Eterna Emanuelle

Morre Sylvia Kristel, que virou ícone do pornô chique

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2012 | 03h02

Há dez anos, ela vinha se tratando de um câncer na garganta, mas não foi isso, afinal, que matou Sylvia Kristel. Em julho, a holandesa que ficou célebre como Emmanuelle, na série erótica, havia sido hospitalizada por causa de um derrame que sofrera em casa. Desde então, seu estado foi se debilitando. Sylvia morreu na madrugada de ontem, durante o sono. Tinha 60 anos. A agência que a representava emitiu o comunicado sobre a morte. Sylvia foi casada com o escritor Hugo Claus, com quem teve o filho Arthur. Nos últimos anos viveu 'feliz' com Peter Brul, segundo seu site.

O espectador que ouve essas histórias não dá conta do que Emmanuelle representou nos anos 1970. A década anterior havia sido libertária, celebrando o amor livre. A pílula e a minissaia libertaram as mulheres. Nos 70, houve a ressaca do movimento hippie. O mundo tornou-se mais careta, mas foi quando, ó paradoxo, avançou o movimento feminista. Sylvia parecia situar-se na sua contramão. Era um objeto de desejo masculino, e um belo objeto.

Ela iniciou sua carreira como modelo juvenil. Em 1972, foi eleita Miss TV Europe. Foi quando encontrou seu Pigmalião, o diretor Just Jaeckin. Vindo da publicidade, ele imediatamente percebeu o potencial de Sylvia e fez dela a heroína de Emmanuelle, a Verdadeira, no ano seguinte. Numa época em que, nos EUA, diretores como Gerard Damiano iniciavam uma nova era do pornô - com Garganta Profunda e O Inferno em Miss Jones -, Jaeckin criou o pornô soft, ou chic. Como Emmanuelle, Sylvia virou estrela.

Nu frontal, pernas abertas, mas nada de penetração. Nem o piscar de olhos e as poses provocantes que você vê hoje nos filmes de sexo do Multishow. Emmanuelle - a série prossegui sem ela, depois de alguns filmes - não exigia que Sylvia representasse nem a sua Lady Chatterley, que fez em 1981, de novo com Just Jaeckin. Entre ambos, em 1976, Sylvia fez seu melhor filme - Alice, ou A Última Fuga, de Claude Chabrol. A personagem não era Alice por acaso - havia referências a Lewis Carroll. Era uma loucura como aquela mulher caminhava - e encarava a câmera. Apesar da gravidade de seu estado, Sylvia sonhava com a segunda chance. Em 2008, dirigiu um curta elogiado, Topor e Moi. No ano passado, chegou a dizer que gostaria de aparecer em Emmanuelle 3D, que estava em produção.

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