Fiel retrato dos sons das Américas

Projeto com 24 obras de 23 artistas de 9 países faz duas revelações: a importância do Brasil e a timidez dos EUA

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2012 | 03h08

Botar ordem, lógica, racionalizar tudo que nos rodeia - esta é a tentação fundamental do ser humano. No caso dos artistas, significa abraçar sucessivamente vários estilos e cartilhas criativas ao longo da vida. Naturalmente, músicos com gostos e aptidões afins reúnem-se para tocar e divulgar a estética que consideram a mais legítima, importante, significativa. Quando se fala de música contemporânea, os ânimos se acirram ainda mais. Todos comportam-se como militantes de uma guerra estética, porque vivemos num tempo em que não há uma linguagem hegemônica. A vida musical convencional, sabe-se, funciona como museu, cultuando as obras-primas do passado, incorporando vagarosamente uma ou outra obra/compositor em suas majestosas salas de concerto. Isso dificulta ao ouvinte e/ou espectador um acesso mais abrangente às criações musicais do nosso tempo. O sujeito vai a um concerto desses e ouve só um tipo de música: ou é pura "neue musik" cerebralíssima tipicamente europeia; ou é música espectral ou outro movimento qualquer da moda vanguardista; ou, pior, é reciclagem de músicas populares que são "171", por "vender" como música comercial como sendo de invenção.

Atentar para uma amostragem ampla das criações contemporâneas, ultrapassar esta postura militante e típica de gueto - eis as conquistas mais expressivas do grupo Hespérides, fundado em 2002 pela pianista Rosana Civile, o violonista Paulo Porto Alegre e outros competentes músicos radicados em São Paulo. De estrutura flexível, o grupo gravou dois CDs anteriores em 2007. Alcança agora 23 integrantes para comemorar dez anos com um álbum duplo que deseja os contrastes, como escreve Antonio Ribeiro no texto do encarte de Sons das Américas: "Os opostos são complementares e a diversidade bem-vinda".

Para o ouvinte, é uma espécie de abre-alas para a música dos séculos 20 e 21 das três Américas. Ao todo, 24 obras de 23 compositores de nove países: Brasil, Argentina, Canadá, Cuba, Equador México, Uruguai, Venezuela e Estados Unidos. E ao menos aqui, e acertadamente, a música dos EUA ocupa o lugar adequado no contexto das Américas, pouco menos de 10% das obras, e ainda assim só com dois "medalhões", Charles Ives e Samuel Barber.

Não creditem o fato a um desequilíbrio, mas a um mérito adicional. Em termos musicais, a América Latina oferece criações bem mais consistentes, interessantes e originais. Neste painel, os brasileiros são maioria, com onze representantes. Entre os "medalhões" nativos, Villa-Lobos (a atrevida Suíte para canto e violino, escrita em 1923, em Paris, sobre poema de Mário de Andrade), Camargo Guarnieri (Trio para violino, viola e violoncelo, de 1927) e Claudio Santoro (Duo para violino e viola). É ótima a amostragem dos compositores das gerações seguintes, a começar por Gilberto Mendes (schumanniano em A Tecelã e pós-modernamente pop em Dizei senhora) e Willy Corrêa de Oliveira (mais neue musik e berlinensemente engajado do que nunca em Madrigale II, dedicado ao Hespérides, com título e versos em alemão de Brecht). Almeida Prado (Lembranças do coração, canto e piano), Achille Picchi (O caipira do trenzinho), Flo Menezes (Focalizações), Aylton Escobar (Vértebra, de 1984), Silvio Ferraz (De um tempo em deserto) e Paulo Porto Alegre (Estudo minimalista) completam o time brasileiro.

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