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Exposição da Gucci no Japão aproxima trabalho de estilistas e artistas

Mostra em Tóquio reacende um antigo debate fashion

Maria Rita Alonso, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2016 | 05h00

Captar o espírito do tempo em roupas que falem por si só e que virem desejos de consumo coletivo, justamente, pela mensagem que conseguem passar - de modernidade, irreverência, sensualidade, pertencimento a um grupo, status financeiro - é o ponto máximo almejado por um estilista. À frente da Gucci, Alessandro Michele chegou lá. Desde janeiro de 2015, a direção criativa da marca italiana está nas mãos (cheias de anéis) desse romano, de barba e cabelos longos, que vive de camiseta branca e jeans surrado, ostentando um visual que fica entre o hippie e o profeta. Ele tem 43 anos e por 12 trabalhou como assistente da ex-estilista da grife, Frida Giannini. Quando foi alçado ao cargo de criador número 1 da casa, para surpresa geral da elite da moda que mal o conhecia, Michele injetou frescor à marca italiana, que passava por um período de imagem desgastada e queda de vendas, transformando suas criações com ares vintage, romântico e meio geek em hits.

Agora, em busca de uma conexão maior com a geração de consumidores millennials e de engajamento com a audiência digital, Michele acaba de lançar um projeto ao lado de quatro artistas contemporâneos para criar instalações em um edifício de Ginza, em Tóquio, inspiradas em suas roupas. A exposição recebeu o nome de Gucci 4 Rooms e ganhou uma plataforma digital que reproduz com interatividade a proposta da mostra. Participam dela três japoneses, Chiharu Shiota, Daito Manabe e Mr. (assim mesmo, só Mr.), e o grafiteiro americano Trouble Andrew, que já vem colaborando com a marca.

“Sim, a arte pode fazer parcerias dignas com a moda. Não existe barreira entre universos criativos”, diz Manabe, que também é programador e DJ. Para a exibição, ele criou um game de caça à la Pokémon Go, com animação que mescla símbolos orientais milenares, como o dragão, com peças da última coleção. “Michele disse o quanto admirava o meu trabalho e que gostaria de aliar a parte divertida da tecnologia às roupas que cria. Achei o desafio diferente e me senti estimulado”, afirma. 

Se parcerias como essas não transformam a moda em arte, certamente aproximam a arte da moda - o que pode acabar sendo lucrativo para ambos os lados. Em suas duas últimas coleções, Michele firmou uma parceria artística com o grafiteiro americano Trouble Andrew, responsável pelos novos hits da empresa. Andrew tinha uma obsessão pela marca desde que conseguiu pagar (caro) pela primeira peça com o logo “GG” da grife, aos 17 anos. Tempos depois, criou seu alter-ego GucciGhost. Michele gostou da brincadeira e trouxe o personagem grafitado, além de outros desenhos, a uma linha de roupas e acessórios. “Achei genial o jeito que Trevor reinterpretou o logo da companhia, e vi que a estética do grafite espelhava a imagem que eu queria levar para as ruas”, afirma Michele. 

Andrew, que já foi campeão de snowbording e é ligado ao hip hop (seu look com boné de aba reta e dentes de metal ostenta esse link), vibrou com a ideia. “Há três anos, quando comecei a divulgar o GucciGhost de olho em uma parceria com a marca, meus amigos achavam que eu estava louco. ‘Isso nunca vai acontecer’, diziam. Mas eu acreditava na minha intuição”, conta Andrew, que em sua instalação em Tóquio reproduziu a bagunça habitual de seu estúdio no Brooklyn, em Nova York.

A obra mais poética da exposição é, sem dúvida, a da artista Chiharu Shiota, que representou o Japão na 56ª Bienal de Veneza. Ela trabalhou com 26,6 mil metros de fio de lã vermelha (cor que simboliza o sangue, para ela) para montar um emaranhado retilíneo sobre uma das estampas mais emblemáticas de Michele, um floral batizado de Herbarium. “A ideia foi repetir esse trabalho com lã que já venho fazendo nos últimos anos. Eu me senti honrada com o convite”, diz ela.

Mr., que é famoso no Japão por seu trabalho envolvendo personagens de mangá, também reprisou sua linha criativa e produziu um espaço no qual a desordem e a destruição englobam figuras de quadrinhos. “Tenho uma visão crítica sobre a cultura japonesa, que prega a perfeição e a organização na vida cotidiana, venerando símbolos pop e oprimindo os desajustados”, afirma ele, que tem no currículo a direção do videoclipe It Girl, de Pharrell Williams, e esculturas na principal loja do estilista Issey Miyake, em Tóquio. “Adoraria se Michele resolvesse usar meu trabalho em suas coleções. Mas ainda não temos nada acertado nesse sentido”, diz Mr., já dando a dica.

Antes de Alessandro Michele, outros estilistas flertaram (e lucraram) ao investir em parcerias com pintores e grafiteiros

Há décadas, retrospectivas de reconhecidos estilistas causam filas nos principais museus do mundo, como Metropolitan Museum of Art, em Nova York, e o Museu D’Orsay, em Paris. Colaborações e parcerias entre estilistas e artistas também se intensificaram desde que Yves Saint Laurent inventou, em 1965, o vestido Mondrian, reproduzindo as formas geométricas e cores primárias usadas pelo modernista em seu quadro Composição com Vermelho Amarelo e Azul, de 1921. A própria ideia de convidar um grafiteiro para “jogar” spray em bolsas de luxo, como fez Michele agora na Gucci, não é original. Marc Jacobs, em 2001, lançou com muito sucesso uma linha de acessórios com a estampa Monogram Grafite, criada pelo grafiteiro americano Stephen Sprouse. Também firmou uma parceria famosa com a artista japonesa Yayoi Kusama, considerada a princesa dos polka-dots, em uma coleção que chegou às lojas em julho de 2012.

Como um pregador da moda sem regras, Michele tem entre suas inspirações declaradas as artes e a ciência - mais até que o legado de moda da própria marca (que nasceu em Florença, em 1921). Ele utiliza como referência a dinastia Tudor, a filósofa francesa Madeleine de Scudéry (1607 -1701), estudos sobre botânica e zoologia, em especial, insetos, répteis e felinos, que surgem na Gucci em formatos de anéis, broches, fechos... E, por fim, cria coleções que exibem ao mesmo tempo um toque artístico e um grande apelo comercial, reacendendo uma velha questão existencial do meio: afinal de contas, a moda pode ou não ser considerada arte?

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