Frank versus Michel

Ambos são cínicos. Ambos não têm respaldo popular, nem representatividade

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2017 | 02h00

Muitos comparam a situação do Brasil atual à popular série da Netflix, House of Cards, que mostra bastidores e podres da Casa Branca, durante o governo tampão de um ex-vice, Frank Underwood (Kevin Spacey), conspirador “full time”, que assumiu depois que o presidente eleito legitimamente renunciara por “questões pessoais”.

No entanto, a humanidade do pactuado americano com o tinhoso prova, de longe, que as algumas intenções e artimanhas de Frank são melhores que as de Michel, apesar de ambos necessitarem de todos os recursos e cheques em branco para se manter, doa a quem doer, no Poder.

Ambos são cínicos. Ambos não têm respaldo popular, nem representatividade. Vieram de baixo, com mandatos no Congresso, sem votações expressivas. Marionetes. Leais ao partido. Ambos afirmam que aproveitarão o mandato tampão para promover reformas consideradas impopulares, que um político interessado na reeleição não teria coragem de realizar.

Ambos os países atravessam uma crise financeira sem precedentes. E começam as diferenças. Frank come num pé-sujo de bairro, o que há de mais americano, costeleta com molho de barbecue. Michel é daqueles que, como seus pares, esbanja-se por restaurantes franceses na Capital da Luz e fica em hotéis cuja diária é por volta de seis dígitos.

Frank é um democrata. Michel vem das fileiras de um partido despolitizado, fisiologista, regional, cujo único projeto de Nação é estar como um organismo oportunista vinculado a quem estiver na cadeira, de neoliberais à esquerda petista, em conluio com federações de indústrias, apoiado numa base forte de evangélicos, ruralistas e quitais.

Frank mora na Casa Branca. Datilografa as próprias cartas. Cozinha a própria comida. Michel não deve nem saber onde é a cozinha do seu palácio. Frank engraxa seu próprio sapato. Michel deve ter um esquadrão de vassalos para isso. 

A primeira-dama americana, Claire (Robin Wright), como a de Michel, Marcela, chama atenção pela beleza exuberante. Claire é especialista em política internacional, chega ao cargo de embaixadora americana na ONU e negocia com o líder russo, obviamente inspirado em Putin, desde a soltura de ativistas gays até missões de paz no Oriente Médio. 

Marcela? Bem... Chama atenção pela beleza exuberante.

Frank quer criar empregos. Entende que o maior problema do país saído da crise de 2008 é o esmagamento da população mais vulnerável, os mais pobres, e da classe média. No entanto, o respeito ao orçamento federal, previamente aprovado pelo Congresso e que não pode ser tocado, em hipótese alguma, engessa seu sonho. Longe de se apropriar dele, Frank é o primeiro a defender que as metas devem ser respeitadas.

Acaba realizando uma pedalada questionável, mas eticamente popular. Decreta o desemprego uma catástrofe. E abre o cofre da FEMA (Agência Federal de Gestão de Emergência), organismo responsável por monitorar desastres ambientais, como furacões, tormentas, enchentes. O equivalente à nossa Defesa Civil.

Seu projeto, o AmWork, ganha apoio de líderes de movimentos civis, já que os negros são os mais afetados pela recessão, e até por parte da bancada republicana. Pretende, como o New Deal, de outro democrata, Franklin Roosevelt, de 1933, recuperar a paralisada economia americana e empregar mais de 50 mil chefes de família com dinheiro federal e investimento em infraestrutura.

Acontece que um furacão se aproxima da Costa Leste. A FEMA precisa da verba afanada. O Congresso acaba com a “farra fiscal”. Devolve a verba a quem pertence. Frank perde seu programa de emergência, mas ganha uma bandeira que o dá motivos para se candidatar e fortalecer sua campanha à Presidência.

A recessão em Michel apertou. O desemprego em Michel cresceu. Programas sociais em Michel foram empastelados. Michel retirou, não se sabe de onde e sem o menor constrangimento, R$ 4 bilhões para pagar emendas parlamentares e assegurar seu mandato, questionado por inquéritos policiais, improbidade e denúncias de corrupção. Pagou para se manter no Poder.

Sua meta fiscal é mais revista do que a escalação de um time à beira do colapso do rebaixamento. Apesar da recessão, gasta demais, muito acima do previsto. 

Frank nem ousa utilizar verba publicitária para defender o seu programa. Michel usa e abusa de uma verba sem controle, para defender um governo eticamente deprimente e indefensável, com os maiores índices de rejeição já registrados.

Frank é um assassino. Matou uma amante e organizou uma trama em que levou ao suicídio de um concorrente. A psicopatia dos pares de Michel tem cores evidentes, apesar das negativas: malas com verdinhas em bolos com elástico, se em moeda americana, ou azulzinhas, da moeda local, in cash. 

Segundo inquérito da Polícia Federal, sua ganância é incomparável a qualquer político mundial; mesmo os das maiores economias do planeta. Ou talvez ele seja o elo arrecadador de uma grande gangue, o que é negado por delatores, que afirmaram querer tudo para si.

Mas Frank é uma ficção inspirada na realidade política atual. Michel é a realidade política atual e, infelizmente, seus atos não são inspiradores nem de mentirinha. A realidade, no caso, é pior que a ficção. Bem pior.

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