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Espetáculo questiona limites da arte e ensina público a dançar

Quasar Cia. de Dança apresenta 'No Singular' dentro da Plataforma Internacional de Dança

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

10 Outubro 2012 | 03h13

Henrique Rodovalho pensava que não iria mais fazer um espetáculo. Em crise, o diretor da renomada Quasar Cia. de Dança passou a questionar o alcance do seu trabalho. A desconfiar da capacidade de a dança conseguir dialogar com as pessoas.

"Passei um longo tempo trabalhando o movimento, pesquisando isso. Não me arrependo. Mas, agora, é como se fosse a hora da pessoa, e não só do coreógrafo, se colocar", diz Rodovalho.

No Singular, criação que o grupo de Goiânia estreia sexta-feira, 12, dentro da Plataforma Internacional de Dança, é resultado dessa ambição. Fruto da adversidade. Uma tentativa de estabelecer outras pontes, outra relação de proximidade com quem assiste.

"É um espetáculo que tem muitas informações, dados que não são necessariamente da dança, mas de outros universos: eles cantam, falam, andam", relata o artista. "Algo que lembra um pouco o início da Quasar, quando eu não tinha uma base acadêmica de dança e precisava buscar elementos em lugares diferentes."

Em cada cidade por onde o grupo passar, uma cantora será chamada a integrar a montagem. Haverá também um bailarino convidado, que exibirá sua forma particular de dançar. Um grupo de pessoas irá caminhar em cena, recriando uma movimentada paisagem urbana. E, por fim, os próprios espectadores serão convocados a subir ao palco e dançar. No YouTube, Rodovalho gravou um manual para ensinar uma coreografia passo a passo. "Precisava sair um pouco dessa coisa quase inatingível que está se tornando a dança, muito conceitual, e ir ao encontro do público", observa Rodovalho. Em um mundo em que as distâncias estão diminuindo, o percurso da arte também não deve ser dissonante.

Foi o contorno único de cada indivíduo que moveu a companhia nesse trabalho. Em Tão Próximo, seu título anterior, a Quasar se voltava para a relação com a alteridade. Os dançarinos experimentavam algum tipo de proximidade extrema, viram-se chamados a testar os limites entre a intimidade e o convívio social. Agora, porém, é a singularidade que entra em pauta.

Uma singularidade que sobrevive e se alimenta da multiplicidade de informações disponíveis, que resiste à velocidade com que tudo surge e desaparece. Guiada por esse espírito, a nova obra assume o aspecto da internet, com janelas que vão sendo abertas e não se relacionam necessariamente entre si.

O espetáculo está dividido em 20 partes. Em cada um desses momentos, mudam os figurinos, a trilha sonora e o tipo de movimento. "O nosso estilo está ali. Mas ele pode se apresentar de formas diferentes", pontua.

Se colocado em perspectiva, No Singular pode ser encarado também como o primeiro passo rumo a um universo inexplorado. Um teste para que a Quasar ocupe novos territórios.

Para 2013, a agenda da companhia não prevê propriamente coreografias, mas intervenções urbanas e um filme. Em Goiânia, ações e projeções devem acontecer sem aviso prévio. A segunda etapa é a realização de um projeto cinematográfico, que Rodovalho pretende exibir até o final do próximo ano.

A proposta prevê a concepção de um espetáculo stricto sensu. Mas que será apresentado dentro de um set de cinema. A montagem terá sete coreografias, cada uma com sete minutos, a serem filmadas por sete cineastas. Em evidência, estarão partes do corpo - boca, olhos, pernas -, aprendidas em seu aspecto simbólico ou funcional.

Cada diretor, explica Rodovalho, só poderá assistir a uma parcela da obra. E estará livre para lançar o seu olhar sobre ela. "Faremos, assim, um filme-documentário, um filme-arte, alguma coisa assim que não tem direito como definir. Mas que continua sendo dança."

PLATAFORMA INTERNACIONAL ESTADO DA DANÇA

Teatro Sérgio Cardoso. R. Rui Barbosa, 153, 3288-0136. 6ª e sáb., 21 h (No Singular).

R$ 10. Até 23/10. Programação completa: www.cultura.sp.gov.br

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