JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Febre nos EUA, cursos de formação de escritores se espalham pelo País

Há para todos os níveis, objetivos, gostos e bolsos, e muitos deles com início nas próximas semanas

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

05 Março 2014 | 03h00

Roberto Taddei era jornalista, mas queria ser escritor. Socorro Acioli já tinha lançado alguns livros infantis e juvenis, mas queria dar um salto mais alto. Ele arrumou a mala em 2007 e foi fazer mestrado em criação literária na Universidade de Columbia, em Nova York. Ela penou, mas conseguiu, em 2006, uma vaga num diminuto, mas ao que parece transformador, curso com o escritor colombiano Gabriel García Marquez em Cuba. Da experiência tão particular de cada um surgiu um livro – o dele, Terminália, era obrigação, a dissertação de seu mestrado; o dela, A Cabeça do Santo, a promessa feita ao ídolo de que jamais abandonaria seu projeto literário.

Taddei e Acioli foram longe. Investiram tempo e dinheiro, e voltaram satisfeitos. As obras que escreveram chegam agora às livrarias – num momento em que cursos como os que procuraram fora do País se tornam cada vez mais profissionais e frequentes por aqui. Claro, ainda não são tão abundantes como nos Estados Unidos, terra das oficinas de escrita criativa onde, estima-se, há 500 delas. Tampouco há algum ministrado por um prêmio Nobel, como era o de Cuba. No entanto, há opções para todos os níveis, objetivos, gostos e bolsos, e muitos deles com início nas próximas semanas (veja o box ao lado).

Pioneiro no ensino do ofício da escrita, o gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil criou sua oficina – por onde passaram nomes como Daniel Galera, Michel Laub e Luisa Geisler – há quase 30 anos. E vem, nesse tempo todo, acompanhando o interesse do brasileiro por cursos de formação de escritor. "O crescimento foi espantoso. Quando comecei, as pessoas procuravam a oficina para melhorar o texto; hoje, procuram-na com a decisão de tornarem-se escritores", comenta. Sua oficina anual, realizada na PUC de Porto Alegre e com vagas apenas para 2015, deu cria. Em 2010, a universidade gaúcha abriu turmas de mestrado e doutorado em Escrita Criativa.

A jornalista Rosangela Petta foi aluna de Assis Brasil em 2010. Ainda não publicou um livro, mas da experiência trouxe para São Paulo o próprio curso. Naquele mesmo ano, ela fundou, com o apoio do professor, a Oficina de Escrita Criativa. Há, aqui, um programa como o de Porto Alegre, anual e já com vagas esgotadas para 2014. Mas há uma série de outras oficinas, mais expressas, começando agora para quem quer escrever biografia, conto, crônica, livro infantil, etc., ou para quem quer apenas melhor a escrita.

O escritor João Silvério Trevisan é dono de uma das mais longevas oficinas paulistas – está na ativa há 27 anos – e defende o ensino da escrita. "Não acho que a literatura caia do céu. A musa não existe. Ela morreu de fome por falta de pagamento de direitos autorais", brinca. Sobre essa questão, Assis Brasil cita Maiakovski: "É a técnica que liberta o talento."

Para Trevisan, é importante que o aluno tenha um projeto, uma ideia do que será a sua obra. E foi isso que Socorro Acioli aprendeu com García Marquez. "Ele dizia que é preciso saber a história que pretendo contar assim como sei resumir o conto da Chapeuzinho Vermelho", diz. "Se eu não tiver clareza do meu universo ficcional, o leitor nunca terá e a narrativa não vai funcionar. Outra dica que levei para a vida foi a de só sentar para escrever quando tiver o eixo da narrativa definido – começo, meio, fim."

Depois da experiência cubana, a escritora fez outros três cursos – dois com o americano Robert McKee e outro com o mexicano Guillermo Arriaga. Seu livro A Cabeça do Santo foi planejado de 2006 a 2010 e escrito entre 2010 e 2013, e antes de ser lançado os direitos já tinham sido vendidos para a Inglaterra. Ele conta a história de Samuel, que sai em busca do pai e encontra abrigo na cabeça de uma estátua de Santo Antonio. Descobre, assim, que tem o dom de ouvir as orações das moças, passa a arranjar casamentos e a fazer chantagens.

Mas essa história não ficou só na escrita do livro. "Minha tese de doutorado, defendida no dia 18, foi esse romance e um ensaio teórico sobre o processo de criação a partir do livro A Preparação do Romance, de Roland Barthes."

Já Roberto Taddei, na volta de sua temporada nova-iorquina, transformou sua casa em sala de aula até que foi chamado para ser professor da recém-criada pós-graduação latu sensu Formação de Escritores, do Instituto Superior de Educação Vera Cruz. Hoje, é um dos coordenadores do curso e trabalha em outros dois romances.

Aos aspirantes a escritor, Assis Brasil deixa cinco dicas: "Ler muito, escrever muito, acompanhar a crítica literária em periódicos, ouvir a avaliação de bons leitores e, se possível, frequentar uma oficina literária reconhecida por seus frutos."

A construção de um autor e de uma obra

Em Clevelândia do Norte, vila militar na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa, Elena, mulher do major Marcelão, conhece Pierre, major da legião estrangeira, e vivem um caso de amor que desperta no marido traído o desejo de vingança. Essa história, contada por um jornalista local a um jornalista forasteiro durante um passeio de barco pela região, é a trama de Terminália, livro que Roberto Taddei nunca pensou em escrever – e sua estreia literária.

Ele já era aluno do mestrado de criação literária da Universidade de Columbia, em Nova York, quando veio de férias para o Brasil em 2008 e acompanhou estudantes de jornalismo em uma breve viagem à Amazônia. Na volta, duas figuras ao fundo de uma foto chamaram sua atenção e veio a ideia de um conto.

Em vez de mergulhar no romance que deveria entregar no final do curso, continuou escrevendo o conto que cresceu, virou romance e tomou o espaço do projeto inicial. Foram duas versões, em inglês, até a entrega do livro à banca. Com o diploma na mão, voltou ao Brasil com a missão de traduzir o livro e acabou reescrevendo a obra. A versão lançada agora é a quarta feita por Taddei, que trabalha hoje naquele projeto adiado, e que será o segundo da trilogia que idealizou para discutir a ideia de limite e fronteira (geográfica, do corpo e moral) e sua relação com a ideia de identidade brasileira.

Por estar sozinho num país estranho, onde ninguém o conhecia e onde se comunicava numa língua que não era a dele, Taddei pode deixar para trás modelos que talvez seguisse e percebeu a necessidade de construção de um eu autoral. E esse processo de construção deveria ser, na opinião do escritor, o objetivo das oficinas.

"A oficina forma o autor; ela não ensina a escrever. E isso se faz provocando essa consciência autoral. O que é ser um autor? Qual é a postura de um autor? Como um autor lê o texto de um outro escritor? Nos Estados Unidos, a maneira como você escreve é problema seu. O que interessa lá é a discussão do seu texto e do texto dos outros."

TERMINÁLIA

Autor: Roberto Taddei

Editora: Prumo (160 págs., R$ 24,90)

A CABEÇA DO SANTO

Autora: Socorro Acioli

Editora: Companhia das Letras (176 págs., R$ 37; R$ 25,50 o e-book)

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