Faltou drama, Obama

Obama sempre será histórico por ter saído do anonimato para se eleger o primeiro presidente negro dos Estados Unidos

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2018 | 02h00

Vamos falar mal de Barack Obama?

Espero alguns segundos para os sais fazerem efeito, caros leitores não trumpanaros. Com todo o caos em Sucupirington, detalhes presidenciais de palmadas com capa de revista, sexo sem camisinha com atriz pornô e coelhinha, maracutaias para fazer Silvio Berlusconi corar, a colunista agora vem criticar o ex-presidente cujo maior escândalo, em oito anos, foi aparecer numa coletiva de terno bege, em pleno verão?

Sim, vamos criticar Barack Obama. Não com o fanatismo de quem insiste que ele nasceu no Quênia. Sem a hipocrisia dos papagaios tupiniquins, repetidores de clichês da Fox News, que acusam, comicamente, Obama de ser socialista e classificam a maioria saudosa de sua dignidade de viúvas do Barack.

Obama sempre será histórico por ter saído do anonimato para se eleger o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Mas sua presidência será considerada histórica?

História presidencial é um campo vasto da não ficção na literatura americana. Um grupo de historiadores foi reunido num volume que acaba de sair, A Presidência de Barack Obama: Uma Primeira Avaliação. O livro é editado por Julian Zelizer, da Universidade de Princeton, que se debruçou também sobre os oito anos de George W. Bush. Se a guerra no Iraque e o crash de 2008 inflamaram os ânimos contra Bush e desafiaram a ponderação acadêmica, a surpresa com a eleição, em 2016, do garoto-propaganda da conspiração birtherista – Obama nasceu no Quênia – oferece agora outro desafio ao espelho retrovisor.

Ele se elegeu em 2008 proclamando ‘Sim, podemos’ e, a partir de 2010, enfrentou um bloqueio republicano reforçado pela tropa de choque do Tea Party que reduziu seu legado legislativo ao Obamacare, hoje na UTI, graças ao partido que controla as duas casas do Congresso e a Casa Branca. A oposição fanática a Obama, e vamos nos desabusar da ideia de que a cor de sua pele não era e é parte integral da equação, foi resumida pelo ainda líder no Senado, o cínico Mitch McConnell, em 2010: A conquista mais importante do Partido Republicano será garantir que Obama seja o presidente de um mandato só.

Se não impediram a reeleição, levaram a obstrução a novo patamar e Obama passou a implementar sua visão política com o inflamatório recurso de ordens executivas que o atual presidente se diverte em desmontar em meio ambiente, energia, regulação financeira, educação, saúde, justiça e imigração. 

Ninguém pode acusar o ex-presidente de falta de visão, intelecto e otimismo. Ele era basicamente um liberal em economia, multilateralista em política externa mas, é bom notar, no combate ao terrorismo não foi muito diferente de George W. Bush, com exceção da suspensão da tortura de suspeitos. O que Obama não gostava mesmo é do corpo a corpo da política. Bill Clinton tinha a pachorra de atrair seus hidrófobos detratores para jogar conversa fora na Casa Branca e ter a medida da força do adversário. Barack e Michelle nem um cafezinho serviram ao casal Clinton no começo do governo.

Sob a liderança de Obama, o Partido Democrata foi massacrado nas urnas. Em oito anos, os democratas perderam mais de mil assentos no Congresso, nos legislativos e governos estaduais, um feito sem precedente na história moderna do país. Não é possível atribuir estes números apenas à oposição extremista e ao uso do redesenho de distritos eleitorais.

O fato é que até os democratas no Congresso se exasperavam com a distância olímpica do homem apelidado de no drama Obama. Se ele não queria ou não sabia chafurdar no pântano obstrucionista da capital, a alternativa seria reenergizar seu partido. Como não fez uma coisa nem outra, seu legado há de enfrentar a distância entre a visão e a consequência executiva.

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