Divulgação
Divulgação

''Eu não julgo nada, o espectador que julgue''

Sergei Loznitsa fala de sua impressionante visão da Rússia após a derrocada do comunismo em Minha Felicidade, talvez o melhor filme do festival

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2010 | 00h00

Sergei Loznitsa nasceu na Bielorrússia, mas foi criado na Ucrânia. Na terra de Dovjenko, sonhava ser cientista, mas se graduou em cinema. "Talvez eu seja um cientista no cinema", ele disse num encontro com o repórter do Estado em Cannes. "Se o assunto me interessa, eu tento descobrir como torná-lo interessante para o público. Não faço julgamentos, não é minha função. Forneço elementos para que o espectador pense e tire suas conclusões. Em geral, o tipo de personagem que me atrai não é aquele que ocupa as capas das revistas. O filme é de estrada, mas se passa dentro das pessoas. Seus conflitos internos me movem mais do que a paisagem." Para os interessados em acompanhar o trabalho do cineasta, ele revela seu website - www.loznitsa.com.

Seu filme projeta uma imagem assustadora da Rússia pós-comunista. Há, aí um paradoxo, se pensarmos no título - Minha Felicidade. Como escolheu esse tema?

Sinto muito se o assustei, embora vindo do Brasil você deva saber o que é esse tipo de violência que contamina a sociedade inteira. A verdade é que a Federação das Repúblicas Socialistas era uma ficção que só a linha dura do regime mantinha de pé. O esfacelamento do comunismo expôs nossa fragilidade e levou aos caos social. Respondendo objetivamente à sua pergunta, tenho de dizer que fiz o filme movido pelo desejo de mostrar uma realidade que as pessoas, internamente, não querem ver e os estrangeiros nem sabem que existe.

Seus atores dizem que você é um demiurgo, o que aponta o caminho. Você se sente assim?

Sou um diretor tentando dar seu testemunho sobre o mundo em que vive. Seria muita pretensão de minha parte comparar-me ao criador e organizador do universo (NR - definição do demiurgo, segundo a concepção platônica). Mas não deixa de fazer certo sentido. Como autor do filme, tenho de apontar o caminho para eles. Um ator só pode criar em cima dos elementos que o diretor lhe fornece. Sou eu que tenho o conceito, a visão de conjunto do filme. Tenho de admitir que minha formação como documentarista foi muito valiosa na construção de Minha Felicidade. O documentarista, por princípio, não inventa. Ele olha, observa e seleciona. Vale para as situações como para os personagens. Só que, em cima dessa base real, o ficcionista cria. Ele pode extrapolar. É o que faço.

Seu personagem é esse caminhoneiro que toma uma saída errada e se perde no interior da Ucrânia. O país que você filma é muito diferente do que Dovjenko retratou em Terra, de 1930, que, por sinal, é meu filme soviético preferido. O que pensa disso?

É natural, porque quando Dovjenko fez o filme dele havia um projeto de construção social. O comunismo encerrava uma proposta humanitária e, como tal, os artistas acreditaram nele. Não preciso nem falar do que foi o stalinismo. O sonho acabou e das suas ruínas surgiu esse outro mundo no qual se passa meu filme. É o começo e o fim, mas eu tenho a impressão de que, em ambos os casos, a arte constrói alguma coisa no imaginário do espectador. O mundo que filmo pode não ter compaixão, mas eu espero que o espectador a tenha por essas criaturas. O caminhoneiro, a jovem prostituta, o veterano de guerra etc, não são monstros. São produtos de uma era. Historicamente, tem sido assim. Artistas, filósofos, pensadores, cientistas têm conseguido fazer avançar a humanidade, mas precisam muitas vezes desafiar as convenções e limitações do mundo em que vivem. Nunca é fácil.

Na realidade, o que estava querendo dizer é que a paisagem de Dovjenko, com seus girassóis, é muito diferente da do seu filme.

Tem a ver com o que cada um quer dizer. Para revelar o interior das pessoas, tenho de inseri-las numa paisagem. E a paisagem pode ser enganosa, como as pessoas. Pode ser bela e esconder o horror. Isso também ocorre com as pessoas. A questão é sempre - como mostrar isso sem ser óbvio?

Em um de seus documentários longos, você usa material de propaganda do comunismo e, em outro, imagens do cerco de Leningrado feitas pelos nazistas. Como é produzir o próprio material?

Trabalhar sobre material alheio implica, basicamente, em editar. É uma questão de selecionar o que mostrar, e como organizar as imagens no inconsciente do público, se vamos ter narração ou comentário musical etc. Meus documentários são mais editados do que a ficção. Nela, uso planos longos, planos sequências, muitas vezes levando a cena, e o ator, ao limite.

Nenhuma cena é mais impressionante do que o plano-sequência quando o caminhoneiro, atravessa a feira na pequena cidade. Como você filmou aquilo?

Desde o roteiro era uma cena chave. Exigiu muito planejamento, mas é o tipo do desafio estimulante. Você tem de construir um espaço, uma forma de realidade, e depois selecionar, através do olho da câmera, o que o espectador vai ver. Como criador de um mundo, você brinca de Deus. Ele concedeu às pessoas o livre arbítrio. Sem me comparar, eu não julgo nada. O espectador que o faça, usando seu livre-arbítrio.

Você espera algum prêmio do júri presidido por Tim Burton? (NR - No final, o filme não recebeu prêmio algum).

Pode ser lugar comum dizer isso, mas o prêmio é estar aqui, mostrando o meu trabalho. Respeito Tim Burton, mas seu cinema baseia-se na imaginação. Ele é feérico onde sou sombrio, o que me interessa é a realidade quase documentária. Se fôssemos um casal, diria que há incompatibilidade de gênios (risos).

MINHA FELICIDADE

Belas Artes 2 - Hoje, 19h30

CineSesc - Amanhã, 18h50

Reserva Cultural 1 - Domingo, 16h50

Cinemark Cidade Jardim 5 - Quarta, 21h

Cinemark Eldorado 7 - Quinta (4), 21h.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.