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Filme narra história de caçadores de obras de arte durante a 2ª Guerra

FLAVIA GUERRA - Los Angeles - O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2014 | 02h 11

George Clooney fala sobre filme 'Caçadores de Obras-primas', sobre tropa que tentava salvar obras roubadas por nazistas e devolvê-las a seus donos

George Clooney, Cate Blanchett, Matt Damon, John Goodman, Bill Murray e Bob Balaban e Grant Heslov se reúnem com um grupo de jornalistas e se preparam para passar por uma sabatina sobre seu novo filme: Os Caçadores de Obras-primas.

A conversa tem uma premissa densa, sobre uma fatia fascinante, e pouco conhecida, da história: em plena Segunda Guerra, sete homens se aventuram pela Europa com a missão de salvar obras-primas das mãos dos nazistas. Nos anos mais duros do conflito, esculturas e quadros de Michelangelo, Da Vinci, obras de Pablo Picasso, Monet, Degas e Rembrandt estavam sob ameaça, assim como tantas outras que oram pilhadas de acervos privados para serem enviadas ao ‘Museu de Hitler’ ou simplesmente destruídas.

Esta história real já foi contada no livro Caçadores de Obras-primas - Salvando a Arte Ocidental da Pilhagem Nazista, de Robert Edsel. Mas como transpor esta saga para as telas, em um filme leve, que ousa olhar com humor para um dos momentos mais sombrios da história? Seria esta uma estratégia para alcançar o maior número possível de espectadores para o filme, que abre esta semana o Festival de Berlim?

É Clooney, diretor do longa, quem responde por sua tropa. "Sim. A gente queria fazer um filme capaz de entreter as pessoas e, ao mesmo tempo, contar esta história rara", diz. "Em geral a gente acha que já sabe de tudo quando o assunto é a Segunda Guerra. E desta vez queria contar algo inusitado. É um tema pesado, claro, mas curioso", completou ele, que também faz o papel de Frank Stokes, um historiador da arte que, quando a guerra começa, trabalha no The Fogg Museum (o maior e mais antigo museu de Harvard). "A inspiração é o historiador de arte George Staut, que ajudou a resgatar incontáveis tesouros em diversas cidades e depósitos nazista", explica Clooney.

Bill Murray, que faz o arquiteto Richard Campbell e é um dos elementos cômicos de Caçadores, acrescenta: "A história é tão fascinante que foi divertido trabalhar com esta equipe. Durante as filmagens, a gente filmava uma cena engraçada e em seguida passávamos 40 minutos rindo. É esta atmosfera que tentamos levar para o público. Vi o filme depois de pronto e dei muita risada. "

Campbell é inspirado no arquiteto Robert Posey, que descobriu a mina de sal de Altaussee, onde os nazistas esconderam obras como O Altar de Ghent e o Astrônomo de Vermeer, entre tantas outras.

Além do desafio de dar humor a Caçadores de Obras-primas, filme que poderia ser mais um retrato dramático da sombria Segunda Guerra, George Clooney (que já havia se saído bem no papel de diretor em Boa Noite, e Boa Sorte) tinha o desafio de responder a uma pergunta que, de tão óbvia, é crucial - vale a pena morrer por uma obra de arte?

"Por nossas vidas e por cultura, vale a pena lutar. Não se tratava de salvar um quadro, uma escultura, mas sim uma cultura. Os Caçadores não eram soldados comuns. Eram pessoas reais. Historiadores de arte, pintores, escultores, arquitetos, artistas, que foram recrutados para uma missão muito especial", disse Clooney.

"Não seriam só obras que seriam destruídas, mas o registro de uma civilização, da cultura de um povo. Não é questão de perguntar se a arte é apenas bonita mas sim o que ela representa", completou Matt Damon, que no filme interpreta James Granger, papel inspirado em James Rorimer, que se tornou o diretor do Metropolitan Museum of Art.

Para Clooney, além de entreter, Caçadores de Obras-primas, que faz sua première mundial na próxima quinta, na competição oficial do Festival de Berlim, tem a missão de levantar atenção para a questão de que até os dias de hoje centenas de obras ou continuam desaparecidas ou não foram devolvidas a seus donos.

Mais do que isso, como dizia Karl Marx, a história se repete. "Roubo e destruição de obras da humanidade, infelizmente, não são coisas do passado. Está acontecendo agora na Síria. Aconteceu há não muito no Iraque. É real, urgente", alerta Clooney.

