Filme 'Providence' faz tributo ao diretor francês Alain Resnais

Este é considerado seu segundo melhor longa

Antonio Gonçalves Filho,

06 Junho 2014 | 17h01

O clássico Providence, obra-prima do diretor francês Alain Resnais (1922-2014), sai em DVD (pelo selo Versátil) três meses após a morte do cineasta. É um acontecimento histórico, em especial porque Providence foi restaurado e suas cores originais recuperadas - o diretor de fotografia, o argentino Ricardo Aronovich, aparece nos extras explicando o significado simbólico de seu vocabulário cromático e as abruptas mudanças de luz que marcam a fronteira entre real e imaginário no belo filme de Alain Renais.

Um dos principais nomes de Nouvelle Vague francesa, movimento que revelou nos anos 1950/60 realizadores como Godard e Truffaut, Resnais trabalhou nesse mesmo registro real/imaginário em filmes que se tornaram igualmente clássicos, como Hiroshima Mon Amour (1959) e O Ano Passado em Marienbad (1961), especialmente no último, em que um homem alude a um encontro amoroso com uma mulher um ano antes, para ouvir dela que esse romance jamais aconteceu.

O encontro entre Deus e suas criaturas em Providence se dá igualmente numa dimensão irreal - literária, no caso, com o Criador sendo representado por um escritor à beira da morte, Clive Langham (John Gielgud), que, dependente de álcool e com uma doença terminal, passa seus últimos dias tentando escrever o derradeiro livro. Vemos no filme a evolução da estrutura literária desse romance, em que Clive usa como modelo sua família, transformando de modo perverso a personalidade dos filhos.

Resnais introduz esses personagens em cenários artificiais - neles, a imobilidade é quebrada por efeitos ainda mais artificiais, como uma onda feita de polipropileno. O cenário principal é uma mansão decadente, construída por um americano, que a produção encontrou na Bélgica. Chama-se, justificadamente, Providence, e é uma representação metafórica da casa do deus resnaisiano, problemático, autocentrado, cuja distorcida percepção do real o leva a criar em ficção situações incômodas para sua família real: ele vê o filho mais velho Claude (Dirk Bogarde) como um Édipo aos pés da Jocasta suicida, além de um hipócrita advogado em permanente conflito com o irmão mais novo, Kevin (David Warner), supostamente amante da cunhada Sonia (Ellen Burstyn).

Quando o filme foi lançado, em 1977, o então mais popular crítico americano, Vincent Canby, considerou Providence pretensioso - ele usou o adjetivo “cold chic” para se referir ao filme. O tempo só fez provar que Canby estava errado. E, o que é pior: o crítico chegou a comparar Providence ao clássico Rebecca (1940), primeiro filme americano de Hitchcock. Com todo respeito ao mestre inglês do suspense, nada mais longe de Hollywood do que Providence, cujo roteiro, assinado pelo dramaturgo inglês David Mercer, se afasta do clichê gótico para apostar numa fantasia contemporânea sobre o significado da ruína humana, sintetizada nos traços obscuros da personalidade de um deus ex-machina revelado no epílogo.

É um caso crônico de um deus que se recusa a morrer e assume uma persona no espaço ficcional para resolver um drama sem solução: o de ter criado a insignificância humana. Ao distorcer o real para criar a dimensão literária, o escritor de Resnais subverte o conceito de narrativa. O diretor faz uso desse artifício para mostrar como o cinema pode confrontar questões existenciais do cotidiano sem recorrer à palavra - a sequência final, a mais difícil de ser filmada, segundo conta o diretor de fotografia Aronovich, passa do dia para a noite eterna num travelling de 360 graus, capaz de traduzir a passagem do tempo sem que Resnais recorra à narração ou ao diálogo. Em Providence, seu deus está sozinho. Não tem ninguém com quem conversar.

'Providence'

Direção: Alain Resnais

Elenco: Dirk Bogarde, John Gielgud, David Warner

Lançamento: Versátil, R$ 49,60.

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