Eu e Jabor pelo mundo

Já me chamaram de Alexandre de Moraes, de Pondé, de Jabor e de Leonardo Karnal

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2017 | 02h00

Fui, com a família, ao paraíso de Fernando de Noronha. Faz dois anos. Praias lindas, cenas impressionantes, preços altíssimos: voltamos mais felizes e um pouco mais pobres. A praia do Sancho, ao fim do dia, é aquela cena para guardar na memória até o fim dos tempos. 

Fernando de Noronha mostra horizontes edênicos, bons passeios e guias especiais. O nosso era um rapaz carismático e atencioso: Cachorrinho, filho de outro guia tradicional, o Cachorrão. Quando ligávamos com a pergunta: “Alô, Cachorrinho?”. Ele respondia: “Au, au”. Era uma idiossincrasia divertida.

Em determinado momento, vício professoral, eu explicava às pessoas ao meu redor a origem das chamadas pedras piroclásticas, esferas jogadas de vulcões antigos e que, ali na praia, testemunhavam a violenta formação geológica do arquipélago. Falava da história do lugar, o presídio, Vila dos Remédios, etc. Cachorrinho ouviu e lançou um veredicto:

“Depois do Arnaldo Jabor, o senhor é a pessoa mais inteligente que eu já encontrei”. 

Ri da classificação. Suponho que ele tenha guiado o cineasta pelas mesmas sendas. Passaram a usar o epíteto ao jantar na pousada do Zé Maria: Leandro, o segundo homem mais inteligente. Como a madrasta da Branca de Neve, o espelho informava que eu era bom, mas que vinha após outro melhor...

Passados vários meses, estive num evento na Praia do Forte (BA) no qual, pouco antes, Arnaldo Jabor também dera palestra. Os organizadores me elogiaram muito e disseram que a minha estava entre as melhores, mas que o Arnaldo Jabor tinha encantado muito a plateia. Fernando de Noronha vinha à memória... O espelho informava de novo: a enteada ainda brilhava mais. 

Nunca falei com Arnaldo Jabor. Há uma semana, eu o vi sentado no embarque do Rio para São Paulo. Evitei perturbá-lo. Adoro seus filmes e textos, porém jamais estivemos num diálogo pessoal. Também tenho clareza de que melhores do que eu e, claro, Jabor, existe um imenso contingente de gigantes do pensamento. Abaixo, o número também se multiplica com ímpeto. Mas, tomada apenas a classificação do ilhéu, eu seria bom, logo atrás de Jabor. Assim, como ele é um pouco mais velho do que eu, seguindo o destino seu curso inexorável e lógico, eu sobreviverei um par de anos a ele. Após o passamento, finalmente, eu seria o mais inteligente. Ah, se nosso pavão misterioso interno fosse tão fácil... A ideia, perversa e divertida, volta-me por vezes. 

Saindo de um evento na Paulista, entrei num táxi na Alameda Santos. Como acontece por vezes, o taxista reconheceu minha voz. Este, imediatamente, ao anunciar meu endereço, sentenciou: “Eu conheço o senhor”. Porém, escapava-lhe o nome, o que também acontece. Já me falaram: o senhor é o Pondé! Também, com impacto lancinante, já me chamaram de Alexandre de Moraes, ex-ministro da Justiça e atual ministro do STF. Parece que os carecas constituem uma tribo ampla e indistinguível. 

Volto ao taxista. Já em frente ao cemitério da Dr. Arnaldo, ele enfim juntou a voz ao nome. Triunfante, afirmou: “O senhor é o Arnaldo Jabor!”. Eu tive de contrariá-lo, mas ele gostara tanto da descoberta que pouca atenção prestava. Começou a elogiar meus filmes e minhas participações. Aprendi a não contrariar essas pessoas, como a senhora que, em Porto Alegre, insistia muitas vezes que eu era Leonardo Karnal. Por mais que eu a demovesse do Leonardo e corrigisse, ela retomava o erro. Cedi, à força, à metamorfose para dupla sertaneja. 

Será um caso Mozart/Salieri, Bernini/Borromini, Arnold Schwarzenegger/Lou Ferrigno? Sorrio com a ideia. Logo após sua morte, terei vencido essa disputa? Porém, ando muito de avião. E se eu morrer antes? Arnaldo Jabor ocupará o primeiro e o segundo lugares do ranking? Alguém subirá? 

Bem, desejo muitos anos de vida a Arnaldo Jabor. Quem sabe um dia jantemos juntos. Meus jantares andam famosos de um tempo para cá. 

Na verdade, fora a brincadeira deste texto, tenho o projeto de receber mais em casa. No turbilhão de trabalhos e viagens, vamos entrando na caverna do isolamento e perdemos uma chance importante de compartilhar espaços. Essa já é minha meta para o novo apartamento no qual me instalarei em alguns meses. 

Um bom piano, uma mesa de jantar, uma adega, um coração aberto e desarmado e a chance de ouvir pessoas. Compartilhar vida ao redor de pratos e copos é um privilégio único. Voltando às pedras, viver é uma bola piroclástica jogada com força para o céu. Temos de aproveitar a curva graciosa da bólide no céu. Que os jovens descubram logo o que sei agora: o tempo passa de forma muito veloz e, de repente, lá se foi tudo.

 

A vida é uma curva. Tudo tem uma velocidade crescente, ainda que o tempo seja linear. Farei mais jantares. Por precaução, evitarei fotografar. Sem registros, apenas com alma. Sonho com simpósios de Platão, com amigos discutindo e vivendo o prazer do encontro. Sonho com A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas, a linda peça na qual três idosos purpurados discorrem, com inteligência e melancolia, sobre suas vidas. Ao pensarem no passado amoroso, um deles diz: “A saudade de um velho é uma estrada florida”. Uma boa semana a todos. 

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