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Especialista em Machado de Assis analisa iniciativa de 'simplificar' obras

João Cezar de Castro Rocha escreve a convite do Estado sobre a adaptação de livros para linguagem mais 'simples'

João Cezar de Castro Rocha, Especial para o Estado de S. Paulo

09 Maio 2014 | 03h00

Nesta semana, o anúncio de um lançamento no mínimo polêmico levantou uma série de questões acerca da validade da "adaptação" de clássicos da literatura. Estaremos condenados a reduzir o ato de leitura à onipresença do modelo Reader’s Digest?

A escritora Patricia Engel Secco obteve apoio da lei de incentivos fiscais para produzir uma versão "simplificada" de O Alienista, de Machado de Assis. Serão distribuídos 300 mil exemplares dessa adaptação. Infelizmente, o norte do trabalho parece ser o mais prosaico possível.

Por exemplo, Machado escreveu "sagacidade". Pois bem: a equipe coordenada pela escritora "traduziu" o vocábulo para "esperteza". O absurdo do procedimento praticamente dispensa comentários. "Esperteza" evoca o célebre jeitinho brasileiro e seu sentido nada tem a ver com o contexto das quatro ocorrências da palavra na obra.

No primeiro capítulo: "Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia". No segundo capítulo: "Ele mesmo descobria, à força de sagacidade e paciência". No capítulo 12: "Simão Bacamarte, que desde algum tempo notava o zelo, a sagacidade, a paciência, a moderação daquele agente". No capítulo 13: "Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância".

Em qualquer dessas instâncias, "substituir" sagacidade por esperteza empobrece o texto, dificultando seu entendimento. Efeito involuntariamente cômico: o desejo de "facilitar" apenas complica.

E não é tudo: construções "complexas" serão simplificadas. Ora, as frases acima citadas evidenciam que Machado nunca recorreu a inversões sintáticas ou a vocabulário precioso. Em ensaio pioneiro, escrito há mais de 50 anos, Joaquim Matoso Câmara Jr. explicou a permanente atualidade do estilo machadiano: "Já o objetivo de Machado de Assis é a aproximação da linguagem falada, o coloquialismo em suma, para que a narrativa escrita adquira a naturalidade e espontaneidade de um relato oral".

Esclareço, porém, que não se trata de condenar esforços de "adaptação" para públicos mais amplos. São numerosas as transposições de narrativas machadianas às histórias em quadrinhos. De igual modo, o cinema mantém um diálogo produtivo com o autor. Nelson Pereira dos Santos, em Azyllo Muito Louco, propôs uma instigante leitura de O Alienista. Aqui, a adaptação se impõe, pois os meios são diferentes, exigindo a invenção de linguagens particulares.

Na área da ciência, o tema é corriqueiro, e a divulgação científica é um campo consagrado.

Na história da filosofia, penso em autores que "adaptaram" a própria obra.

Em 1739, ao publicar Tratado da Natureza Humana, David Hume surpreendeu-se com a indiferença do público. Afinal, a hipótese central de sua obra, relativa à noção de causalidade, deitava uma pá de cal sobre as pretensões dominantes do pensamento metafísico. Contudo, o silêncio foi quase unânime. Hume não se abateu: ele mesmo "adaptou" seu texto e, em 1748, veio à luz Investigação Sobre o Entendimento Humano. Destaco a importância do gesto: pode-se apresentar um argumento complexo recorrendo a formas diversas de linguagem.

Em 1770, Immanuel Kant familiarizou-se com as críticas de Hume à ideia de causalidade. O impacto foi profundo e Kant passou anos sem nada publicar. No longo intervalo reflexivo, amadureceu A Crítica da Razão Pura, lançada em 1781. Porém, a recepção foi modesta, quase inexistente. Os poucos leitores consideraram a escrita kantiana uma "selva selvagem". E sem a orientação de guia algum. De igual modo, o filósofo alemão não hesitou em apresentar uma versão condensada e mais acessível do livro. Em 1783, publicou Prolegômenos a Toda Metafísica Futura.

Charles Dickens preparou uma versão "reduzida" do seu Conto de Natal para leituras públicas; aliás, muito solicitadas no período natalino, e que ajudaram no equilíbrio das finanças do romancista.

Há também exemplos bem-sucedidos de adaptação na literatura brasileira.

Clarice Lispector publicou onze de Allan Poe, selecionando e reescrevendo contos do escritor norte-americano. Ana Maria Machado enfrentou Sonhos de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare. Nos dois casos, com êxito, pois, em lugar de alterar sua linguagem, as escritoras buscaram verter a visão do mundo e o universo literário dos autores estrangeiros.

A diferença é clara, pois ocorre tradução entre línguas e não adaptação de um clássico para o mesmo idioma. A curiosa prática é chamada no exterior de "modernização", e ainda hoje peças de Shakespeare e ensaios de Montaigne são vítimas constantes desse método. Os resultados soem ser desastrosos. Isso para não mencionar a imodéstia da iniciativa: como se Shakespeare, Montaigne e Machado pudessem ser "modificados" impunemente.

Em relação à obra machadiana, apropriações são frequentes e fecundas.

Fernando Sabino, em 1998, levou adiante um projeto radical, reescrevendo Dom Casmurro, capítulo a capítulo, porém com um narrador em terceira pessoa. Sabino arriscou "uma leitura fiel do romance de Machado de Assis sem o narrador Dom Casmurro" – como ele definiu a tarefa.

Na década anterior, em 1977, um seleto time de escritores reescreveu o conto Missa do Galo, elaborando Variações Sobre o Mesmo Tema. Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Antonio Callado, Julieta de Godoy Ladeira e Autran Dourado revisitaram o conto, explorando ângulos diversos, e, assim, tornaram ainda mais rica a experiência de leitura do texto-fonte. Osman Lins esclareceu o propósito: "Havia exemplos semelhantes na pintura e na música: artistas retomando um tema já realizado por antecessores e desenvolvendo-o a seu modo".

Portanto, nem toda "adaptação" é condenável. Contudo, o trabalho coordenado por Patricia Engel Secco parece ser completamente alheio à literatura do autor de O Alienista.

Simão Bacamarte já não pode reagir. Caso contrário, ampliaria o número de hóspedes da Casa Verde.

JOÃO CÉZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ E AUTOR DE ‘MACHADO DE ASSIS: POR UMA POÉTICA DA EMULAÇÃO’ (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA)

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