Filme brasileiro feito por estudantes é premiado na ONU

A produção compara países que vivem em guerra com a violência no Rio de Janeiro

Agencia Estado

07 Junho 2021 | 12h57

As Aparências Enganam é o nome do filme produzido por estudantes brasileiros e premiado pela ONU no concurso Film Your Issue, que incentiva jovens a debaterem questões sociais por meio de filmes com duração entre 30 e 60 segundos. A produção enfoca países em guerra declarada e mostra como a violência que ocorre nessas regiões é semelhante às cenas de ação policial na cidade do Rio de Janeiro. Essa foi a primeira edição do concurso aberta a participantes de outros países além dos Estados Unidos. Mais de duas mil pessoas já foram vítimas da violência no Rio de Janeiro desde o começo do ano. E o número de mortos e feridos cresce a cada minuto, de acordo com informações do site Rio Body Count, grupo voluntário inspirado no Iraq Body Count, que se destina a contar o número de vítimas de violência da guerra no Iraque. Foi pensando em atrair a atenção do mundo sobre a questão da violência no Rio de Janeiro que um grupo de nove estudantes universitários brasileiros produziu o filme As Aparências Enganam, premiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no começo de junho. O concurso Film Your Issue encoraja jovens a debaterem questões sociais por meio de filmes com duração entre 30 e 60 segundos. A produção dos estudantes brasileiros, com idade entre 19 e 22 anos, enfoca países em conflito como Palestina, Haiti e Iraque, e mostra como a violência que ocorre nessas regiões é semelhante às cenas de ação policial na cidade do Rio de Janeiro. "A gente quer chamar a atenção para a situação calamitosa que o Rio chegou", conta a estudante Tháis Justen, 19 anos. Segundo ela, o grupo é formado por oito estudantes de Relações Internacionais e um de Comunicação Social de quatro universidade fluminenses: Cândido Mendes, Estácio de Sá, PUC/Rio e Bennetti, e estagiários do Centro de Informação das Nações Unidas no Rio de Janeiro. "Quando começamos o estágio, em abril desse ano, o diretor do centro (Carlos dos Santos), falou desse concurso de filmes da ONU e que essa era a primeira vez que outros países poderiam participar", explica Thaís. Segundo ela, prontamente os estudantes aceitaram o desafio e o tema não poderia ser outro. "Fizemos questão de mostrar a realidade da nossa comunidade, mostrando que a violência daqui é igual a que ocorre em países em guerra declarada", explica. De acordo com a estudante, o medo e a sensação de impotência diante da violência acaba interferindo na rotina dos moradores da cidade. "Faço faculdade à noite e procuro não ficar até muito tarde. Quando saio a rua já está praticamente deserta. As pessoas vivem com medo de assalto, seqüestro, tiroteio...", conta. Caos urbano Para o estudante Ricardo Oliveira dos Santos, 20 anos, a escolha do tema do filme se deve ao fato dos jovens estarem inseridos nessa violência, nesse caos urbano. "Queríamos mostrar um lado do Rio que alguns países do mundo nem imaginam que exista. Mostrar que o Rio não tem só carnaval, praias e mulheres bonitas, que vivemos aqui uma guerra não declarada", destaca. "Outra coisa que percebemos é que a violência está muito banalizada, virou algo normal. Eu fui assaltado na semana passada e quando fui relator o ocorrido para um policial que fica tomando conta da rua ele me disse: ah é? com aquele ar de que era a coisa mais normal do mundo", diz Ricardo. O estudante destaca que uma mudança urgente é necessária e que um futuro melhor é possível se forem tomadas as medidas certas, principalmente por parte dos governantes. "Acredito que tudo passa pela vontade política. Quando há um governo comprometido com a mudança ela realmente ocorre", diz. A produção Quando ficaram sabendo do concurso os estudantes tinha apenas duas semanas para produzir o filme. As imagens que aparecem na produção foram cedidas pela TV Roc, da favela da Rocinha e da ONG Rio de Paz, que tem realizado manifestações públicas no Rio de Janeiro e outros estados do Brasil contra a violência desde janeiro de 2007. "Fizemos a seleção das imagens mais fortes, a produção da vinheta e a edição. Todo mundo participou de todo o processo", destaca a estudante. O filme foi vencedor na escolha da audiência como melhor filme estrangeiro e premiado pelo Departamento de Informação Pública (DPI) das Nações Unidas. "Vamos receber um troféu e gravamos um vídeo de agradecimento que será exibido durante a cerimônia de premiação no dia 26 de junho em Nova Iorque", Thaís. Os demais premiados no concurso foram Stains sobre disputas territoriais e The Terrorist sobre a questão da tolerância através da visão de um imigrante muçulmano vivendo nos Estados Unidos. Os dois filmes foram produzidos por estudantes universitários americanos.

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