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Estrela por acaso

Gérard Depardieu fala de carreira, livro e de Potiche, que estreia hoje

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2011 | 00h00

Bem antes de ser destaque no Festival Varilux de Cinema Francês em junho e trazer a diva Catherine Deneuve ao Brasil, Potiche - Esposa Troféu, que estreia hoje, foi um dos destaques do Festival de Cinema de Abu Dhabi no fim de 2010. No também chamado Festival de Cinema do Oriente Médio, a exibição de um filme que mostra as contradições entre o que se espera de uma "esposa troféu" e o que esta esposa (Suzanne Pujol, vivida por Catherine) descobre que quer da vida foi, no mínimo, corajosa.

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Em um território onde uma esposa troféu tem infinitos significados, falar de emancipação feminina, tanto cultural quanto política, com o humor peculiar que só François Ozon é capaz de dar ao tema, foi uma escolha criativa do festival.

Ironicamente, foi um homem que representou o longa em Abu Dhabi: Gérard Depardieu, que em Potiche vive Babin, líder sindicalista de esquerda às voltas com a senhora Pujol, seu antigo amor e agora "inimiga". Mulher de Robert Pujol (Fabrice Luchini), dono de uma fábrica de guarda-chuvas autoritário com os empregados e com a família, ela se vê obrigada a assumir o comando dos negócios, quando, após uma greve na fábrica, o marido é sequestrado e tem uma crise. Ela pede ajuda a Babin para botar ordem na situação e "recuperar" o marido.

No caminho, descobre que é muito mais que uma "mulher objeto". Em Abu Dhabi, Depardieu, para quem ser ator é difícil, mas ser atriz é mais ainda, esbanjou sua simpatia peculiar e conversou com o Estado sobre cinema, feminismo, sobre seu ofício e provou porque aos 61 anos, e com mais de 150 filmes no currículo, ainda é um dos atores franceses mais ativos. Ele afirmou que suas escolhas, como a de fugir de casa aos 12 anos para seguir uma companhia de teatro itinerante, sempre foram intuitivas e que, ainda que não se declare "um ator politizado", não tem medo de dar opiniões.

Ozon afirmou no Festival de Veneza (quando Potiche fez sua première mundial) que, para ele você é um gênio, um dos atores mais importantes do mundo. Você sente essa responsabilidade?

Não. Claro que sei que um ator representa não só seus papéis, mas se parar para pensar nisso não trabalho. Nunca quis ser estrela. Não tenho nem mesmo um plano de carreira, apenas vivo minha vida dia após dia.

Ser ator é uma profissão de fé?

Sim. Ser ator é muito difícil. Acho que é mais difícil ser uma atriz do que um ator, mas, não é fácil para os homens também. Temos de lidar com a vaidade, a idade... Veja o meu caso, nem sempre eu gosto de ver essa barriga imensa na tela.

Por que ser atriz, assim como ser "política" ou presidente de uma empresa, é mais difícil?

Ainda é um mundo machista. Envelhecer na frente das câmeras é muito mais difícil para uma atriz do que para um ator. Ninguém quer ver uma diva ficar velha. Poucas, como Catherine, Fanny Ardant, Sophia Loren, conseguem estar acima disso. Beleza é mais do que algo físico. É ter alegria de viver. Tem a ver com a forma como nos sentimos. É como o vinho. Se é ruim quando jovem, mesmo envelhecido, vai continuar sendo ruim. E vice-versa.

Por falar em mundo machista, Ozon afirmou que Potiche, ainda que se passe nos anos 70, diz respeito aos políticos de hoje na França, em especial às críticas sexistas que Ségolène Royal recebeu, da esquerda e direita, quando concorreu contra Sarkozy à presidência.

Infelizmente, o machismo ainda é atual, mesmo com tantas conquistas femininas. Não sou um cara que vê os "movimentos" só. Antes de tudo, vêm as pessoas. Mas é fato que há muito chauvinismo a ser combatido no mundo. E não é de direita nem esquerda. É algo "humano".

Por isso que filmes como Potiche ainda são tão atuais.

Sim. Mas não fiz Potiche porque é um filme político. E não adoro o Babin porque ele é um líder comunista, mas sim porque ele é movido por amor. Além disso, fiz o filme porque adoro a peça (na qual o filme foi baseado, escrita por Pierre Barillet e Jean-Pierre Gredy), porque queria trabalhar com François Ozon, para mim um dos mais talentosos diretores da atualidade, com Luchini, um grande ator que consegue emprestar sua simpatia a um personagem chauvinista que quer dormir com todas as mulheres e, por fim, porque há o Babin, este cão de guarda comunista que se vê apaixonado pela bela Catherine. Enfim, queria fazer uma comédia francesa.

É inspirador ouvir você falar do cinema assim dois anos depois de ter afirmado que deixaria o cinema.

Eu não deixei o cinema. O cinema é que deixou os filmes. Repare bem. Há uma crise de criatividade. Quando eu era jovem, os filmes tinham, no máximo 1.500 cenas. Hoje, tudo tem de ser rápido para entreter o público. Agora, um filme chega a ter 3 mil cenas ou cortes. É uma confusão. Como aprofundar um tema assim?

Mas há outros temas que você quer aprofundar, não?

Sim. Escrevi um livro com minhas receitas (My Cookbook), cuido do meu restaurante em Paris e da minha vinícola no Vale do Rhône, na Provence. Também amo a arte da gastronomia.

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