AFP PHOTO / Odd ANDERSEN
AFP PHOTO / Odd ANDERSEN

Exposição resgata a história da camiseta

Ícone de subversão da moda ganha retrospectiva em Londres

Marilia Kodic, Especial para O Estado de S. Paulo

10 Fevereiro 2018 | 06h00

Há de se notar a ironia contida no fato de que uma das peças mais comentadas e copiadas da alta-costura no ano passado tenha sido uma camiseta de algodão. We Should All Be Feminists (Todos Nós Deveríamos ser Feministas), lia-se no item da grife Dior, desfilado na Semana de Moda de Paris, e prontamente esgotado no site da marca e reproduzido pelas cadeias de fast fashion (inclusive brasileiras – a C&A, por exemplo, comercializou sua versão por R$ 39). Por ter sido criada num ambiente elitista, sendo um produto que visa ao lucro – o preço de venda excedia os R$ 2 mil –, o modelo logo suscitou debates sobre o papel da moda em protestos e manifestações.

O tema é um dos pilares da mostra 'T-Shirt: Cult – Culture – Subversion' (Camiseta: Cult – Cultura – Subversão), que acaba de ser inaugurada no Fashion and Textile Museum, em Londres, e fica em cartaz até 6 de maio. A exposição reúne uma centena de camisetas para contar sua história, que já ultrapassa um século – a primeira data de 1913, criação da marinha norte-americana –, e pretende mostrar como a peça é capaz de provocar mudanças culturais, políticas e sociais.

Com seu termo cunhado em 1920 pelo escritor F. Scott Fitzgerald, a t-shirt teve seu primeiro uso promocional 19 anos depois, quando foi usada para promover o filme'O Mágico de Oz'.Nove anos à frente, foi a vez de a política fazer dela sua ferramenta, na campanha presidencial do estadunidense Thomas E. Dewey, que a estampou com seu slogan Dew-it-with-Dewey (Faça-o com Dewey). Dewey perdeu, mas, desde então, a camiseta como tela política virou parte do jogo eleitoral. 

Graças à invenção da máquina de serigrafia colorida, que barateou e simplificou a produção, a camiseta perdeu de vez a função social nos anos 1960. A estilista inglesa Vivienne Westwood, na época casada com Malcom McLaren, produtor da banda punk Sex Pistols, foi uma das precursoras a dar ares rebeldes à roupa, que passou a ser peça-chave de praticamente todas as subculturas, dos hippies adeptos ao tie dye aos fãs de rock’n’roll. 

A música, aliás, é um dos temas da mostra, abordada na subseção With the Band (Com a Banda), que exibe modelos com ícones como a boca com língua exposta, símbolo dos Rolling Stones, e a banana desenhada por Andy Warhol para o The Velvet Underground.

Outros dez blocos temáticos completam a exposição, dos quais merece destaque o Fashion Statement (Declaração de Moda), que propõe uma reflexão sobre a transformação da camiseta de simples peça de vestuário do dia a dia a indicativo de status e riqueza por marcas de luxo – seja pela inclusão de um logo reconhecível, seja resultado de boas jogadas de marketing. Um caso notável é o do coletivo de moda francês Vetements, que em 2016 abriu a Semana de Alta-Costura de Paris com uma releitura do uniforme da companhia de entregas DHL – uma singela camiseta amarela com as iniciais da empresa em vermelho. O item, cuja versão original é comercializada pela DHL por menos de US$ 15, foi vendido pela grife a US$ 330 – e logo esgotou.

Fica longe, no entanto, do recorde de maior preço cobrado por uma camiseta até hoje: R$ 180 mil, para um modelo feito em pele de crocodilo pela francesa Hermès, em 2013. Há ainda, entre os exemplos a serem observados no museu, a primeira camiseta à prova de balas, a que bloqueia até 99% dos raios ultravioleta, e a que exibe, por meio de uma tela de LCD, atualizações em tempo real das redes sociais. Para quem nasceu monocromática e lisa, escondida sob as camisas masculinas, uma evolução e tanto

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