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Fest Aruanda apresenta diferentes formas de narrativa

Foram exibidos ‘Através da Sombra’, de Walter Lima Jr., ‘Invólucro’, de Caroline Oliveira, e ‘Garoto’, de Julio Bressane

Luiz Zanin Oricchio/JOÃO PESSOA, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2015 | 05h00

Depois de um começo em alta voltagem com a exibição e debate do polêmico Chatô, de Guilherme Fontes, o Fest Aruanda apresentou os primeiros longas concorrentes aos troféus. Garoto, de Julio Bressane, Invólucro, de Caroline Oliveira, e Através da Sombra, de Walter Lima Jr. tiveram boa recepção de público, cada qual à sua maneira e dentro de suas respectivas possibilidades.

Bressane não é dos cineastas mais fáceis, e nem faz questão de aplainar as coisas para ganhar a simpatia dos espectadores. Pelo contrário, trabalha pela utopia de trazê-los para as dificuldades que suas obras propõem. Esta não é diferente de outras, nesse particular.

Vagamente inspirada num relato de Jorge Luis Borges sobre Billy The Kid (O Assassino Desinteressado Bill Harrigan), põe em cena um casal de jovens, Ela e Ele (Marjorie Estiano e Gabriel Leone). Eles se enamoram, vão a uma casa onde ocorre um crime. Depois empreendem uma fuga. Esta os leva à paisagem lunar do Lajedo de São Mateus, na Paraíba, palco também de outro dos filmes de Bressane, São Jerônimo.

A parte do Lajedo é a melhor. Não há diálogos. O diretor narra apenas através das imagens fantásticas do local. Leva ao extremo o cinema chamado “de atmosfera”, dispensando o recurso verbal e conduzindo o espectador pelo registro visual, mas também pelo espetacular trabalho de sons. Como se a natureza falasse pelo silencioso personagem masculino. Bressane, cada vez mais, busca um cinema metafísico, escavando camada após camada em sua recusa do lugar-comum. Difícil? Sim, e também indispensável.

Invólucro é um interessante documentário de Caroline Oliveira. Ela começa por documentar sua própria gravidez. Mas não se trata de um filme em primeira pessoa, autocentrado e biográfico, como virou moda. Após se mostrar à câmera, ela vai em busca de outras personagens que, em aparência, nada têm comum com ela mesma: duas mulheres já maduras que decidiram não ter filhos (uma médica e outra produtora cultural) e uma transexual. Invólucro fala do corpo feminino. De suas transformações, da angústia que produz, do apaziguamento que, em boa parte, funciona no reconhecimento do outro. Às vezes um tanto redundante, vai ao seu tema com ousadia e originalidade.

Em Através da Sombra, o tarimbado Walter Lima Jr. enfrenta um texto clássico do suspense – A Volta do Parafuso, de Henry James, já adaptado outras vezes. Agora é Virginia Kavendish quem interpreta a governanta que se ocupa da educação de duas crianças em uma mansão soturna.

O filme é dirigido de maneira clássica, com uma fotografia sóbria e envolvente de Pedro Farkas. Lima Jr. não cede ao facilitário dos sustos fáceis (embora alguns ocorram), mas investe mais na criação de um clima pesado, que vai se adensado a cada cena.

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