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Esteira

Luis Fernando Verissimo

O Alvaro insistiu, insistiu e finalmente convenceu o amigo a acompanhá-lo a uma academia de ginástica. O amigo - Rubens - andava deprimido. Acabara um namoro por uma bobagem, uma briga sobre a Marina Silva. Segundo Alvaro, nada acabava com a depressão como uma esteira.

O Rubens ainda resistiu.

- Esteira? Eu tenho um enfarte.

- Tem nada.

- Eu não aguento dois minutos.

- Aguenta.

- Sei não...

- Vamos lá. Na academia você conhece gente. Tem mulheres sensacionais. Pode até pintar um namoro, pra você esquecer a Norminha.

- Será?

- Vamos lá!

- Se eu morrer nessa esteira, você me paga.

- Você não vai morrer. Vai se exercitar. Vai cansar no começo, vai ter dor no corpo... Depois só vai pensar no seu corpo e esquecer todo o resto. Inclusive a Norminha.

- Você garante?

- Por que você acha que as pessoas vão à academia? Pela ginástica, claro. Para emagrecer, ficar em forma, tudo isso. Mas, principalmente, para se concentrarem no próprio corpo e esquecerem todo o resto. O que são exercícios senão gestos repetidos, como os mantras que as pessoas entoam para não pensar, para ultrapassar o pensamento e tudo ao que o pensamento induz, como a angústia? E a depressão?

- Se você diz...

- E vou dizer mais. Sempre achei seu relacionamento com a Norminha meio doentio. Uma obsessão, isso. Não era amor, era mania. Você precisa se libertar da mania da Norminha e recuperar sua mente, esvaziando-a. E só há um lugar para isso.

- Qual?

- Uma esteira.

O Rubens não morreu na esteira mas, no primeiro dia, caiu e quebrou o nariz. Quando soube do acontecido a Norminha correu para o seu lado, aflita, e os dois se reconciliaram, prometendo nunca mais discutir sobre política.