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Estréia o musical "Elis, a estrela do Brasil"

Agencia Estado

18 Abril 2002 | 15h 42

O caos toma conta do teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. No estreito corredor que leva à entrada lateral do teatro é preciso espremer o corpo para passar entre os músicos - um deles treinando no seu violoncelo. No palco, um berço de criança, cabos de iluminação, refletores e vários atores que cantam a um só tempo testando microfones e a acústica do espaço. O aparente caos prenuncia a estréia em São Paulo do musical Elis, Estrela do Brasil, sobre a trajetória pessoal e artística da cantora Elis Regina. Diogo Vilela, o diretor do espetáculo, espera as coisas se ajeitarem para começar o ensaio. "Na hora tudo sempre dá certo", diz. Ao lado de "sua" Elis, a atriz Inez Viana, ele torce para que se repita em São Paulo o fenômeno da temporada carioca. Para se ter idéia, a bilheteria do CCBB do Rio só abriu três vezes. "Os ingresssos esgotaram-se poucas horas depois da abertura da bilheteria - 9 mil ingressos vendidos em três horas", afirma a produtora Ana Luíza Lima. Como os ingressos podiam ser comprados com antecedência máxima de um mês, foram três aberturas de bilheteria durante a temporada. "As pessoas iam para a fila de madrugada e esperam sentadas em suas cadeiras de praia", conta Vilela. "O público tem vontade de matar a saudade de Elis. E minha intuição foi tomar como base o show Saudades do Brasil", diz Vilela. O musical tem texto de Douglas Dwight e Fátima Valença, mas partiu de uma longa pesquisa, de mais de um ano, acompanhada de perto por Vilela, que assina o roteiro do espetáculo. "Procurei criar uma montagem autoral, sem compromisso com a realidade, mas com imagens simbólicas que revelassem a essência da artista Elis", diz Vilela. Embora reconheça que trabalhou por uma aproximação de imagem entre Inez e Elis, afirma ter evitado a idéia do "cover". Vilela decidiu convidar Inez ao vê-la atuando num musical carioca sobre Cole Porter. "Levei um susto. Fiquei na dúvida se daria conta da tarefa", diz Inez. "Tenho um registro de voz parecido com o dela, mas não queria fazer o ´cover´ e sim um trabalho de dentro para fora. Passei a ouvir Elis o dia inteiro. Claro que não canto como ela, ninguém poderia." A trajetória de Elis é narrada desde a infância, em Porto Alegre, até o auge da carreira. "O musical não tem a carpintaria que as pessoas esperam. Minha tentativa foi inserir as músicas na sua vida, sem compromisso com cronologia", avisa o diretor. Assim, por exemplo, a canção Como Nossos Pais é interpretada por Elis ainda adolescente, em meio a uma discussão com a família. "Com seu primeiro salário ela comprou um sofá e uma vitrola. Eu achei isso muito bonito e significativo em sua vida." São cenas como essa que vão traçando o perfil da artista a um só tempo generosa e temperamental. As passagens de tempo são dadas por projeções de imagens que trazem a ambientação cultural, comportamental, social e política em cada fase da carreira de Elis. "Ela chega ao Rio, por exemplo, no dia 31 de março de 1964, com uma carta de recomendação do então deputado Leonel Brizola", conta Inez. Antes disso, o público acompanhará as primeiras tentativas da atriz de cantar no rádio, em Porto Alegre, com o apoio de sua mãe (Malu Valle) e de seu pai (Marco Oliveira). "Na primeira vez ela não consegue cantar, fica muda. Na segunda, canta, mas sangra pelo nariz." A partir daí o musical recria momentos marcantes de sua carreira como a participação no Festival da Canção da TV Record cantando Arrastão, a parceria com Jair Rodrigues no programa O Fino da Bossa, as brigas com o tropicalismo e o encontro artístico com Tom Jobim. E, na vida pessoal, o casamento com Ronaldo Bôscoli e César Camargo Mariano e o nascimento dos três filhos. Diogo evitou abordar a polêmica em torno da morte de Elis. "Não por nenhum tipo de censura, mas porque isso não interessa", diz. "Em síntese, o musical conta a pungente história de uma mulher que nunca separou a arte de sua própria existência. E Elis nos mostra que um artista, para ser grande, não pode separar vida e arte. Serviço - Elis - Estrela do Brasil. De Douglas Dwight e Fátima Valença. Direção Diogo Vilela. Duração: 2h50 (com intervalo). De quinta a domingo, às 18h30. R$ 15,00. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, São Paulo, tel. 3113-3651. Até 26/5.

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