ele jogaria fora a tralha, em vez de acomodá-la num canto de sua livraria, na qual, aliás, não se nota a tal poeira anunciada no nome da casa. Guardador de apensos que o acaso faz chegar a suas mãos, o Ricardo tem planos de organizá-los numa exposição.

 

O que mais aparece ali, ele conta, são “coisas do cotidiano”, como receitas médicas, recibos de transações miúdas, ingressos de cinema e teatro. Ou cartões de embarque, que lhe proporcionam outro tipo viagem, na qual se põe a imaginar livros sendo lidos nas alturas ou nas esperas em algum aeroporto. Com isso teriam a ver, quem sabe, uns pesos uruguaios que o imponderável depositou em suas mãos. Ou mesmo aquele dinheirinho brasileiro, cédulas hoje aposentadas pelo Tesouro Nacional e que, quando na ativa, terão voado a bordo de quadrimotores também já fora de circulação. 

Um lacônico telegrama, do qual o Ricardo me mandou reprodução, encontrado em meio à trama de um romance impresso, autoriza imaginar história real, bastidores de família por detrás de apenas seis palavras: “Preocupada como vai me telefona Mamãe”. Também mexem com ele as juras de amor eterno com que às vezes se depara, sob a forma de bilhetes ou, mais frequentemente, dedicatórias: será que ainda está no prazo de validade o sentimento que ditou aquelas palavras peremptórias, cuidadosa ou fogosamente manuscritas? 

Sei de quem, fuçando em sebos, encontrou certidões de nascimento e casamento, e mesmo de descasamento, do tempo em que, não existindo divórcio, os casais de desquitavam. No capítulo das bizarrias, e eis o que não falta no universo dos apensos, lembro-me de ter lido sobre um alfarrabista americano que achou receitas culinárias em quantidade suficiente para com elas rechear e publicar um volume encorpado. Curiosamente, boa parte delas chegou ao sebo no bojo de dicionários. Difícil imaginar o mestre-cuca que, ao lado do fogão, abra também, além de livro de receitas, um dicionário. 

Ou não? Pensando bem, pode fazer sentido, sobretudo se o autor de uma obra e outra for Antonio Houaiss, imbatível lexicógrafo que foi também gastrônomo dos mais refinados. Tendo lambiscado num de seus livros nessa especialidade, estou em condições de afirmar que uma receita de Antonio Houaiss pode, sim, exigir recurso ao dicionário: afinal, ao se deparar com um passo em que se fala da “consistência levitante da massa”, de que outra forma poderá o pobre cozinheiro saber que se trata apenas daquele prosaico ponto do cozimento em que o alimento em preparo cresce, fervente, panela acima, ameaçando transbordar? 

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