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Flor que se cheire

Humberto Werneck

Volta e meia a memória regurgita a história do pai de uns amigos meus, cinco marmanjos que, largadões na sala, o viam passar, rumo ao jardim, com o regador em punho. “Lá vai o velho molhar as coisas...”, ciciava um deles, enquanto na roda circulava um dos cigarros que, como tudo o mais em suas vidas, eram peritos na arte de enrolar. As “coisas”, nem preciso ser tão explícito, eram uns pés de cannabis sativa por eles plantados e que o chefe da família, engenheiro aposentado, nem na juventude teria sido capaz de distinguir de qualquer outro pé de mato.

Embora tenha atingido esse estágio da vida em que senhores de agenda rarefeita vêm a descobrir a jardinagem, ainda não posso me permitir tais vagares de varão desativado. E devo confessar que, entre outras coisas, com ou sem aspas, eu saberia reconhecer, sim, um pé de cannabis. Mas não é menos verdade que de uns tempos para cá dei de me interessar por plantas em geral. Digamos que entrei numa modalidade benigna de estado vegetativo.

Semanas atrás, andei atormentando amigos e familiares em busca de saber o nome da rosa miúda que a Bia colhe no jardim do prédio quando vem para o batente da faxina. Camélia, apostou um deles. Ranúnculo, cravou uma querida amiga. Rosa pura e simples, seu ignorante, afirmaram outros a quem propus a questão, até agora não esclarecida. Segue em aberto – e eis que outra se coloca: como se chama este arbusto, cada dia mais impetuoso, como que disposto a tomar conta da minha área de serviço com sua fartura de folhas verdes graúdas e lustrosas?

Postado no Facebook e espalhado por WhatsApp e email, o enigma, devidamente ilustrado, desencadeou imediata chuva de hipóteses e afirmativas. A Hortense, mesmo com as credenciais que lhe conferem seu nome floral, não quis arriscar palpite, mas se dispôs a ir atrás de saber, o que fizeram também a Wanda, a Patrícia e o Ésio. Abacateiro, suspeitaram a Lia e a Maria Carmen. Gaiato, o Alex baseou-se no visual da área de serviço para inventar uma Kitchnettys Ladrilius Angustifolia. Sem muita convicção, o Edison e a Miriam votaram na seringueira. Taioba?, indagou o Fernando, talvez desenterrando lembranças da Mariana pré-Samarco onde nasceu. Foi o bastante para que outro mineiro, o Moisés, se ouriçasse com a possibilidade de vir um dia a comer taioba sob o teto do cronista. Quanto à Goretti, por pouco não semeou cizânia entre a irmã e o cunhado, ambos agrônomos, pois entre os dois brotou discórdia botânico-conjugal. Até por isso valeria a pena acolher a sugestão do Glebson, endossada pela Adalberto, de instalar o Pl@ntNet, aplicativo capaz de identificar espécies vegetais – o que ao menos pouparia meus amigos dos seguidos enigmas que nesse departamento lhes venho propondo.

Pl@ntNet em forma de gente, lá em Poços de Caldas o Teodoro suspendeu por um instante seus pincéis e, fazendeiro além de artista plástico, votou numa tal de cheflera – certeza compartilhada pelo Thomas, a Renata e o Djair. Alguém falou em brassaia. É só outro nome dessa planta, volveu o Teodoro, enquanto o Caio confirmava até em língua morta: Brassaia actinophylla é a mesmíssima Schefflera actinophylla, planta da família das Araliaceae, nativa das florestas tropicais chuvosas da Austrália, Nova Guiné e Java – o que, a meu ver, confere caráter internacional a minha área verde doméstica. Como veio parar nos meus humildes domínios? Cocô de passarinho em vaso não sanitário, fulminou um desmancha-prazeres.

Debaixo do latinório onomástico, pode ser que você não esteja ligando o nome à pessoa, quer dizer, à planta, que atende também por cheflera-da-folha-grande, árvore-guarda-chuva e árvore-polvo. Árvore? Sim, alertou o Tiago, que além da câmera fotográfica pilota um blog, o Naturaleza, adubado com “histórias que deixam as cidades mais verdes e gentis”: a cheflera ou brassaia pode espichar-se por mais de 5 metros. (Por ora, temos aqui 85 cm de altura.) Bela planta, adjetivou o poeta Nicolas, recomendando imediata troca de vaso, “pois as raízes devem estar atrofiadas”. O mesmo disse a Lúcia Helena, acrescentando que minha cheflera irá longe se o dono lhe proporcionar “um vaso generoso”.

Assim será feito, Lúcia. Acondicionada em leito menos acanhado, a criatura deixará em breve a área de serviço para ser entronizada na sala do apartamento, conforme sugeriu o Paulo, e ali, a crer no que me disseram, dará um dia fruto e até flor que se cheire. Quem não está gostando da ideia é a Bia, que já havia reagido mal quando falei em levar a planta para o jardim da casa do meu filho: e se um dia ele mudar de lá?, emburrou. Zelosa de suas crias, a Bia parece pouco disposta a aceitar que uma delas seja removida de onde fincou raízes, mesmo que seja para adolescer e botar corpo a poucos metros dali. Jogou pesado, a moça, sentimentalizou a questão, fazendo, quem sabe, germinar mais uma frente nesse papo:

– Mas e as outras? Como é que elas ficam?

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