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Cultura

Bia

Flor que se cheire

Volta e meia a memória regurgita a história do pai de uns amigos meus, cinco marmanjos que, largadões na sala, o viam passar, rumo ao jardim, com o regador em punho. “Lá vai o velho molhar as coisas...”, ciciava um deles, enquanto na roda circulava um dos cigarros que, como tudo o mais em suas vidas, eram peritos na arte de enrolar. As “coisas”, nem preciso ser tão explícito, eram uns pés de cannabis sativa por eles plantados e que o chefe da família, engenheiro aposentado, nem na juventude teria sido capaz de distinguir de qualquer outro pé de mato.

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Humberto Werneck

09 Fevereiro 2016 | 02h00

Embora tenha atingido esse estágio da vida em que senhores de agenda rarefeita vêm a descobrir a jardinagem, ainda não posso me permitir tais vagares de varão desativado. E devo confessar que, entre outras coisas, com ou sem aspas, eu saberia reconhecer, sim, um pé de cannabis. Mas não é menos verdade que de uns tempos para cá dei de me interessar por plantas em geral. Digamos que entrei numa modalidade benigna de estado vegetativo.

Semanas atrás, andei atormentando amigos e familiares em busca de saber o nome da rosa miúda que a Bia colhe no jardim do prédio quando vem para o batente da faxina. Camélia, apostou um deles. Ranúnculo, cravou uma querida amiga. Rosa pura e simples, seu ignorante, afirmaram outros a quem propus a questão, até agora não esclarecida. Segue em aberto – e eis que outra se coloca: como se chama este arbusto, cada dia mais impetuoso, como que disposto a tomar conta da minha área de serviço com sua fartura de folhas verdes graúdas e lustrosas?

Postado no Facebook e espalhado por WhatsApp e email, o enigma, devidamente ilustrado, desencadeou imediata chuva de hipóteses e afirmativas. A Hortense, mesmo com as credenciais que lhe conferem seu nome floral, não quis arriscar palpite, mas se dispôs a ir atrás de saber, o que fizeram também a Wanda, a Patrícia e o Ésio. Abacateiro, suspeitaram a Lia e a Maria Carmen. Gaiato, o Alex baseou-se no visual da área de serviço para inventar uma Kitchnettys Ladrilius Angustifolia. Sem muita convicção, o Edison e a Miriam votaram na seringueira. Taioba?, indagou o Fernando, talvez desenterrando lembranças da Mariana pré-Samarco onde nasceu. Foi o bastante para que outro mineiro, o Moisés, se ouriçasse com a possibilidade de vir um dia a comer taioba sob o teto do cronista. Quanto à Goretti, por pouco não semeou cizânia entre a irmã e o cunhado, ambos agrônomos, pois entre os dois brotou discórdia botânico-conjugal. Até por isso valeria a pena acolher a sugestão do Glebson, endossada pela Adalberto, de instalar o Pl@ntNet, aplicativo capaz de identificar espécies vegetais – o que ao menos pouparia meus amigos dos seguidos enigmas que nesse departamento lhes venho propondo.

Pl@ntNet em forma de gente, lá em Poços de Caldas o Teodoro suspendeu por um instante seus pincéis e, fazendeiro além de artista plástico, votou numa tal de cheflera – certeza compartilhada pelo Thomas, a Renata e o Djair. Alguém falou em brassaia. É só outro nome dessa planta, volveu o Teodoro, enquanto o Caio confirmava até em língua morta: Brassaia actinophylla é a mesmíssima Schefflera actinophylla, planta da família das Araliaceae, nativa das florestas tropicais chuvosas da Austrália, Nova Guiné e Java – o que, a meu ver, confere caráter internacional a minha área verde doméstica. Como veio parar nos meus humildes domínios? Cocô de passarinho em vaso não sanitário, fulminou um desmancha-prazeres.

Debaixo do latinório onomástico, pode ser que você não esteja ligando o nome à pessoa, quer dizer, à planta, que atende também por cheflera-da-folha-grande, árvore-guarda-chuva e árvore-polvo. Árvore? Sim, alertou o Tiago, que além da câmera fotográfica pilota um blog, o Naturaleza, adubado com “histórias que deixam as cidades mais verdes e gentis”: a cheflera ou brassaia pode espichar-se por mais de 5 metros. (Por ora, temos aqui 85 cm de altura.) Bela planta, adjetivou o poeta Nicolas, recomendando imediata troca de vaso, “pois as raízes devem estar atrofiadas”. O mesmo disse a Lúcia Helena, acrescentando que minha cheflera irá longe se o dono lhe proporcionar “um vaso generoso”.

Assim será feito, Lúcia. Acondicionada em leito menos acanhado, a criatura deixará em breve a área de serviço para ser entronizada na sala do apartamento, conforme sugeriu o Paulo, e ali, a crer no que me disseram, dará um dia fruto e até flor que se cheire. Quem não está gostando da ideia é a Bia, que já havia reagido mal quando falei em levar a planta para o jardim da casa do meu filho: e se um dia ele mudar de lá?, emburrou. Zelosa de suas crias, a Bia parece pouco disposta a aceitar que uma delas seja removida de onde fincou raízes, mesmo que seja para adolescer e botar corpo a poucos metros dali. Jogou pesado, a moça, sentimentalizou a questão, fazendo, quem sabe, germinar mais uma frente nesse papo:

– Mas e as outras? Como é que elas ficam?

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