Quando questionado sobre a questão da devolução das obras para os judeus que são seus donos de direito, e de como muitas ainda não foram devolvidas, ele passou a palavra para "o judeu do nosso grupo" - o produtor Grant Heslov.

Segundo Heslov, grande quantidade de arte produzida por judeus foi destruída durante a guerra, "uma vez que era a arte degenerada, a qual Hitler estava tentando eliminar". "No filme, ainda que haja um grande foco na arte cristã, nós falamos de colecionadores judeus, incluindo Rotschild (Edmond James de Rothschild, um dos maiores colecionadores de arte do mundo, que teve muitas de suas peças pilhadas no conflito)", comenta Heslov. Não por acaso, uma das cenas que mais o comovem no longa é aquela em que Granger (Damon) caminha, ao lado de Cate Blanchett (Claire Simone, curadora do museu Jeu de Pome de Paris), pelo imenso depósito onde estão milhares de objetos pessoais. "Ele percebe que não se trata apenas de arte roubada, mas vidas ceifadas. Os móveis, espelhos, quadros, roupas, louças etc são pedaços das vidas que se foram."

"Se você puder ver a foto real deste lugar, verá que os nazistas recolheram tudo das famílias judias. Há casas inteiras montadas. Parecia um showroom", acrescenta Clooney.

Diante da declaração, uma jornalista judia, cujo pai de 80 anos é um sobrevivente, questiona: ainda há 500 obras roubadas pelos nazistas desaparecidas e cerca de 5 mil sobreviventes dos campos de concentração vivos. Que impactos acha que o filme vai ter para gerações futuras?

"Sei que há muita coisa perdida. Na França, Rússia... Mas é um longo processo. É preciso entender o quão é importante a arte é para a humanidade. Se este filme levantar alguma discussão, já estaremos satisfeitos", responde Heslov. Clooney completa: "Sabemos que, recentemente, muitas obras, no valor de US$ 1,5 bilhão, descobertas pelos caçadores, foram devolvidas e repatriadas. Isso é bom, para que não volte a acontecer."

Cate Blanchett intervém e observa que se depender disso, o filme já valeu pena. Ela, que vive a curadora do museu Jeu de Paume, que acaba se tornando uma catalogadora e protetora da arte pilhada pelos nazistas, mostrou Caçadores a seus filhos e viu o impacto que foi para eles descobrir que até mesmo joias e dentes de ouro eram roubados das vítimas. "Este filme lança luz sobre estas atrocidades. Não só abre uma porta para que entendamos melhor a história deste conflito mas também para a vida de um grupo improvável de soldados que, com seu amor pela arte, mudaram a história e ajudaram a salvar um legado que hoje vemos e entendemos como parte da historia da humanidade", diz.

Blanchett, a propósito, concorre ao Oscar de melhor atriz por seu papel em Blue Jasmine de Woody Allen. Mesmo assim, diz não se sentir nunca "pronta" para um papel. "Fico imensamente feliz com a indicação. Mas confesso que entrar em um set é sempre assustador."

Clooney acrescenta que, para ele, dirigir também traz sempre um frio na barriga. "A diferença entre Boa Noite, e Boa Sorte é que eu aprendi muito entre um e outro. O trabalho de dirigir, escrever e produzir é diferente de atuar. Adoro os dois. Dirigir e escrever é uma função que precisa de muita criatividade. Gosto muito disso", declara. "Trabalhei com grandes diretores na minha carreira de ator e pude aprender muito observando-os, continuou ele, para quem o mais difícil foi dirigir a si mesmo. "Imagina eu dizendo: 'Isso, George! Você foi muito bem'", brincou.

Dirigir Damon e Blanchett foi outro desafio. "Eu esperava poder atuar com todos os atores, mas passo o filme todo com o Matt. Foi tão desapontador", brincou a atriz. "Falando sério, adoro ver como o George conta a história de povos que vivem em outros países. Projetos como este não aparecem todo dia", comentou ela, que já havia trabalhado com Damon em O Talentoso Mr. Ripley (1999).

"Tento encontrar histórias únicas que precisam ser contadas. É difícil produzir filmes assim. Para Boa Noite, e Boa Sorte, tive de hipotecar minha casa. Mas, por uma boa causa, vale", conta Clooney. "Para mim, este filme é sobre o que é importante e sobre o pelo vale à pena morrer. Hoje há tantos artistas vivendo em Berlim. É uma cidade incrível. Isso se deve muito ao fato de que os alemães aprenderam a respeitar os artistas e a arte mais do que nunca. Fico feliz de ver isso", conclui Blanchett.