Festival suíço rende mais 3 CDs

Projeto de Martha Argerich reúne concertos ao vivo

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2012 | 03h09

Como faz todos os anos há uma década, a pianista Martha Argerich comanda seu festival de música de câmara na cidade suíça de Lugano. E, como sempre, disponibiliza, pela EMI Classics, os melhores momentos do festival numa caixa com três CDs. No total, já se contabilizam 30 CDs com concertos ao vivo em Lugano entre 2002 e 2011.

Acaba de ser lançada a caixa Martha Argerich & Friends: Live at Lugano 2011, importada (download pela iTunes por US$ 13,99), referente aos concertos do verão europeu de 2011.

O Festival Martha Argerich & Friends completou uma década de existência mantendo sua característica de ser uma espécie de rampa de lançamento de novos talentos. Foi assim, por exemplo, com os sempre presentes, desde que eram praticamente desconhecidos, irmãos Capuçon - o violinista Renaud e o violoncelista Gautier. Outros frequentadores assíduos são a violinista Dora Schwarzberg e o pianista Sergio Tiempo. O repertório privilegia obras conhecidas do repertório, sobretudo as que mais falam ao coração de Martha.

Na caixa de 2011, aliás, Martha está mais presente do que em anos anteriores. Toca a Sonata para Violino e Piano n.º 8 de Beethoven com Renaud Capuçon e as três Fantasiestücke de Schumann Gautier. Em La Valse, de Maurice Ravel, que ama apaixonadamente, toca ao lado de outro argentino, Sergio Tiempo. Interpreta o Trio n.º 2, opus 9, "Elegíaco", de Rachmaninov, com Renaud Capuçon e Yan Levionnois ao cello. Sola um de seus concertos preferidos, o de Ravel em Sol, ao lado da Orquestra da Suíça Italiana, regida por Jacek Kaspszyk. E o Concerto Patético para dois pianos, de Liszt, composto em 1851, uma espécie de clímax do piano romântico, com tudo o que ele tem de bom e ruim (notável escrita pianística, que cai várias vezes no virtuosismo meio oco porém brilhantíssimo, feito para embasbacar o público). Pois Martha o enfrenta com magnetismo e carisma, ao lado de Lilya Zilberstein.

O bom de Martha Argerich é que ela não se esgota no pianismo fácil. Até abre espaço para exibições circenses, como as peças satíricas da opereta Cheryomushki, op. 105, de Shostakovich - em versão de churrascaria para três pianos, com Giorgia Tomassi, Alessandro Stella e Carlo Maria Griguoli. Mas, por outro lado, sempre descobre uma obra rara ou praticamente desconhecida que faz questão de trazer para o foco central.

Desta vez é o Quinteto para Piano e Cordas em Sol Menor Opus 34, do pianista e compositor polonês Juliusz Zarebski, aluno de Franz Liszt que morreu jovem, aos 31 anos, em setembro de 1885. O quinteto, sua derradeira obra, dedicado ao mestre Liszt, respira uma atmosfera claramente influenciada pelas linguagens de César Franck e Brahms. É encorpado, tem quatro movimentos que consomem bons 40 minutos. Zarebski sabia que estava prestes a morrer e fez dele seu testamento musical mais ambicioso. O imenso Adagio, com quase 14 minutos, é uma espécie de réquiem para ele mesmo - é música da mais alta qualidade e o melhor momento do quinteto. O scherzo também impressiona pela vivacidade, com uso extensivo de pizzicato. O belo finale acena com a delicadeza madura que é marca registrada de Fauré.

Liszt considerou-o perfeito, mas o veredicto não bastou para fazer a obra sair do anonimato. Tanto que esta é a primeira gravação comercial em 122 anos. E também a primeira vez que Martha a tocou em público, em Lugano. Foi, sem dúvida, uma ocasião especial para ela, pois à viola está sua filha Lyda Chen Argerich. Os demais músicos também são seus queridos parceiros de festival: as violinistas Dora Schwarzberg e Lucia Hall, além de Gautier Capuçon ao violoncelo.

As interpretações em geral não são extraordinárias. A orquestra, por exemplo, é quase menos do que mediana no concerto de Ravel. Mas estes concertos, capturados ao vivo, são cheios de envolvimento e empenho, que aliados à competência e talento incendeiam o público. Martha é uma artista que precisa ter o público junto de si para render o máximo. Em Lugano, ela se sente inteiramente à vontade. Sorte nossa.

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